As
entidades Ambientalistas pertencentes ao Terceiro Setor se diferenciam
das outras, já que os problemas ambientais:
1) são questões GLOBAIS; 2) são DIFUSOS; 3) a solução parte de TODOS OS ATORES
SOCIAIS, sejam eles locais, regionais, federais ou internacionais; 4) tratam dos assuntos COLETIVOS e não individuais.
Dos
movimentos existentes na sociedade, o ambientalismo é o menos
estudado, apesar da influência nas políticas públicas,
na promoção de formas inovadoras de ação
cultural, social e política. As informações
sobre o movimento estão pulverizadas, pouco difundidas e
pouco elaboradas.
Os
primeiros Ambientalistas no Brasil, surgem como reação
às conseqüências ambientais das grandes plantações
de cana, café e à herança colonial perversa,
destrutiva e insustentável. Podemos perceber na leitura da
época, que a batalha é contra o latifúndio,
a escravidão e os maus tratos à terra.
Destacamos como grandes lutadores contra esta injustiça José
Bonifácio por volta de 1815, e Euclides da Cunha, no começo
do século XX.
A
partir de 1992 e com o grande impulso dado pela Conferência
das Nações Unidas que ocorreu no Rio, podemos dizer
que a Comunidade Ambiental Brasileira está crescendo e aparecendo.
Embora uma pesquisa recente do IBOPE tenha apontado o Meio Ambiente
como prioridade No 14 do brasileiro, o tema entrou na pauta. De
uma forma geral, vários setores começaram a discutir
e a tratar da questão ambiental. Além de Ambientalistas
e do Governo, outros atores têm se manifestado sobre o tema:
empresários, parlamentares, pesquisadores, professores e
representantes do movimento social.
Surgiram Secretarias do Meio Ambiente no país inteiro; Conselhos
de todo tipo; revistas; jornais; rádios que falam sobre o
assunto; cursos; seminários; etc.
As
entidades Ambientalistas passaram a fazer parte do cenário
nacional sendo atores em diferentes foros de atuação,
apesar de vários representantes de Governo enxergarem a questão
ambiental como impeditiva do desenvolvimento.
Entendemos
por entidades Ambientalistas, aquelas organizações
não estatais, formadas por grupos de cidadãos na sociedade
civil, originalmente privadas, mas cuja atuação se
dá como uma ampliação ou fortalecimento de
uma esfera social-pública e cujo funcionamento, em termos
coletivos, se caracteriza por uma racionalidade extra-mercantil,
extra-corporativa, extra-partidária e extra-religiosa. Seu
campo de atuação é a defesa do meio ambiente,
a melhoria da qualidade de vida e o incentivo ao desenvolvimento
sustentável.
Hoje em dia, os órgãos financiadores internacionais
exigem a presença destas entidades nos projetos a serem executados,
seja na prestação de serviços, seja para tornar
mais transparente o processo (Banco Mundial, KFW).
Nos
EEUU, surgiram fundações ligadas a grandes grupos
econômicos que financiam projetos ambientais, tais como a
FORD, a Rockefeller e a Mc Arthur.
No Congresso americano, apareceu a Inter American Foundation, para
apoiar iniciativas destas entidades.
Na
Europa, existem grandes organizações ligadas à
Igreja, principalmente na Holanda, Alemanha e Inglaterra.
Em
alguns países, existem órgãos financiadores
que respondem a pressões de Partidos Políticos, como
é o caso do Partido Verde na Alemanha.
Na área ambiental, aumentou consideravelmente a participação
das entidades através de Câmaras Técnicas, Conselhos
(Conama, Consemas, Comdemas), e Audiências Públicas.
Neste
sentido as entidades aparecem no cenário nacional, disputando
entre elas, espaços, recursos e interlocutores.
As entidades vieram para complementar a ação do Estado
e não substituir suas tarefas. Ambos lutam pela preservação
do Meio Ambiente.
Os
Ambientalistas organizados são capazes de:
-
criar entidades; desenvolver projetos; criar empregos; fazer parcerias;
prestar serviços; capacitar pessoas; denunciar; propor; intermediar;
articular; pesquisar; influir nas políticas públicas;
assessorar; e, mobilizar.
Fonte:
Manual de Orientação para a criação
de uma ONG Ambientalista - Secretaria do Meio Ambiente de São
Paulo – SMA/ PROAONG - Programa Estadual de Apoio às
ONGs - - Fevereiro 2000 – Enrique Svirsky - Coordenador do
PROAONG - http://www.ambiente.sp.gov.br/proaong/abertura.htm
Leia
mais:
A GLOBALIZAÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL,
1990-98 - Eduardo Viola - Este documento têm sete partes.
