Vilmar
Berna ECOLOGIA PARA LER, PENSAR
E AGIR
Ética e educação ambiental para
todas as idades
“Não é a terra que é frágil.
Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido
a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada
do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente
nos destruir. “ James Lovelok
Primeira parte
ATEIA DA VIDA
“Tudo
está relacionado entre si.
Tudo o que fere a terra,
fere também os filhos da terra.” Cacique Seattle, 1855
Você faz parte da espécie Homo sapiens. Ela surgiu
há apenas 90 mil anos. Como o planeta possui cerca de 4,6
bilhões de anos, você pode ver que somos muito novos
ainda. Os tubarões e as baratas, por exemplo, já existem
há mais de 300 mil anos.
Tem
gente que ainda pensa que os seres humanos vieram dos macacos, mas
isso é falso. Se fosse verdade, os macacos também
já teriam se transformado em seres humanos. Acredita-se,
no entanto, que seres humanos e macacos tenham tido um ancestral
comum, um ser do qual ambas as espécies se originaram, cada
uma seguindo depois um caminho diferente de evolução.
Outros
pensam que foi Deus quem criou todas as coisas diretamente, mas
a própria evolução das espécies na natureza
mostra o contrário. Se tivesse criado tudo diretamente, o
elefante, por exemplo, continuaria até hoje com 60 centímetros
de altura, como seu primeiro ancestral, há 58 milhões
de anos.
Isso
não quer dizer que Deus não existe ou que não
tenha sido o criador de tudo, apenas que Ele não precisa
ficar criando tudo diretamente. Por exemplo, Deus não precisou
criar coisas com capacidade de cair. Bastou criar a força
da gravidade para as coisas caírem naturalmente. Ou seja
Deus não precisa interferir na forma como a energia se transforma
em partículas da matéria ou como os átomos
e moléculas se arrumam e desarrumam, muito menos como os
seres vivos se adaptam ao meio.
Para
Deus, bastou criar as forças que permitiram a existência
de tudo o que conhecemos, como a força da gravidade, por
exemplo, que mantém em suas órbitas os satélites,
planetas, estrelas, sistemas solares, galáxias; ou a força
eletromagnética, que permitiu as polaridades entre as matérias,
combinando positivo e negativo; a força da interação
fraca, que mantém os elétrons em torno do núcleo
dos átomos; a força da interação forte,
que mantém o núcleo do átomo unido. Einstem
acreditava que, no início da Criação, estas
quatro forças formavam uma única força, cuja
divisão veio resultar na existência de tudo o que conhecemos
hoje.
Como
podemos ver, Deus é muito mais poderoso do que imaginamos
Ele não precisou ficar criando estrelas planetas sistemas
solares e muito menos plantas água animais seres humanos.
Bastou criar as forças básicas do universo e mantê-las
ativas, e tudo o mais foi acrescentado, fruto da evo1ução
natural das coisas na adaptação às condições
de seu meio.
No
universo, portanto, não existe uma espécie mais especial
ou importante que outras, já que, por mais maravilhosa que
seja, não conseguiria sobreviver sozinha.
Precisamos
uns dos outros. Só existimos porque os outros existem. Não
haveria galáxias sem Universo, nem Sol sem Via-Láctea.
Muito menos nosso planeta existiria sem o Sol. Não haveria
animais sem as plantas, nem plantas sem água, ou o solo sem
as rochas. Muito menos existiriam seres humanos sem os outros seres
da natureza, incluindo aí o ser vivo chamado Gaia, o outro
nome do nosso planeta.
Esse
dom maravilhoso chamado Vida constitui, na verdade, uma enorme teia
entrelaçada, conforme disse o índio Seattle há
mais de um século, a qual, ao contrário do que muitos
possam imaginar, não foi nossa espécie quem teceu
ou muito menos sustenta. Somos apenas um dos seus fios. A extinção
de espécies da fauna e da flora, causada em sua maior parte
por nós próprios, destrói um por um os fios
da teia da \'ida. Vida que somos incapazes de recriar. Um ser extinto
é um ser que desaparece para sempre e, quando isso acontece,
a vida se empobrece um pouco mais e a teia enfraquece, comprometendo
não só as atuais gerações que habitam
este planeta, mas também as futuras.
