Há um evento conseqüente com respeito aos filhos da humanidade e um evento conseqüente com respeito ao animal, e há para eles o mesmo evento conseqüente. Como morre um, assim morre o outro; e todos têm apenas um só espírito, de modo que não há nenhuma superioridade do homem sobre o animal, pois tudo é vaidade. Todos vão para um só lugar. Todos eles vieram a ser do pós e todos eles retornam ao pó.” – ECLESIASTES 3: 19 – 20.
De uma coisa o índio tem certeza: a terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra, pois tudo está inter-relacionado entre si. O que fere a terra fere também os filhos da terra. Não é o homem quem tece a teia da vida, ele é apenas um de seus fios. O que quer que faça a essa teia faz a si próprio.” - Cacique Seatle (1855), respondendo ao Presidente dos EUA, que pretendia tomar as terras dos Índios.
BICHO
TEM ALMA? Conversas sobre natureza e ecologia para quem não
tem tempo.
VILMAR BERNA
De uma coisa o índio tem certeza: a terra não
pertence ao homem, é o homem que pertence à
terra, pois tudo está inter-relacionado entre si. O
que fere a terra fere também os filhos da terra. Não
é o homem quem tece a teia da vida, ele é apenas
um de seus fios. O que quer que faça a essa teia faz
a si próprio.
Cacique
Seatle (1855), respondendo ao Presidente dos EUA, que pretendia
tomar as terras dos Índios.
Muitas vezes achamos que, para respeitar o meio ambiente, basta
conhecer bastante sobre ciências, geografia, plantas e bichos.
Mas não é bem assim.
Não é por falta de conhecimento que o meio ambiente
é destruído. Mas porque faltam valores éticos
e espiritualidade. Nós somos partes do planeta. Não
podemos fazer com ele o que quisermos, pois, no fim, nossa espécie
é que acaba sendo prejudicada.
O planeta não e um armazém de recursos naturais infinitos
ou uma enorme lixeira que possa suportar indefinidamente nosso modelo
predatório de desenvolvimento.
Não somos donos da natureza. A natureza e que é dona
de nós. Se continuarmos poluindo e destruindo tudo, será
a nós próprios que estaremos destruindo. Por isso
deve haver limites para o crescimento humano. Mas que limites são
esses? Não sabemos e descobri-los é nosso desafio
e das gerações futuras.
Mas não basta só mudar nossa relação
com o planeta, com as plantas e com os bichos. Precisamos mudar
nossas relações entre nós próprios,
pois, se vivemos num sistema baseado na exploração
de um pelo outro, como compreender uma relação mais
harmônica entre nossa espécie e as outras, consideradas
"inferiores"?
Também precisamos rever nossos valores pessoais. Nossa idéia
de felicidade é mais baseada no ter do que no ser. Confundimos
felicidade com a posse de bens materiais, fama, poder, e isso gera
mais e mais necessidade de recursos naturais para produzir esses
bens e relações humanas cada vez mais baseadas na
competição e domínio de uns sobre os outros,
gerando destruição ambiental e infelicidade nas relações
humanas.
“BICHO TEM ALMA?” foi escrito para
crianças e jovens que se preocupam com questões como
estas. Não me proponho apresentar respostas prontas, mas
estimular o pensamento, a reflexão, a criatividade diante
de um mundo cada vez mais complexo e desigual.
A busca de um mundo melhor; mais fraterno e ecológico, exige
decisões e mudanças a partir do indivíduo assim
como do governo. Precisamos estar preparados para viver e influir
neste mundo.
Vilmar
Berna
1
Por que o mar não transborda e invade a terra?
O
sol aquece as águas. Elas evaporam e sobem para o céu,
formando as nuvens. Os ventos sopram as nuvens para a terra, onde,
encontrando o ar mais frio, deixam cair as águas em forma
de chuva. Na terra elas escorrem e voltam para os rios, lagos, lençóis
subterrâneos, indo novamente para o mar, onde tudo se repete.
A água nunca se esgota, ela apenas muda de lugar, transformando-se
de um estado líquido para gasoso — e vice-versa —,
por isso, o mar não transborda, pois ora enche, ora esvazia.
A água é fundamental em nossa vida. O ar que respiramos
possui duas vezes mais água, em forma ele umidade, que oxigênio.