Na primeira o autor discute sua abordagem da globalização.
Na segunda parte conceituam-se as principais forças sociais
transnacionais: Globalistas-conservadores, Globalistas-progressistas,
Globalistas-sustentabilistas, Nacionalistas e Nacionalistas-sustentabilistas.
Na terceira parte enunciam-se as características da Globalização
da Política Ambiental no Brasil na década de 1990,
em comparação com o processo geral. Na quarta parte
analisa-se a dramática redefinição rumo a globalização
da política ambiental no governo Collor, 1990-92. Na quinta
parta analisa-se a crise de governabilidade e as resistências
a globalização durante o governo Franco, 1992-94.
Na sexta parte analisa-se a secundariedade e disseminação
lenta da sustentabilidade nas políticas públicas do
governo Cardoso, 1995-98. Finalmente, na sétima parte discutem-se
os cenários futuros alternativos do Brasil (segundo o autor):
Globalização-segmentada, Regressão Nacionalista
ou Globalização-integradora.
A
GLOBALIZAÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL,
1990-98* - Eduardo Viola**
(*)
Artigo publicado nos Anais do XXXVII Congresso Brasileiro de Economia
e Sociologia Rural Danilo Aguiar e J. B. Pinto (edit.) O Agronegocio
do Mercosul e a sua Inserção na Economia Mundial,
Brasília, SOBER, 1999, pp. 83-97
(**)
Professor Titular do Departamento de Relações Internacionais
e Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de
Brasilia e Pesquisador Sênior do CNPq.
Este paper analisa o processo de globalização da política
ambiental no Brasil no período 1990-1998. Entende-se por
globalização da política ambiental as seguintes
dimensões principais: 1- a transnacionalização
em graus diversos dos atores nacionais da política ambiental
nacional (agencias governamentais, empresas, ONGs) combinado com
o aumento da presença de atores plenamente transnacionais
(ONGs transnacionais, corporações transnacionais,
bancos multilaterais, agencias da ONU, comunidade cientifica) produzindo
a formação de clivagens e alinhamentos transnacionalizados;
2- o desenvolvimento de uma concepção transnacionalizada
da agenda ambiental por parte de setores crescentes dos atores sociais
nacionais; 3- o efeito multiplicador da aceleração
da globalização econômica, política e
cultural/comunicacional sobre a globalização ambiental;
4- o crescimento rápido das conexões organizacionais,
políticas, pessoais, financeiras e comunicacionais entre
os diversos ambientalismos nacionais; 5- a rápida expansão
de organizações não-governamentais internacionais
cujo centro financeiro-organizacional encontra-se nos países
desenvolvidos e que tem grande capacidade de influencia sobre os
ambientalismos nacionais nos países desenvolvidos, emergentes
e estagnados; e, 6- a preocupação crescente com questões
de governabilidade global (formação de regimes e autoridades
inter/transnacionais) por parte dos diversos atores nacionais.
O
período em estudo no Brasil abrange três presidências
(Collor, Franco e Cardoso) durante as quais as políticas
públicas em geral passaram do modelo nacionalista para o
modelo globalizante: redução das barreiras alfandegárias,
atração de investimentos estrangeiros, abertura progressiva
dos mercados financeiros, legitimidade crescente da estabilidade
macroeconômica como parâmetro da ação
governamental, abandono da política externa e de defesa terceiromundista,
aceitação crescente das condicionalidades ambientais
na relação com os países desenvolvidos e abertura
à cooperação internacional com respeito aos
problemas ambientais em particular na Amazônia. Com relação
a política ambiental existe uma diferencia significativa
entre as três presidências. No governo Collor, no clima
da preparação e realização da Rio 92,
as questões ambientais adquirem uma grande importância,
o governo promove a globalização da agenda ambiental
e as ONGs e o movimento ambientalista se fortalecem. No governo
Franco, existe uma profunda crise de governabilidade devido a forte
instabilidade macroeconômica e as questões ambientais
ficam totalmente relegadas, incluído um declínio do
movimento ambientalista e um questionamento da globalização.
No governo Cardoso existe uma reconstrução da governabilidade
e uma aceleração da globalização, mas
devido ao predomínio de uma concepção economicista
da agenda pública as questões ambientais ficam num
plano bastante secundário e os vectores de governabilidade
ambiental provem dos atores transnacionais e nacionais mais transnacionalizados.