O
planeta não pertence à nossa espécie. Muito
menos são nossos os recursos naturais os ecossistemas, o
meio ambiente a vida da fauna e da flora. Alguém já
disse que não herdamos de nossos pais ou avós o direito
de usufruir dos recursos do planeta, mas estamos tomando-os emprestados
de nossos filhos e netos. A sobrevivência e qualidade de vida
das futuras gerações dependerão do que estivermos
fazendo aqui e agora.
Um
órgão qualquer de nosso corpo, como um braço
ou co-ração, não teria vida própria
fora de nós, ainda que tivessem consciência de sua
natureza e existência. Nós também não
podemos existir fora da natureza. Assim como nosso braço
ou coração só existem porque nosso corpo existe,
também existimos porque a natureza existe. Não somos
algo separado da natureza ou do planeta. Somos partes deles. A ilusão
de individualidade é apenas resultado de nossa evolução
social, mas não interfere em nada em nossa natureza biológica.
Torna-nos conscientes de nossa existência, mas continuamos
seres tão dependentes da natureza quanto qualquer outro.
Portanto, eu, você, todo o mundo, somos partes de um corpo
muito maior do que nós.
Esse
corpo poderia ser o planeta Terra?
Será
que a Terra é, afinal, o único ser vivo do qual nossa
espécie, os animais, as plantas, os ventos, a água,
são apenas como braços ou o coração?
Provavelmente que não, pois também o nosso planeta
não pode existir sozinho, fora do sistema solar. O Sol, por
sua vez, também não existe sozinho, mas depende da
Via-Láctea. As galáxias expandem-se como numa explosão,
afastando-se umas das outras cada vez mais, e também dependem
desse movimento para continuar existindo como são.
Os
cientistas acreditam que as galáxias perderão a força
inicial que as fez expardir-se e, a partir desse momento, convergirão
novamente para o ponto de partida, fazendo o universo encolher-se.
Nesse ponto, os cientistas confirmam o que os místicos hindus
já sabiam há milênios. Segundo eles, o universo
nada mais é que o corpo de Brahma (o deus hindu) em expansão
e, quando chegar a noite de Brahma, ele voltará a encolher.
Os hindus crêem que tudo o que existe — seres humanos,
plantas, animais, planetas, Sol, galáxias — é
apenas parte de um único corpo: o corpo de Deus.
O
importante é que você possa se alegrar por não
estar sozinho, por se sentir parte de uma coisa muito maior que
suas pequenas angustias, injustiças e sofrimentos. Poder
olhar o céu numa noite estrelada e se sentir um com toda
aquela imensidão. Saber que a noção de eu,
de individualidade humana, não passa de uma ilusão
de nossa mente que pode ser muito útil para nos identificar
socialmente, mas que não tem nenhuma importância para
a natureza, pois não somos algo fora dela, separados da Criação
ou de Deus. Somos partes integrantes de tudo isso.
Segunda parte
PENSAR GLOBALMENTE, AGIR LOCALMENTE
“Falar sobre o futuro só é útil se levar
à ação agora. E o que podemos fazer agora,
enquanto ainda estamos em condições de afirmar que
‘a vida nunca foi tão boa’? (...) Cem gramas
de prática geralmente valem mais do que uma tonelada de teoria.” E.F. Schumacher
Jogamos fora alguma coisa quando ela deixa de ser útil para
nós. Primeiro, não nos ocorre que essa coisa possa
continuar sendo útil, por exemplo, utilizando-se o outro
lado da folha de papel. Ou ser útil de uma outra maneira,
como um saquinho de leite, que pode virar porta-semente para uma
muda de planta. Segundo, não nos ocorre que, o que não
é mais útil para nós pode ser para outros.
Sobras de alimento podem virar comida para animais ou adubo para
plantas. Terceiro, muita coisa que usamos já é feita
para virar lixo, como as embalagens e objetos descartáveis
feitos para jogar fora. Quanto maior o lixo, mais material é
desperdiçado. Podemos diminuir bastante o volume do lixo
limitando nossa tendência consumista e evitando comprar supérfluos
ou cosas desnecessárias. Quarto, jogamos as coisas fora,
num canto distante, como se bastasse colocar nosso lixo longe de
nós para ele deixar de nos importunar. Esquecemos que lixo
é o lugar ideal para a proliferação de moscas,
ratos, mosquitos, baratas, que voltam voando ou rastejando para
dentro de nossas casas, trazendo doenças com eles, além
descontaminar o meio ambiente. E depois, o fundo do quintal ou um
terreno distante podem ser fora de nossa casa ou do município,
mas é dentro do Estado ou do planeta. Não existe "lá
fora" dentro do planeta Terra.