Nosso corpo também é formado por mais da metade de
água. Apesar de toda essa importância, o ser humano
se agride retirando a umidade do ar com aparelhos de ar condicionado
o que provoca ressecamento da pele e das mucosas, além de
outros problemas. Isso sem falar na poluição lançada
nos rios, lagos e oceanos. As águas, quando evaporam, levam
junto os venenos. Em muitos lugares, quando chove, cai ácido
das nuvens em vez de água.
2
É Deus quem sopra o vento?
Durante o dia o sol aquece a terra e o mar. Só que a terra
esquenta mais rápido que a água. O ar que estava na
terra esquenta e sobe para o céu, fazendo com que o ar frio
do mar venha para a terra, ocupando o lugar do outro ar que subiu.
O vento se forma quando o ar se movimenta assim, de um lugar para
outro. Deus não precisa ficar soprando para fazer vento!
3
Foi Deus quem plantou as florestas?
Ao comer um frutinho qualquer, o passarinho engole também
a semente. Quando ele fizer coco, a semente vai cair no chão.
Se o solo daquele lugar for bom, pode nascer ali uma plantinha.
Este é apenas um exemplo de como nascem as florestas. As
sementes são muito espertas e descobriram mil maneiras de
ser transportadas de um lugar para outro. Umas são levadas
pelo vento, outras vão grudadas nos pêlos dos animais,
caindo quando secam, ou viajam nas patas dos insetos que pousam
em suas flores para beber o néctar. Com tantos jardineiros,
Deus nem precisa preocupar-se em plantar florestas, a própria
natureza se encarrega disso.
Nada existe isoladamente na natureza, tudo está interligado.
Se um animal ou planta desaparecem, aqueles que dependiam deles
desaparecerão também. Uma árvores, por exemplo,
abriga um verdadeiro ecossistema de insetos, pássaros e outros
animais, além de haver a relação com o solo
e com o ar.
4
As plantas comem o quê?
Sem o sol a vida não existiria, pois todos os seres se alimentam,
direta ou indiretamente, da sua energia. Quando comemos um legume,
por exemplo, é a energia do sol que está naquele legume
que estamos comendo! A não ser por uns poucos tipos de cogumelos,
as plantas são os únicos seres vivos do planeta que
conseguem comer a energia do sol diretamente, através do
processo conhecido como fotossíntese. Os animais que comem
plantas recebem essa energia e, por sua vez, transferem a energia
do sol para outros animais quando são comidos por eles.
Assim como a água, a energia do sol não acaba nem
diminui, apenas muda de lugar. Quando um animal morre, a energia
do sol a qual havia nele será comida por outros animais visíveis
e invisíveis. A energia será novamente absorvida pelas
plantas, reiniciando todo o ciclo.
5
Plantas também têm nariz?
Claro que sim, só que não é igual ao nosso,
mas elas também respiram. Todos os seres vivos, quando respiram,
colocam ar bom para dentro, chamado oxigênio, e ar venenoso
para fora, chamado gás carbônico. As plantas fazem
o contrário. Elas respiram o gás carbônico e
jogam fora o oxigênio!
Quem mais contribui com o oxigênio que respiramos são
as algas do mar, afinal, nosso planeta é composto de duas
vezes mais água do que terra. Ao jogar lixo e óleo
no mar, matamos as algas. Daqui a pouco pode faltar oxigênio!
6
Por que as flores são coloridas?
A natureza não fez as flores coloridas e perfumadas apenas
por capricho ou vaidade.
Elas têm uma importância muito grande para o equilíbrio
da vida no planeta.
O perfume atrai certos insetos, como abelhas, por exemplo, indicando
onde está o néctar, substância muito doce sem
nenhuma serventia para as flores a não ser alimentar os insetos.
Só que, ao alimentarem-se do néctar, os insetos carregam
o pólen nas patinhas sem saber. O pólen é a
sementinha das plantas, e assim os insetos ajudam a garantir a sobrevivência
delas, e elas a dos insetos. Se alguém mata os insetos, nascerão
menos flores e, conseqüentemente, existirão menos frutos.
