Estas dicas referem-se ao universo de fundações e
agências de cooperação não governamentais,
brasileiras ou internacionais. Em grande parte, baseiam-se na experiência
de muitas organizações, assim como em depoimentos
de dirigentes e responsáveis pela análise, seleção
e aprovação de projetos naquelas instituições.
Portanto, não são regras, mas pontos a serem observados.
O importante é alertar que, além de um projeto consistente,
é preciso informar-se sobre a instituição à
qual vai solicitar apoio e apresentar suas idéias de modo
claro e objetivo.
Algumas tendências gerais da cooperação internacional
não governamental
Algumas tendências da cooperação internacional
já são bastante conhecidas: redução
global do volume de financiamentos para a América Latina
e o Caribe; maior ênfase no apoio a projetos, reduzindo os
chamados apoios institucionais. Mas existem algumas outras características
das fundações e agências que vale a pena ter
em conta quando se pensa na apresentação de projetos.
Várias fundações e agências têm,
assim como as ongs que elas apoiam, passado por profundos processos
de reorganização de estruturas e prioridades. Reestruturação,
downsizing e profissionalização são termos
que, cada vez mais, vêm fazendo parte do cotidiano destas
organizações e do seu vocabulário. Estão
sendo constantemente cobradas por seus conselhos, doadores e contribuintes
quanto ao impacto de sua atuação própria e
dos projetos e instituições que apoiam. As tendências
que se verificam a partir desta dinâmica são:
Profissionalização dos quadros.
Cada vez mais, as pessoas que trabalham nestas instituições
conhecem bastante ou tiveram experiência sobre o "outro
lado", o dos projetos e ongs. Maior preocupação em focar a atuação,
reduzindo o leque de temas e aspectos nos quais atuam e dão
apoio, visando aumentar o seu impacto. Algumas instituições
têm, inclusive, optado por fazer doações maiores
a um número menor de organizações, de forma
a aumentar o impacto de seus fundos. Opções mais claras relativas ao tipo e ao
tamanho das instituições que apoiam. Privilegiam organizações
pequenas, com atuação local e capacidade inovadora.
Outras têm optado por apoiar grupos maiores, regionais e nacionais
com maior possibilidade de difundir experiências, opiniões
e influenciar políticas públicas.
Estão se tornando mais pró-ativas e levando mais a
sério seu papel na formulação de políticas
públicas. Cada vez mais definem objetivos próprios
e áreas nas quais querem investir. Assim, procuram organizações
parceiras que possam levar adiante estes projetos, reduzindo o orçamento
para atendimento a demandas.
Preocupação crescente com a sustentabilidade e a replicabilidade
dos projetos e iniciativas. Isto leva à priorização
de projetos que nascem e se desenvolvem apoiados em relações
de parceria e colaboração entre várias organizações
e projetos.
Priorização de projetos participativos, que envolvem
o público alvo no desenho de um projeto: na definição
do problema, na indicação das soluções
e na execução das ações.
O que você deve saber antes de entrar em contato?
Tente se informar o máximo possível sobre a fundação
ou agência, dedicando tempo à pesquisa e à preparação,
antes de tentar entrar em contato com o possível doador.
Localize ou peça folders, publicações, orientações
para envio de projetos. Visite a home page na Internet.
Confira as áreas programáticas da fundação.
Verifique se você está incluído nas prioridades
e se atende aos critérios da entidade. Veja a relação
(se disponível) de projetos que eles já apoiaram e
compare com o tipo de projeto que você desenvolve ou pretende
implementar.
Cheque os procedimentos apontados pela entidade sobre como fazer
contato. Algumas pedem uma carta inicial, curta e objetiva. Outras
só estabelecem contato a partir do recebimento de projetos
apresentados segundo roteiros, formulários e listas de documentos
necessários, fornecidos pela entidade. Verifique se existe
alguma exigência quanto ao projeto ter sido concebido e estruturado
segundo algum método de planejamento específico.
Conheça a si mesmo e à sua organização.
Assegure-se de que seu conselho tem clara sua missão. Seja
capaz de definir por que vocês são diferentes e como
podem resolver os problemas.