Não
adianta você só ler ou estudar muito sobre ecologia
ou questão social, e não fazer nada para mudar. A
transformação da realidade começa primeiro
em nós próprios, depois à nossa volta, no bairro,
no país. Muitas vezes não participamos de um mutirão
de limpeza ou plantio de árvores em nossa comunidade porque
ninguém nos convida. Esperamos sempre que alguém venha
fazer alguma coisa por nós: que a prefeitura venha melhorar
o lugar onde vivemos, cuidar de nosso lixo. preservar nosso meio
ambiente; que os vizinhos façam algum movimento em defesa
e melhoria da rua ou do bairro; que os cidadãos elejam um
governador ou presidente da república melhor. Na verdade,
nada muda se você não mudar primeiro.
A
preservação do planeta, uma sociedade mais justa e
igualitária, uma relação mais fraterna e menos
egoísta entre as pessoas, tudo isso depende de grandes e
pequenas tarefas. Se você fizer sua parte, estará contribuindo
para tornar isso possível. A humanidade não é
nada mais que a soma de indivíduos corno você. As instituições,
os governos, são seres abstratos, mas dirigidos por pessoas
reais, de carne e osso, cheias não só de defeitos,
mas também de virtudes, como nós. Comece primeiro
no nível pessoal. reveja seus valores, objetivos de vida,
sua perspectiva de Futuro. Remova tudo o que é autoritário
e provoca ódio ou ressentimento em você mesmo e nos
outros. Exija menos do mundo e dos outros, e mais de você.
Mude hábitos, atitudes e comportamentos agressivos, desperdiçadores
ou poluidores do meio ambiente.
A
despoluição do planeta depende também da despoluição
do nosso próprio ser. Uma pessoa que defenda a ecologia,
por exemplo, e se relacione de maneira egoísta e agressiva
com seus semelhantes, não conseguirá convencer ninguém
de seus propósitos. Nós costumamos acumular muito
lixo e poluição mental e espiritual, como ressentimentos,
intolerância, preconceito, insegurança, descortesia,
etc., que impedem que possamos ver o que há de bonito no
mundo e nas outras pessoas em volta de nós. Faz com que percamos
a perspectiva de que a realidade nada mais é que a soma dos
bons e maus momentos. Faz com que cometamos o erro maniqueísta
de dividir o mundo e as pessoas com quem nos relacionamos em boas
e más, como se houvesse a bondade e a maldade absolutas.
Não
espere, no entanto, tornar-se perfeito. Ninguém consegue.
O processo de busca do eu e de melhoria como ser humano é
uma conquista permanente, que não acaba nunca. O importante
é que você não se sinta culpado por estar investindo
em seu próprio aperfeiçoamento interior, enquanto
o mundo se afoga cm injustiças e violências, pois você
tem o direito e o dever de ser feliz, e não seria justo com
ninguém abrir mão disso por uma felicidade social
futura e hipotética, que exige muito mais que o esforço
de uma única geração, ou de um indivíduo.
E,
além disso só quem é feliz pode transmitir
felicidade. Só quem se ama pode amar outras pessoas. Só
quem é justo, consigo mesmo pode construir um mundo melhor
com outras pessoas Isso não significa de maneira nenhuma
que devemos nos fechar para o mundo, numa atitude egoísta
diante da dor e sofrimento alheios. E importante que você
se engaje nas lutas pela transformação da realidade,
pois de nada adianta ser ecológico sem lutar pela ecologia,
democrata sem lutar pela democracia, justo sem lutar pela justiça.
Nossas ações acabariam no descrédito além
de não servirem de exemplo para os outros.
Também
não espere que alguém, ou algum livro, ou um líder
carismático venha lhe indicar o caminho sobre como viver
a sua vida. Não há caminho, nem jeito de caminhar,
pois o que pode ter servido para alguém num determinado tempo
e lugar, pode não não servir novamente. A realidade
é dinâmica, a história é recriada permanentemente,
não há indivíduo igual ao outro, portanto,
fique de olhos abertos para o mundo. Descubra o que há de
belo nas pessoas em volta de você. Não cometa a tolice
de se proteger do mundo ou dos outros para não sofrer, muito
menos desista diante das dificuldades ou obstáculos. Crescemos
quando enfrentamos a realidade.