As flores não existem para ser úteis ou para servir
aos insetos, nem os insetos existem para garantir a sobrevivência
das plantas, apenas cada um cumpre sua natureza de flor ou de inseto,
realizando bem o que sabem fazer. A mangueira, por exemplo, não
se esforça para dar laranjas. O ser humano é o único
animal que tenta ser o que não é, esquecendo-se de
sua natureza humana. Passa sua vida tentando acumular bens materiais,
fama ou poder, dedicando sua existência ao ter; em vez do
ser.
7
Bicho tem alma?
Os cientistas, depois de estudarem os animais em laboratórios,
descobrem que eles têm tudo o que o ser humano tem: ossos,
músculos, nervos, cérebro, hormônios, indicando
que os animais também sentem dor e, assim como nós,
têm sentimentos!
Os cientistas também fazem testes com os animais para ver
se eles pensam. Os animais não entendem O que queremos, nem
respondem como nós achamos que deveriam responder, então
concluímos que os animais não pensam. Será?
Ou será que os animais pensam, só que de maneira diferente
da nossa? Os golfinhos, por exemplo, têm mais de 20 mil tipos
diferentes de sinais para se comunica enquanto o ser humano possui
apenas cerca de 4 mil. Ou seja, eles entendem-se tão bem
por sinais que nem precisam inventar palavras como nós!
E quem disseque bicho não tem alma? Será que Deus
resolveu dar alma apenas a nós, humanos? Será que
os animais são tão cruéis, maus e indignos
a ponto de não merecer também esta dádiva?
Ou será que nós, acostumados a afirmar que os animais
não pensam nem têm sentimentos, resolvemos também
destituir os bichos de ter alma?
8
Existem outros planetas iguais ao nosso?
Até a metade do século passado, os humanos pensavam
que a terra fosse o centro do universo. Depois Copérnico
comprovou que não era nada disso, nosso planeta não
passava de grãozinho de poeira perdido no espaço,
comparado com o tamanho dos outros astros.
Claro que isso não quer dizer que somos os únicos
no universo, apenas significa que as distâncias são
muito grandes e, enquanto não descobrirmos outra maneira
de nos comunicar fora da Terra, continuaremos isolados aqui.
Descobrir que a Terra é tão pequena não é
motivo para ficarmos tristes ou nos sentir insignificantes. Devemos,
ao contrário, nos orgulhar de participar da Criação,
com o privilégio de estai conscientes dela. isso, no entanto,
aumenta nossa responsabilidade com relação ao planeta,
pois sabemos que ele é nossa única morada e, se for
destruído, nossa sobrevivência também estará
ameaçada!
9
Para onde vão as estrelas durante o dia?
Continuam no mesmo lugar, só que a luz do sol impede que
a gente as enxergue. No entanto, elas estão lá, e
são milhares. Nunca ninguém conseguiu contar todas
as estrelas do céu, nem mesmo com os instrumentos poderosos.
Existem mais estrelas que grãos de areia numa praia!
As estrelas parecem pequenas vistas da Terra por causa da distância,
mas elas são enormes, muito, mas muito maiores que nosso
planeta.
Quando olhamos as estrelas, não são elas que vemos,
mas apenas o brilho delas! Isso dá uma idéia da enorme
distância que estão de nós. A luz de uma estrela
pode viajar milhares de anos no espaço até chegar
aqui e, muitas vezes, quando chega, a estrela já nem existe
mais.
10
Nós estamos parados no espaço?
Nosso planeta, junto com oito outros planetas do sistema solar,
gira em torno do Sol. Os nove planetas não caem no Sol devido
à força da gravidade. Não percebemos a velocidade
da Terra porque estamos dentro dela. É como se dois ônibus
estivessem correndo juntos e nós dentro de um deles. Olhando
para o outro ônibus parece que está tudo parado!
A velocidade do nosso planeta em torno do Sol é de aproximadamente
1.800 quilômetros por hora! Mas não é só
a Terra que está em velocidade. O Sol também, só
que em torno do centro de nossa galáxia. Aliás, nossa
galáxia também está em velocidade com o centro
do universo. Tudo gira e se move em incrível velocidade,
desde o macrocosmo (estrelas, planetas, etc.) até o microcosmo
(núcleo do átomo, elétron).
11
Por que não é assassínio matar animais?