Escreva um documento conceitual e deixe-o na gaveta por uma semana.
Depois, releia e mostre aos colegas e pergunte se o texto realmente
está comunicando o que você está querendo dizer,
de maneira honesta e direto ao ponto.
O que os doadores esperam sobre o modo de contato e de apresentação
da proposta ?
Informe-se sobre com quem você deve falar: nome, cargo, função.
A pior coisa é enviar cartas dirigidas a alguém que
não está mais no cargo. Dirija-se diretamente à
pessoa e acredite na sua capacidade profissional e inteligência.
Siga suas recomendações e seja respeitoso com os procedimentos
da entidade. Esforços de lobby, como 25 cartas de apoio de
outras instituições, não funcionam.
Evite o uso de contatos pessoais diretos com o conselho da entidade,
passando por cima do responsável pelo recebimento e avaliação
de projetos. Não tente criar canais pessoais e informais,
tais como convites para jantar, a não ser que proposto pela
pessoa como um jantar de trabalho.
Prepare-se para a entrevista. Releia o material sobre a fundação
ou agência e prepare-se para apresentar com clareza e objetividade
sua organização e seu projeto. Focalize mais as soluções
(e menos os problemas) que o projeto pretende oferecer. Evite os
jargões e a falta de concisão.
Numa entrevista, garanta sempre a presença das pessoas que
vão dirigir o projeto, e não apenas do responsável
pela captação de recursos.
Jamais pergunte "Quanto devemos solicitar?". Tenha bem
definidas as suas necessidades e seu orçamento e apresente-os
de forma bem fundamentada.
Quais as características de uma proposta bem sucedida,
na opinião dos doadores?
Quando ela possibilita aos doadores ver como seu investimento resultará
num impacto de longo prazo, indicando os planos para a sustentação
no futuro;
A que revela o interesse e o compromisso do Conselho da organização;
Quando demonstra que o solicitante refletiu claramente sobre o seu
papel e suas políticas no contexto em que opera. E que, além
de entender profundamente este contexto, consegue articular claramente
a essência e a personalidade da organização
na busca de soluções;
Ser bem estruturada, demonstrando com clareza o problema e os objetivos
para enfrentá lo;
Comprovar que a organização já demonstrou ter
capacidade para fazer um trabalho sólido, contando com líderes
capazes, comprometidos, perseverantes e efetivos;
Apresentar maneiras inovadoras, consistentes e pouco usuais para
resolver problemas;
Estar em sintonia com as prioridades da instituição
doadora.
Quais são algumas das razões pelas quais uma
proposta pode ser rejeitada?
Não estar em sintonia com os objetivos e prioridades da entidade
doadora;
Ser genérica a ponto de poder ser atribuída a qualquer
outra instituição;
Ter um orçamento bastante alto quando comparado com as despesas
operacionais gerais da organização ou se há
algo espantoso, como 60% de despesas administrativas;
Se não demonstra a capacidade da organização
e de seu pessoal de levar adiante o projeto;
Discurso arrogante ou retórico;
Falta de honestidade ou falta de caráter.
Na proposta, qual é a seção mais importante,
de maior peso?
Há um consenso generalizado entre os doadores sobre a importância
da carta inicial ou do chamado sumário executivo, geralmente
de uma página ou duas, que apresenta o resumo da proposta.
É a primeira coisa que os doadores lêem. Há
uma avaliação comum: se você não puder
dizer quem é, o que pretende, onde, quando e porquê
em uma página, não poderá fazê-lo em
dez. Portanto, espera-se que nesta carta inicial ou sumário
estejam contidos os seguintes aspectos:
Logo nos primeiros parágrafos, a organização
deve dizer o que quer e como a proposta se encaixa nas prioridades
programáticas do doador;
Fazer um resumo sobre o problema (ou necessidades), como o diagnosticaram
e como pretendem solucioná-lo.
Em seguida, as partes da proposta (texto mais desenvolvido sobre
o projeto) que mais merecem a atenção dos doadores
são o orçamento e a caracterização da
organização e do seu pessoal, para avaliar a capacidade
da organização em implementar o projeto.