Nosso
cérebro nos engana. Procure perceber a realidade, e as outras
pessoas, também com os sentimentos e a instituição,
sem abandonar o conhecimento racional, naturalmente, mas buscando
a integração mente-sentimento-intuição-experiência.
E tome cuidado com os falsos conceitos que, apesar de mentirosos,
podem ser lógicos e fazer sentido, como nossa noção
de progresso e desenvolvimento, por exemplo, que não costuma
levar em conta o planeta, seus ecossistemas, os animais e as plantas,
nem mesmo as populações nativas e indígenas,
que possuem outro modo de viver a vida. Nossa visão utilitarista
considera o planeta como armazém de recursos para nosso “desenvolvimento”,
e os povos nativos e indígenas como “atrasados”.
O progresso, para nós, “civilizados”, é
basicamente produzir para consumir e criar para produzir, numa lógica
de produção-consumo, onde o ideal é a aceleração
deste ciclo, até que todos tenham acesso ao mercado de consumo.
Pouco se percebe que isso é apenas um modo de vida, e que
podem existir outros, como o dos índios. Ou seja, o que é
“progresso” em nossa sociedade, pode não ser
em outra. Se, para nós, abrir uma estrada em plena selva
pode ser chamado de progresso, para os povos da floresta e para
a fauna e a flora, é atraso. Não é só
a espécie humana ou só a sociedade de consumo que
tem direito ao planeta.
Terceira
parte
FERA DE NÓS MESMOS
“O holismo significa uma visão não fragmentada
do real, em que a senção, os sentimentos, a razão
e a intuição se equilibram, se reforçam e se
controlam reciprocamente, permitindo ao ser humano uma consciência
plena, a cada momento, de todos os fatores envolvidos em cada situação
ou evento de sua existência, produzindo, assim, decisão
certa no momento exato, com sabedoria e amor espontâneos,
a partir de valores éticos de respeito à vida, sob
todas as formas.” Pierre Weil
Somos o resultado de duas heranças. A herança biológica
— produto do Homo sapiens, originada de milênios de
evolução natural, e que nos coloca na natureza como
um dos constituintes da cadeia alimentar. Nessa condição
estamos submetidos a leis naturais - que não dominamos -,
e que regem a evolução dos seres vivos em geral. Nossa
outra herança é a social - produto humano-, que adquirimos
enquanto crescemos, originada do tipo de organização
e cultura em que vivemos, da forma como nos adaptamos ao meio ambiente.
É resultado de um processo de autocriação em
que, ao mesmo tempo que interagimos com a natureza, criamos nossa
própria existência social, submetidos a forças
econômicas, sociais e políticas, que não mudam
nossa natureza biológica, mas determinam a forma como suprimos
nossas necessidades biológicas, desenvolvemos potencialidades
ampliamos o ambiente humano. A herança social é um
produto histórico e como tal muda no decurso do tempo e de
um lugar para outro.
É
essa combinação do que herdamos da natureza com o
que herdamos da sociedade em que vivemos que nos torna diferentes
dos outros seres da criação e nos da a capacidade
de discernir entre o que é melhor e o que não é,
possibilitando atuar sobre a realidade no sentido de transformá-la
produzindo assim a evolução social. Infelizmente,
temos usado este poder para piorar o mundo, destruir o meio ambiente
dominar e explorar os outros seres da Criação e nossos
próprios semelhantes. Precisamos agora fazer o contrário.
Devido
às diferenças de lugar, determinadas tanto pela evolução
natural quanto pela social, associadas à criatividade humana
e sua capacidade de adaptação, cada povo desenvolveu
formas, maneiras, culturas, ideais que variam em função
da história de cada um. Isso vai determinar jeitos diferentes
de interpretar a realidade, adaptar-se ao meio ambiente, viver a
vida. Portanto, o que é bom, certo ou verdadeiro num determinado
tempo e lugar, pode não o ser em outro. Somos influenciados
por essas diferenças e nos tornamos diferentes uns dos outros,
embora iguais em direitos e dignidade..