O
ser humano desespiritualizou a natureza à medida que se afastou
dela. Desespiritualizar é uma forma de não conhecer
valor espiritual, dignidade, direito à vida e à qualidade
de vida. No passado afirmou-se que os índios e negros não
tinham alma. Era uma desculpa para explorá-los melhor sem
se sentir culpados ou responsáveis. Hoje, fazemos isso com
a natureza. Agora podemos olhar uma montanha e pensar em quanto
de minério podemos extrair dali. Vemos uma floresta e imaginamos
quantas tábuas poderão ser conseguidas. A natureza
foi transformada num tipo de depósito de recursos naturais
e matérias-primas. E tanto faz se uma floresta for destruída,
animais sacrificados, meio ambiente poluído se tudo isso
resultar em progresso para nossa espécie, como se tivéssemos
o direito de usar tudo e todos.
Essa desespiritualização tem resultado numa relação
muito destruidora entre nós e a natureza, como se nossa espécie
não fizesse parte dela. A desespiritualização
atingiu a nós próprios. Matar outro semelhante numa
guerra não é assassínio, mas heroísmo
e autodefesa, se o outro for inimigo. Ou melhor, nem precisa ser
na guerra, pois na paz existem as execuções em nome
da “Justiça”. Para isso, basta ter um argumento
qualquer que sirva para desespiritualizar o outro, como se o criminoso
fosse um “desalmado”. Com um relacionamento assim entre
os indivíduos de nossa própria espécie, não
é de estranhar o que acontece com os seres das outras espécies,
consideradas “inferiores” pelo homem, como as plantas
e os bichos.
12
Adão foi o primeiro homem?
Há cerca de 90 mil anos a espécie humana, como é
conhecida hoje, surgiu no planeta. Se foi Deus que a criou ou se
foi a natureza, criada por Deus, tanto faz. A imagem bíblica
de um primeiro homem, chamado Adão, é uma parábola,
das muitas que existiam naquela época para explicar alguma
coisa. Uma técnica de ensino ainda hoje utilizada. O importante
não parece ser a existência ou não de um Adão,
mas de Deus e sua relação com a criação
de tudo o que existe. E, sobre isso, não restam dúvidas.
Afinal, quem seria capaz de criar tudo o que existe sem um plano
ordenado? A idéia da harmonia nascendo do caos é uma
impropriedade intelectual tão absurda quanto a idéia
de um deus pessoal criando um homem com saliva e pó.
13
Quem é o dono de tudo?
Não existe um dono de tudo. A espécie humana considera-se
proprietária do planeta, com amplos direitos para explorá-lo
ainda que isso o destrua. Esquecem que, na verdade, não é
o planeta que pertence a nós, nós é que pertencemos
ao planeta, pois o que fizermos a ele estaremos fazendo igualmente
a nós próprios. Se poluirmos os rios, beberemos água
envenenada. Se arrancarmos as árvores, esquentaremos o clima,
provocaremos a erosão do solo, mataremos os animais. Entretanto
o ser humano parece que nunca importou-se muito com isso, pois a
natureza, mal ou bem, sempre conseguiu recuperar-se, enquanto a
destruição era em escala artesanal. Depois da invenção
das máquinas e da adoção de uma política
desenvolvimentista voltada para o lucro e não para os benefícios
da humanidade, a coisa mudou de figura.
Se antes apenas as outras espécies do planeta é que
viviam ameaçadas de extinção, hoje esta ameaça
paira também sobre a espécie humana. Injustamente
uma minoria muito rica detém a posse do planeta e o destrói
em nome do progresso. Acumula poder e riqueza impressionantes e
investe o dinheiro que poderia ser destinado a eliminar a miséria
do mundo em mais e mais armas, como se já não fosse
suficiente destruir o planeta mais de 40 vezes!
14
A árvore é boa porque é útil?
A árvore não existe só para dar sombra ou frutos,
faz isso por ser esta a sua natureza. A grama não existe
para amortecer a queda de jogadores ou para alimentar cavalos. Os
animais não foram criados para devorarem-se uns aos outros.
Essa noção de utilidade, que demos aos seres vivos
e até a suas próprias atividades, é baseada
num conceito falso, como se o direito à vida só fosse
digno para aqueles que têm alguma utilidade. Assim os seres
humanos decidem, por exemplo, destruir uma floresta viva, para plantar
em seu lugar florestas homogêneas ou pastagens, apenas por
serem mais úteis.
