PAC e demais programas para mananciais de São Paulo apresentam soluções incompletas 23/7/2008 Se os governos federal, estadual e municipal não investirem na ampliação e diversificação do tratamento de esgoto na região das represas Billings e Guarapiranga, na criação de áreas protegidas e em outras medidas que impeçam que a mancha urbana da Grande São Paulo continue avançando sobre as bacias hidrográficas, a qualidade da água dos mananciais continuará piorando e a sustentabilidade da maior metrópole do País permanecerá em xeque. Há poucas semanas o governo de São Paulo anunciou os investimentos previstos para o Programa de Recuperação de Mananciais (PRM), um conjunto de obras a ser feito em áreas das bacias da Guarapiranga, Billings, Alto Tietê, Cantareira e Cotia, cinco dos principais mananciais da água consumida pelos moradores da Grande São Paulo. As obras anunciadas incluem a urbanização de favelas, ampliação de redes de esgoto e de abastecimento de água, pavimentação de ruas, drenagem e canalização de córregos, entre outras benfeitorias. O investimento total, que soma recursos das prefeituras de São Paulo, São Bernardo e Guarulhos, do governo estadual, da União e do Banco Mundial (Bird), chega a R$ 1,22 bilhão e deve ser concluído até 2011. O investimento é expressivo e deve ser comemorado. O PRM vem sendo elaborado há quase 10 anos e agora se junta ao chamado PAC Mananciais, lançado pelo presidente Lula em abril, e ao Programa Mananciais da Prefeitura de São Paulo. O PRM vai reunir recursos de diversos órgãos do Estado, como Sabesp e CDHU. O PAC conta com verbas federais (R$ 250 milhões da União cedidos a fundo perdido). A prefeitura de São Paulo, por sua vez, já licitou mais de R$ 446 milhões para a região das represas Billings e Guarapiranga. Em comparação ao Programa Guarapiranga, projeto anterior do governo de São Paulo para recuperar e proteger o manancial, realizado entre 1992 e 2000, as ações anunciadas têm quase o dobro de recursos previstos para cada ano de execução, uma média de R$ 217,2 milhões - enquanto o Programa Guarapiranga gastou em média R$ 125,6 milhões por ano. Apesar de mais ricos, o PRM e o PAC Mananciais não devem ser vistos como a garantia de que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e seus 19 milhões de habitantes entrarão definitivamente na rota da sustentabilidade em relação ao uso de seus recursos hídricos e abastecimento de água. Isso porque os programas reproduzem o formato de intervenção do Programa Guarapiranga, que, embora tenha resultados positivos em relação a urbanização de favelas, não evitou uma piora na qualidade da água dos mananciais da região e tampouco forneceu soluções adequadas para reverter as tendências de degradação das bacias hidrográficas, como a ocupação desordenada da região, desmatamento das margens das represas e lançamento de esgoto nos rios e córregos, que redundam exatamente na diminuição da qualidade da água de todos os reservatórios da RMSP. Para que estes processos sejam revertidos, outras ações precisam ser propostas e executadas na mesma escala e com montante de recursos equivalente, tais como: Diversificar tratamento de esgoto Nesse aspecto, o Programa Guarapiranga serve de exemplo a não ser seguido: quando realizado, se limitou a afastar o esgoto que corria a céu aberto em algumas áreas, mas não o coletou e o tratou integralmente. Deste modo, ainda que algumas das áreas ocupadas precariamente tivessem tido melhorias urbanísticas com o afastamento do esgoto, que prejudicava a saúde e a qualidade de vida da população local, a falta de coleta integral e de tratamento fez com que o mesmo esgoto passasse a chegar em maior volume e com maior velocidade nos rios e córregos que desaguam na Guarapiranga, e também na própria represa, piorando a qualidade da água do manancial. O ISA defende que a implantação do saneamento não se fundamente apenas na execução de grandes obras e deixe de lado alternativas que sejam mais vantajosas para as comunidades locais. Há uma grande diversidade de soluções técnicas para tratamento de esgotos e poluição difusa, que merecem estudo caso a caso, dependendo das características locais. Algumas delas inclusive podem gerar renda para as comunidades, envolvendo os moradores com a construção e manutenção das estações e formas alternativas de tratamento. Ampliar áreas protegidas Os remanescentes de Mata Atlântica ocupam 40% da bacia da Guarapiranga e 50% da Billings. Nem o governo de São Paulo nem o governo federal parecem preocupados com a proteção destes remanescentes ou com a de outras áreas não ocupadas e ambientalmente frágeis, como margens de córregos, nascentes e topos de morro. Em relação ao conjunto de intervenções, os recursos destinados a novos parques são minoritários ou dependem de outros recursos, como os previstos para a compensação dos impactos ambientais do Trecho Sul do Rodoanel. A urbanização de núcleos habitacionais e a contenção da ocupação urbana devem fazer parte de um conjunto de ações para preservar os mananciais, mas é necessário garantir a proteção do que está hoje preservado. O que a prefeitura de São Paulo tem feito é criar parques na orla da represa de Guarapiranga que, ainda que importantes para o lazer das comunidades do entorno, são integralmente urbanos e com áreas pequenas, o que não acrescenta soluções significativas para a produção de água. Impedir o avanço da cidade sobre os mananciais Envolver e oferecer informações à sociedade Como forma de acompanhar e monitorar esse conjunto de intervenções públicas nos mananciais de São Paulo, entidades da sociedade civil, como o ISA, Fundação Getúlio Vargas, CDHEP, Ministério Público, Fórum de Defesa da Vida, movimentos de moradia da região dos mananciais, entre outros, fundaram o Observatório de Recursos Públicos, que pretende monitorar algumas das obras previstas e concentrar informações de diferentes órgãos e instituições públicas envolvidos nos projetos.
Fonte: Ambiente Já / ISA. |