O
fato de sermos diferentes não nos dá o direito de
explorar ou humilhar outro semelhante ou nos julgar superiores a
ele como tem acontecido ao longo da história humana, em que
uns povos sempre se julgaram no direito de escravizar e assassinar
outros povos, como ainda acontece hoje com os chamados povos da
floresta perseguidos pelos “homens brancos”. E, de uma
certa forma, também entre nós, quando usamos as diferenças
para discriminar pobres, mulheres, negros, menores, idosos, deficientes
físicos e mentais, povos nativos etc.
Nossas
diferenças, ao contrário de serem motivos de fragilidade
da espécie humana, são fatores de fortalecimento.
Se fôssemos todos iguais, não seríamos capazes
de nos adaptar aos diferentes meios ambientes do planeta.
A
riqueza, acumulada com a superexploração dos recursos
naturais e da mão-de-obra humana, não é distribuída
igualmente entre todos, mas concentra-se nas mãos de uma
pequena parcela de nossa espécie, que consegue viver com
opulência, enquanto a grande maioria sofre coma miséria
e a má qualidade de vida e de seu meio ambiente. É
bom meditar sobre a fala do sábio indígena Hamawt’a:
“O dia em que vocês envenenarem o último animal...quando
não existirem nem flores, nem pássaros, se darão
conta de que dinheiro não se come.”
A
defesa da ecologia não está dissociada, portanto,
da luta pela justiça social e melhor distribuição
de renda. Não há nenhum mérito numa luta em
defesa da natureza que exclua ou deixe em segundo plano as lutas
sociais e democráticas, pois é absurda a situação
em que menos de 1/5 da população do planeta vive com
luxo e desperdício, consumindo 80% das reservas naturais
disponíveis, enquanto a imensa maioria de seres humanos vive
mal. Mais de 1/3 desses padece de fome ou de desnutrição,
e 3/4 não têm acesso adequado à água
e moradia condignas A minoria privilegiada do planeta, em sua quase
totalidade habitantes de países do chamado mundo desenvolvido,
produzem um impacto nas reservas de recursos naturais 25 vezes superior
ao dos habitantes dos países em desenvolvimento.
Portanto,
não é verdadeiro dizer que a nossa espécie
destrói o planeta. A responsabilidade pela destruição
não pode ser igual para todos, pois não é igualo
poder de destruir, muito menos o acesso aos frutos desse assalto
contra os recursos do planeta. Este poder está concentrado
nas mãos de uma pequena parcela de indivíduos de nossa
espécie- Urna minoria, em sua maior parte egoísta
e ambiciosa, que se acha no direito de continuar superexplorando
os recursos naturais do planeta e a mão-de-obra dos trabalhadores
para acumular lucros crescentes e no menor tempo possível
ao mesmo tempo em que investe todo o esforço de trabalho
e os recursos do planeta, não para a superação
de misérias e injustiças, mas para outros fins menos
nobres como, por exemplo, a fabricação de mais e mais
armas e arsenais nucleares. Só o que já existe de
armas nucleares dá para destruir o planeta 40 vezes.
A
espécie humana, infelizmente, está dividida em explorados
— a grande maioria —, e exploradores. Antes os exploradores
utilizavam armas, correntes e chicotes para dominar outros povos.
Hoje usam a dívida externa, a dependência tecnológica,
as economias transnacionalizadas, a cumplicidade com as elites,
a corrupção, a divulgação dos valores
dos exploradores através do monopólio dos meios de
comunicação, como se fossem valores positivos e universais,
para que os explorados não queiram libertar-se, mas, ao contrário,
anseiem alcançar o mesmo padrão devida de seus dominadores.
E, quando isso não acontece, não culpam seus dominadores,
mas a si próprios, por acharem que não tiveram sorte
ou por não terem estudado o suficiente.
Além
disso os países ricos e industrializados do Primeiro Mundo
enviam para os países pobres sua tecnologia suja e seu lixo
perigoso a pretexto de gerar empregos e desenvolvimento ao mesmo
tempo que divulgam princípios e preocupações
ecológicas e acusam os paises pobres de destruírem
as florestas e o meio ambiente numa atitude no mínimo hipócrita.