O que os doadores procuram no orçamento?
Cada doador tem seus formulários, esquemas ou roteiros próprios
para apresentação de orçamentos. Mas numa fase
de apresentação de propostas ou discussão inicial,
você talvez tenha que apresentar seu orçamento a seu
modo. Mas, de maneira geral, as atenções para os orçamentos
estão voltadas para os seguintes aspectos:
A porção do orçamento solicitada ao doador;
As fontes de onde virão os outros recursos (governamentais,
associados, outras financiadoras etc.);
Como a organização levará o projeto adiante
se não obtiver tudo que pretende;
A parcela representada pelo orçamento do projeto no contexto
do orçamento global da organização;
Comparações, não detalhadas, de três
anos quando se trata de projetos em andamento (ano passado, este
ano, ano que vem);
Os salários dos funcionários principais e o tempo
que eles dedicarão ao projeto;
Os valores de contrapartida da organização ou comunidade
e como evoluirão no tempo. Mas existem reservas quanto a
contrapartidas orçadas em espécie, tais como trabalho
voluntário, tempo de reunião etc., que elevam de maneira
irreal o custo total do projeto;
Orçamentos bem estruturados, que indicam a natureza das despesas
e sua evolução no período. Orçamentos
muito detalhados são considerados inadequados, devendo ser
usados apenas para gerenciamento interno da organização.
Detalhes e explicações devem ser dadas em notas de
rodapé.
Qual é considerado o tamanho ideal de uma proposta?
Embora cada doador tenha seus formulários e roteiros próprios,
há uma grande tendência de valorizar propostas iniciais
que tenham, no máximo, entre 3 e 8 páginas, com no
máximo um ou dois anexos que sirvam para aumentar a compreensão
de algum aspecto da proposta ou da organização. Informações
detalhadas demais, que não foram solicitadas, ou pré
propostas de 30 páginas, tendem a ser avaliadas por último.
Os doadores alegam que, neste estágio inicial, uma organização
deve colocar a essência do que está propondo. As informações
adicionais são geralmente requeridas através dos formulários
ou a partir do desenvolvimento do interesse pelo projeto.
A melhor forma de sua proposta chamar a atenção está
no fato dela ser capaz de, assim como a carta inicial ou sumário
executivo, apresentar claramente o problema e o modo como serão
construídas as soluções, de modo direto, breve
e sem jargões.
Qual a importância do layout na apresentação
da proposta?
Os critérios fundamentais que elegem uma proposta com uma
boa apresentação não estão ligados à
capacidade de chamar a atenção pela sua forma, ao
contrário do que muitas vezes se pensa. Pense nos profissionais
que lerão sua proposta como pessoas que têm muitas
outras propostas para analisar e que estão principalmente
interessados nos conteúdos delas. A proposta não deve
ser uma peça publicitária. O fundamental é
que ela seja apresentada de modo a facilitar e agilizar o seu manuseio,
a leitura e a compreensão do projeto. Para tanto, indica-se
que uma proposta:
Apresente o pensamento escrito de maneira lógica, levando
o leitor progressivamente a compreender a natureza e as características
da execução do projeto;
Tenha tipos e tamanhos de letra que tornem a leitura fácil;
Seja grampeada, pois torna-se mais fácil desmontá-la
e arquivá-la. Capas duras, espiral e pastas de plásticos
com folhas soltas não são indicadas;
Contenha poucos materiais anexos, apenas os que realmente acrescentarem
informações relevantes para a compreensão de
seu projeto e que não exijam tempo ou esforço demasiado
para serem vistos. Recortes de jornal, brochuras ou cartilhas, vídeos,
gráficos e dados estatísticos têm valor limitado
e muito provavelmente não são objeto de atenção,
a não ser que sejam claramente muito importantes.
• Além da experiência do autor, o texto se baseia
também em um conjunto de opiniões de representantes
de fundações americanas, contidas no livro Guide to
proposal writing, de Jane C. Geever & Patricia McNeill, The
Foundation Center, NY, 1993.