Ninguém nasceu para ser útil, mas são úteis
por que cumprem sua natureza, uns sendo árvores, outros grama,
outros cavalos. Apenas o ser humano abandonou a sua natureza e prefere
viver segundo regras antinaturais, como beber sem sede, trabalhar
além do suficiente para suprir sua sobrevivência, não
misturar trabalho com lazer ou lazer com trabalho e, ao final de
tudo, o resultado é uma triste figura de robô, bem
distante da vida em abundância que Deus desejou para nós.
15
Por que Deus fez as pragas?
Quem fabricou as fabricas fomos nós próprios. Pela
exterminação, pela caça e pelos produtos químicos.
Por exemplo, hoje há rato em demasia. Eles só se tornaram
a temível praga da atualidade após a morte, sem controle,
de seus predadores — as aves de rapina, cobras e outros inimigos
naturais. Com o extermínio dos predadores, cresce os indivíduos
da espécie que servia de alimento a eles. Aconteceu com os
ratos, moscas, mosquitos, e tantas outras pragas, sobretudo as das
lavouras. E não adianta tentar combatê-las usando venenos.
O único resultado é que as pragas adquirem resistência
ao tipo e à quantidade de veneno utilizados. Isso nos obriga
a aumentar a dose do produto ou mudar de marca, desequilibrando
e contaminando ainda mais o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores
rurais e dos consumidores de produtos com venenos.
Para a felicidade dos fabricantes e infelicidade do solo, rios e
atmosfera contaminados, sem falar nas intoxicações
dos alimentos e da morte de quem aplica tais venenos, esse quadro
permanecerá enquanto continuar a visão predatória
de que as leis humanas são mais importantes que as leis da
natureza.
Atualmente existem pessoas que se preocupam em plantar de maneira
ecológica. Não usam produtos químicos nas lavouras,
procuram interferir o menos possível nos ecossistemas, até
os recuperando para resgatar o equilíbrio natural. É
em pequena escala, ainda, mas demonstra que existem outras alternativas,
menos agressivas, de plantar e produzir alimentos.
16
Por que o homem destrói a natureza?
Acusar a humanidade inteira de responsável pela destruição
do planeta é cometer o erro de generalizar demais, colocando
para ocultar e manter impunes os verdadeiros agressores. O poder
de decisão não está distribuído de maneira
igual, portanto também não pode ser igual a responsabilidade
pelo seu mau uso.
A poluição, por exemplo, não decidiu que os
governos deveriam deixar de investir na erradicação
da miséria, para fabricar armas. O povo seguramente iria
preferir investimentos que garantissem mais casa, comida, educação,
saúde e trabalho à fabricação de armas
para matar outras pessoas. Acusar a humanidade por uma decisão
como esta é manter impunes as pessoas que decidiram, em nome
do povo, muitas vezes enganando e induzindo a opinião pública.
Uma minoria está tomando decisões pela grande maioria
e, o que é pior, estas decisões nem ao menos são
justas, pois não visam a beneficiar o povo do planeta, e
sim prová-lo ainda mais de sua dignidade, segurança
e qualidade de vida, apenas para que uns poucos possam continuar
mantendo seus privilégios de riqueza e poder.
17
Por que o Estado não acaba com a poluição?
Não é por falta de leis que a natureza é destruída,
mas pela falta de vontade política dos governos, para executar
tais leis. E isso tem um motivo muito simples: o Estado não
é neutro! Ele é uma entidade abstrata, composta, na
verdade, por pessoas com interesses quase sempre conflitantes. A
política é a arte de harmonizar esses interesses,
pois a ela cabe a função de olhar para o futuro, adotando
políticas que não sejam imediatistas, resolvendo um
problema agora, mas causando outro depois. Mas quem faz a política?
Uma eleição custa muito dinheiro, por isso os políticos
que almejam ser eleitos comprometem-se, às vezes inescrupulosamente,
como o poder econômico. O resultado é que os políticos
— e isso inclui o Estado e suas instituições
— ficam engajados e comprometidos com o poder econômico,
ou por fazerem parte dele, ou por serem financiados por ele. Desse
modo como agir contra ele? É como colocar a raposa para tomar
conta do galinheiro.