Melhor fariam se mudassem seu estilo predatório opulento
e egoísta de vida, transferissem tecnologia limpa e despoluidora
para os países pobres investissem mais na superação
da miséria e do analfabetismo e menos em arsenais bélicos
e nucleares Apenas 10% do que se gasta com armamentos daria para
eliminar a fome e a miséria em todo o mundo. O sistema de
ensino que devia formar cidadãos críticos e conscientes
dessa dominação, faz o contrario, auxiliando na domesticação
do aluno a pretexto de prepará-lo profissionalmente para
uma vaga inexistente, já que o mercado de trabalho esta sujeito
às regras econômicas e não as educacionais.
Na
base dessa exploração estão valores culturais
e espirituais que deram origem a sistemas econômicos em que
o egoísmo, a ambição, a inveja, a intolerância,
a prepotência, a competitividade desmedida. Foram elevados
à categoria de virtude. Mede-se o sucesso de alguém
não pelo que ele representa como ser humano, mas pelo quanto
de dinheiro tem no banco, quantos cômodos tem sua casa, o
tamanho da sua piscina, as viagens que faz ao exterior, quantidade
de jóias, quantos carros tem na garagem. Cultua-se, assim,
a competitividade em detrimento da solidariedade, o desperdício
em lugar da economia, ainda que, para atingir tais objetivos, seja
preciso poluir o planeta, destruir ou desperdiçar recursos
naturais e ecossistemas, subjugar outros povos, explorar trabalhadores,
subverter os próprios sentimentos.
Não
é por falta de consciência ambiental que o planeta
é destruído, mas por uma ética distorcida,
baseada em premissas falsas, como a de julgar nossa espécie
superior as demais, superior até à própria
natureza, com direito, portanto, de subjugar, explorar, prender,
matar, poluir, como se estivéssemos acima de tudo isso, como
se não pudéssemos ser atingidos pelas pedras que nós
próprios jogamos para o alto. Nos julgamos semelhantes a
Deus, mas sequer fornos capazes de viver em harmonia com os outros
seres da Criação, que achamos inferiores a nós.
Mantivemos durante todo esse tempo uma visão antropocêntrica
da Criação, como se Deus a tivesse criado por um capricho
apenas para satisfazer os desejos de nossa espécie. Os resultados
não poderiam ser outros, no processo de dominar a natureza;
a pretexto de possibilitar nosso desenvolvimento, fomos nós
que nos embrutecemos, tornamo-nos feras de nós. mesmos.
Quarta parte
ARMADILHA DO DESEJO
“A
não-ação não significa nada fazer ou
permanecer silencioso. Deixe que tudo ocorra como deve naturalmente
ocorrer, de tal forma que sua natureza seja satisfeita.” Chuang Tzu
Dos nossos equívocos, o maior de todos, verdadeira armadilha,
foi a transformação que fizemos de Deus, felicidade,
amor, paz, bem, virtude, em bens a serem atingidos, como se já
não estivessem dentro de nós. Chuang Tzu afirmou que,
ao agirmos assim, colocamos, de um lado, o nosso presente, onde
fica o que julgamos não possuir. Do outro, o futuro distante,
onde está o que desejamos alcançar. O resultado só
pode ser desilusão e alienação.
Quando
procuramos o que não está perdido quem fica perdido
somos nos. Nos dedicamos, então a estudar cada vez mais o
objeto de nosso desejo — seja Deus, felicidade, bem, virtude,
amor, paz — a fim de entendê-lo descobrir onde esta,
como pode ser alcançado. Quanto mais estudamos e nos envolvemos
com teorias, confusão de opções divergentes,
técnicas especiais, ritos, oráculos, menos real o
objeto de nosso desejo se torna. E à medida que vai se tornando
menos real nossa compreensão sobre o que desejamos fica cada
vez mais abstrata e inacessível. Essa busca pode resultar
em maior esforço de estudo obrigando a nos concentrar mais
e mais no meio a ser empregado para alcançar o que desejamos.
E à medida que o fim que queremos — Deus, felicidade
paz amor justiça — vai se tornando distante e difícil
o simples estudo do meio para alcança-lo torna-se mais completo
e exigente ate que todos os esforços devem se concentrar
nesse meio e, então, nos esquecemos do fim A conseqüência
tem sido o vazio espiritual preenchido por valores materiais em
que o TER tornou-se mais importante que o SER, e a inteligência
passou a ser usada para racionalizar nossas brutalidades e éticas
distorcidas.
Outro
grande equívoco de nossa espécie foi eleger a mente
racional como forma privilegiada de conhecimento — senão
a única. Caímos em nova armadilha, pois, na pretensão
de separarmos as coisas para melhor examiná-las, perdemos
de vista o fim último do que estudamos. Se para os diversos
aspectos de nossa realidade — como saúde, religião,
educação etc. — isso foi um desastre, para o
meio ambiente foi arrasador, já que a questão ecológica
deve ser tratada obrigatoriamente sob o ponto de vista holístico.
Não
somos seres separadamente biológicos, espirituais, sexuais,
políticos, artísticos, culturais, etc. Somos isso
tudo ao mesmo tempo. Entretanto, ao analisarmos cada um desses aspectos
de nossa natureza isoladamente perdemos a visão do que é
ser humano em sua essência. O pior e que acabamos elegendo
um ou outro aspecto como sendo importante ou desejável e
discriminamos outros, que fazem parte de nós do mesmo jeito.
Por exemplo, onde se trabalha não se diverte, e vice-versa.
Ao longo da história humana isso sempre foi muito conveniente,
pois não só possibilitou a melhor exploração
do planeta e a opressão aos outros seres da natureza —
sob o argumento de que não eram humanos, ou sequer tinham
alma,como a opressão de nossos próprios semelhantes.
Sempre buscamos, na verdade racionalizar nossas brutalidades contra
os outros seres a fim de nos livrar da culpa por sermos nos seus
destruidores.
Os
donos do poder econômico souberam aproveitar muito bem estes
nossos equívocos. Elegeram um dos muitos aspectos da realidade
— o dinheiro, ou melhor, o lucro —, como o principal,
senão o único objetivo de suas vidas e empresas, como
se o dinheiro fosse a única e principal necessidade humana.
Claro que, em nossa sociedade, o dinheiro é importante, assim
como todas as outras coisas. Mas não deve ser o principal
— muito menos o único — objetivo de nossa vida.
Os
índios e os negros por exemplo escravizados pelos colonizadores
europeus, eram considerados desprovidos de alma como se fossem meio
humanos semelhantes a animais domésticos. Na verdade, os
colonizadores buscavam apenas uma justificativa moral para tanta
opressão e brutalidade. Mais ou menos o que fazemos hoje
com os outros seres da Criação, os animais e as plantas.
Costumamos dizer que os animais e as plantas não pensam;
em alguns casos, que não sentem dor; e quase unanimemente,
que não têm alma. Com esta desespiritualização,
sequer nos sentimos culpados diante do utilitarismo com que tratamos
as outras espécies. Os animais ainda têm defensores,
que lutam contra nossa insensibilidade e crueldade. Alguns chegam
a recusar-se a comer carne. Já as plantas não têm
recebido tanto apoio. E olha que lá foi comprovado cientificamente
e divulgado, no “Livro secreto das plantas”, que elas
têm memória, sentem dor e são muito mais inteligentes
do que a gente pensa.
Esta
visão utilitarista, antropocêntrica e fragmentada da
realidade gerou muitos novos equívocos de nossa parte, afastando-nos
da natureza e de nós próprios, fazendo surgir sociedades
compartimentalizadas como as atuais. A pretexto de suprir as necessidades
humanas de alimentação, abrigo, segurança,
procriação. etc.,criamos cidades cada vez mais complexas,
com divisões de trabalho bem marcadas, onde quem pensa não
faz, quem faz não pensa. Quem tem dinheiro manda, quem não
tem obedece. Os indivíduos passam de seres humanos a objetos
de produção e consumo, como peças de uma enorme
engrenagem, onde não há lugar para os diferentes.
Quem não se ajusta, como os deficientes mentais ou físicos
e os mendigos, quem não produz ainda, como os menores, ou
quem já não produz mais, como os idosos, são
discriminados. Não há lugar em nossa sociedade para
aqueles que não se subordinam à lógica da produção-consumo.
Esse modelo predatório não tem resultado em maior
nível de atendimento às necessidades humanas, mas
em infelicidade, frustração, miséria e destruição
do planeta.