Uma vez no poder, o político eleito nestas condições
vai tratar, naturalmente, dos interesses daqueles que o financiaram,
impedindo que qualquer coisa os atrapalhe, como greves ou lutas
pela preservação do meio ambiente. Claro que existem
exceções. Pobres e trabalhadores também se
elegem, mas são minoria. Basta olhar para os políticos
da atualidade e verificar se representam efetivamente o povo que
os elegeu.
18
O capitalismo é contra a natureza?
Se o capitalismo é responsável pela poluição
e degradação ambiental, então nos países
de regime diferente essas coisas não aconteceriam. A realidade
é que acontecem. Nos países comunistas e socialistas,
onde se adotou o mesmo modelo industrial de desenvolvimento, o meio
ambiente sofre os mesmos tipos de agressões. O mais grave
ainda é quando se combina um modelo predatório de
desenvolvimento com falta de democracia.
Muita gente acha que as questões ecológicas são
muito importantes, mas secundárias, diante da grande luta
por uma sociedade sem classes, onde os trabalhadores estarão
no poder. Isso seria verdadeiro se, nos países onde isso
já aconteceu, não continuasse a existir a poluição
ou exploração ilimitada dos recursos limitados do
planeta. Isso não quer dizer que seja secundária a
luta pela distribuição de renda ou pela justiça
social, mas apenas que as duas devem andar juntas, pois não
se pode viver a justiça num planeta devastado.
19
Trabalhador também deve lutar pela ecologia?
Existem pessoas que pensam que o trabalhador não deve envolver-se
em luta ecológica, pois esta questão diz respeito
apenas a quem não precisa mais lutar por emprego, comida,
moradia. Esquecem que os maiores prejudicados com a poluição
são exatamente os pobres, que não podem optar por
morar em bairros melhores, arborizados, com água e esgoto
e bem longe da poluição das fábricas e principalmente
os próprios trabalhadores que se contaminam no meio ambiente
das fábricas poluidoras.
O modelo predatório de desenvolvimento se importa com lucros
rápidos e imediatos, por isso fabrica o que dá mais
lucro. Para esse modelo tanto faz produzir canhões ou manteiga,
produtos preparados para dar defeito ou tão fracos que logo
o consumidor precise comprar outro, poluentes ou não, ou
que sejam descartáveis após o uso.
20
Lutar pela ecologia é só defender a natureza?
Lutar apenas contra a destruição do meio ambiente
é atuar sobre os efeitos sem mexer nas causas, como se adiantasse
colocar um balde embaixo da goteira sem consertar o telhado! As
causas não são originalmente econômicas ou políticas,
mas espirituais.
A destruição do momento em que o ser humano, e isso
inclui ricos e pobres, deixou de considerar-se parte dela.
A luta ecológica deve ser capaz de aliar-se aos movimentos
populares que reivindicam mais liberdade, menos exploração,
o combate a qualquer tipo de discriminação, pois a
humanidade jamais compreenderá o que é ter um relacionamento
mais harmônico com a natureza, enquanto o relacionamento do
ser humano com os outros indivíduos de sua própria
espécie for baseado na exploração de um pelo
outro. Ou seja, como poderá compreender a desespiritualização
se sofre a desumanização?
21
Os ecologistas são contra o progresso?
Há alguns anos, países desenvolvidos, assustados com
a destruição dos recursos naturais não-renováveis,
defenderam a tese de que a economia devia congelar seu crescimento
nos níveis em que se encontrava. Logo à primeira hora
pareceu a solução para os problemas ambientais, e
até mesmo alguns ecologistas chegaram a aderir. Infelizmente,
entretanto, o que motivava os países desenvolvidos, autores
da idéia, não era nenhum sentimento de culpa ecológica
tardio pelo que fizeram ao planeta, mas a destruição
da natureza nos países pobres, seus tradicionais fornecedores
de matérias-primas baratas. Por outro lado, impedir o progresso
dos países em desenvolvimento sob o argumento de que destrói
o planeta é uma forma de afastar as atenções
sobre um tipo de progresso, promovido nos países ricos que,
efetivamente, é o responsável pela destruição.
Os problemas ambientais não serão solucionados com
os países parando de crescer, mas modificando a maneira de
crescer. É importante frisar bem que os ecologistas não
são contra o progresso, mas contra um tipo de progresso que
não leva em conta o meio ambiente e a saúde da população.
O que não se quer é a fabricação de
produtos inúteis, poluentes, perigosos ou supérfluos
apenas gerando lucros para uns poucos, em vez de benefícios
para a maioria.
22
Ecologista não deve meter-se em política?
Certas pessoas ainda acham que é possível tapar o
sol com a peneira, ou seja, lutar pela ecologia defendendo apenas
os animais ou sítios especiais ameaçados, mantendo
relações cooperativas com o poder econômico
responsável pela destruição, como se, de um
dia para o outro, ele fosse se sensibilizar com a causa da natureza.
É claro que ecologista tem de “se meter” em política,
pois é através dela que vai conquistar aliados nos
outros movimentos populares, aumentando sua força. Mas é
preciso não confundir política com partido político.
Isso também não significa que partidos políticos
não devam se meter em ecologia, apenas que a ecologia não
deve ser bandeira de luta de um único partido. Deve estar
presente em todos eles. O que não impede, porém, a
um partido político dedicar-se mais profundamente à
causa ecológica.
O importante é que todas as pessoas com sensibilidade —
sejam políticas, militantes, apolíticas — lutem
pela defesa da ecologia à sua maneira, procurando aliados
em todos os outros segmentos da sociedade, pois não basta
uma reivindicação ser justa para garantir a sua vitória.
É preciso que tenha força.
23
A luta em defesa da natureza é mesmo urgente?
Sim, porque, uma vez destruída ou poluída, recuperar
a natureza custa muito mais caro. Se as indústrias e o próprio
governo recusa-se a estimular tecnologias antipoluentes, porque
as acham caras, imagine quando tiverem de gastar muito mais para
recuperar o meio ambiente degradado. Além disso, o ritmo
da destruição está-se acelerando assustadoramente
e seus efeitos já se fazem sentir em todo o planeta. Se continuar
por mais alguns anos, tudo o que for conquistado, seja em bens materiais,
seja em justiça social, não poderá ser usufruído
por ninguém!
Por outro lado é preciso estar atendo à armadilha
que representa o uso da tecnologia antipoluente. Na verdade o modelo
predatório de desenvolvimento descobriu uma maneira de lucrar
mais uma vez: fabrica máquinas antipoluentes e, ao mesmo
tempo, afasta a crítica de ser insensível diante dos
problemas ambientais, passando a falsa impressão de que não
existe nada de errado com o atual modelo de desenvolvimento, baseado
na exploração ilimitada de recursos naturais limitados
e adeptos de lucros crescentes e imediatos.
A tecnologia de despoluição é importante apenas
enquanto se efetua a transformação da economia, saindo
de um modelo predatório para um modelo ecológico,
mas não exclui a necessidade de uma posterior reformulação.
24
A luta ecológica é um modismo?
A humanidade viveu muito tempo com a idéia de que a natureza
era um bem inesgotável, gratuito e eterno. Agora vemos que
estávamos enganados. Entretanto esta constatação
não está ocorrendo de maneira simultânea em
todos os países; alguns governantes continuam estimulando
um tipo de desenvolvimento que nos levará certamente a um
fim imprevisível.
Se pretendemos preservar a vida, precisamos começar a adotar
uma posição contrária a tudo isso que tem sido
feito contra o planeta. Nas outras épocas, principalmente
no século passado, os seres humanos preocupavam-se mais com
as relações humanas que com a relação
homem-natureza, com resultados devastadores. As próximas
gerações precisarão enfrentar o desafio de
um futuro sem muita literatura ou mesmo prática sobre como
é viver numa nova relação com o planeta e deverão
descobrir por si mesmas estes novos caminhos.
Vilmar é editor da REVISTA DO MEIO AMBIENTE
e do Portal do Meio Ambiente
importantes veículos de informação e educação ambiental. Para receber 12 edições da Revista impressa pelo correio e ter acesso livre ao Portal
ASSINE AQUI
Curso
prático para capacitação de professores e
lideranças para o ensino para o meio ambiente, com foco
na implantação do Clube de Amigos do Planeta na
escola ou comunidade.