Corno
pretender que seres humanos vivendo em sociedades assim, humilhados,
oprimidos, em péssima qualidade de vida, possam compreender
que não devem matar ou maltratar os outros seres da natureza
que consideram "inferiores"? Konrad Lorenz questionou,
certa vez, "como estimular em nossos adolescentes o amor à
vida e à natureza, se tudo o que eles vêem à
sua volta é obra humana, feia e triste?" Não
há respostas. Pelo menos, não neste tipo de sociedade
em que vivemos, onde só nossa espécie é importante,
onde o lucro crescente e no menor tempo possível é
mais importante que uma vida humana ou a preservação
da natureza. Temos à. nossa frente um desafio sobretudo ético.
Quinta parte UM
MUNDO MELHOR NÃO COMEÇA NO OUTRO, COMEÇA EM
NÓS
“No Oriente, uma pessoa virtuosa não é aquela
que busca concretizar a tarefa impossível de lutar pelo bem
e eliminar o mal, mas, sim, aquela que se mostra capaz de manter
um equilíbrio dinâmico entre o bem e o mal.” Fritjof Capra, “O Tão da Física”
Até aqui a questão era de nossa espécie contra
a natureza. Acreditou-se que, para preservar a natureza, bastava
separar porções de territórios naturais, mantendo-os
longe da voracidade humana. Criou-se, então, os parques e
reservas florestais e leis cada vez mais severas para impedir que
o ser humano poluísse e destruísse a natureza. E claro
que não adiantou muito; afinal, não existe um guarda
para cada cidadão.
O
desafio agora é encontrar urna nova ética para nossa
relação com a natureza, da qual não somos mais
os usufrutuários, mas partes integrantes. Temos a nosso favor
o fato de ainda ser uma espécie nova no planeta, com possibilidades
de aprender e adaptar-se. E mais: contamos com a incrível
capacidade de regeneração natural do planeta, para
quem basta conter a destruição e dar uma 'tmãozinha",
que ele logo se recupera. O planeta tem grande capacidade para absorver
tudo o que fazemos contra ele. Quem não tem somos nós.
Ou seja, as agressões que fazemos contra a natureza voltam-se
contra nós próprios, como bumerangues ecológicos.
É
preciso que se diga também que não foram as últimas
gerações humanas que destruíram o planeta.
Essa responsabilidade precisa ser dividida com as outras gerações
de nossa espécie desde há 90 mil anos, quando surgimos.
Durante os primeiros 80 mil anos fomos caçadores-coletores
e provavelmente responsáveis pela extinção
de muitas espécies, como o tigre-dente-de-sabre, por exemplo.
Depois passamos mais de 10 mil anos como agricultores, abrindo espaço
a fogo na natureza para plantar. gerando excedentes de alimentos
que permitiram não só o aumento da população
humana, com o surgimento de cidades e, com elas, da cultura da vida
em sociedade, da civilização, mas também os
engarrafamentos, favelas, superconcentração urbana
etc.
E
claro que nos últimos 200 anos exageramos na dose, pois a
destruição ambiental passou da escala artesanal para
a escala industrial. Os seres humanos precisam, agora, alimentar
as máquinas com energia e matérias primas gerando
imensa quantidade de lixo, poluição, destruição
maciça de espécies vegetais e animais, e sequer essa
superexploração tem contribuído para o desenvolvimento
e o bem-estar de nossa espécie como um todo, mas para o enriquecimento
de uns poucos povos e indivíduos privilegiados.
Temos
contra nós a capacidade de produzir catástrofes ambientais
em grande escala,
como o incêndio dos poços ele petróleo na Guerra
do Golfo, a explosão da usina nuclear de Chernobyl, as bombas
atômicas de Hiroshima e Nagasáqui, as queimadas na
Amazônia etc., numa escala muito maior do que aquela que nossa
espécie pode suportar, o que nos coloca na imposição
de não errar novamente.
O
planeta seguramente será capaz de sobreviver sem nós.
Entretanto, nós com toda certeza, não sobreviveremos
se o planeta tiver seus ecossistemas vitais comprometidos.
O
mundo mais pacífico, justo, fraterno e ecológico que
imaginamos não começa no outro, muito menos depende
unicamente dos líderes políticos e religiosos, mas
começa em nós próprios. Para ser mais preciso,
em você mesmo, neste exato momento.
Vilmar é editor da REVISTA DO MEIO AMBIENTE
e do Portal do Meio Ambiente
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