A
PROBLEMATICA DA GLOBALIZAÇÃO
Na
segunda metade da década de 1980 intensifica-se extraordinariamente
o processo de globalização do mundo (iniciado na década
de 1950) e o ano de 1989 condensa estas gigantescas transformações
(Fossaert 1991).
O
mundo compacta-se progressivamente e a distancia torna-se cada vez
mais próxima, ainda que entre realidades profundamente heterogêneas.
È fundamental enfatizar que globalização não
é homogeneização. Os limites entre o nacional
e o internacional diluense crescentemente e a relação
interno-externo torna-se cada vez mais porosa (Kennedy 1993, North
1990). Existe uma passagem do Sistema Internacional para o Sistema
Global-transnacional-bifurcado (Rosenau 1990). O Sistema Internacional
era Estado-céntrico. O Sistema Global-transnacional-bifurcado
é simultaneamente Estado-céntrico (não-hegemónico
com superpotência militar) e Multicéntrico (alta diversidade
de atores-forças sociais, como corporações
transnacionais, organizações não-governamentais,
organizações intergovernamentais, comunidades epistémicas
e midia-formadores de opinião).
Existe
uma nova natureza da relação microsocial-social-macrosocial.
A teoria social moderna (desde o século XVII até aproximadamente
a década de 1970) foi construída considerando-se o
macrosocial como a sociedade nacional em contexto internacional,
o social como diversos níveis de agregação
infranacional, e o micro-social associado com o nivel local. Por
causa da intensificação do processo de globalização,
o macrosocial passa a ser a sociedade planetária, o social
diversos níveis intermediários incluído o nacional
e o micro-social continua associado com o nivel local (Guidens 1990,
Morin et Kern 1993, Ianni 1995, Keohane and Ostrom 1995). Contudo,
o social-microsocial está profundamente penetrado pelo macro-social
de modo tal que sua dinâmica esta globalizada, sempre em graus
variáveis desde o mais intenso das cidades mundiais (New
York, São Paulo, Tóquio, Londres) ou dos espaços
socio-tecnológicos mundiais (cidades científicas,
bases antárticas, de radiotelescopios e de lançamento
de satélites) até a mais rarefeita dos lugares mais
remotos (alguns desertos, montanhas e florestas tropicais). Deste
modo os atores sociais, as arenas político-civilizatorias
e as agendas político-económicas encontranse sempre
transnacionalizados, ainda que em graus diversos (Keohane and Milner
1996). Existe uma erosão parcial do Estado Nacional como
centro regulador da vida social e constituidor das identidades,
e um aumento da interdependência complexa-assimétrica
entre os países. Essa erosão se estende (em graus
diversos) aos sistemas democráticos nacionais pelo poder
crescente dos atores transnacionais e transnacionalizados, e, uma
desfassagem crescente entre um sistema de representação
de base territorial-nacional e um sistema de forças sociais
de escopo transnacional.
Embora
a literatura corrente focaliza na dimensão econômica
da globalização, considero ele como um processo multidimensional
caraterizado por seis dimensões principais inter-relacionadas:
militar, economico-financeira, comunicacional-cultural, cientifico-tecnologica,
ecologico-ambiental e política (Viola 1996).
A
dimensão militar foi a primeira a desenvolver-se a partir
de 1941 com o ataque japonês a Pearl Harbor em que a guerra
adquire pela primeira vez na historia um escopo planetário
e chega seu pico na segunda metade da década de 1950 quando
os EUA e a URSS atingem a capacidade de destruição
total do planeta a traves da combinação bombas nucleares,
mísseis intercontinentais e espionagem com satélites
(doutrina da destruição mutua assegurada). Em ambos
os países os establishments militares imbricam-se com parte
medular da vida econômica e científica produzindo os
complexos militar-industrial-científico, cuja estrutura tenderá
a reproduzir-se na maioria dos países do mundo criando-se
uma vasta rede de espionagem e comércio de armas. O colapso
do comunismo no Leste Europeu em 1989 deslancha um processo de profunda
redefinição da globalização militar:
fim da União Soviética como uma das duas superpotências;
drástica diminuição do risco de uma guerra
nuclear; redução progressiva e quase generalizada
dos gastos militares e da importância das Forças Armadas
no mundo; aumento do risco de proliferação de armas
de destruição em massa (nucleares táticas,
químicas e biológicas); extraordinária expansão
do crime internacional organizado; aumento do risco de terrorismo
nuclear/biológico; e, redefinição do papel
das Forças Armadas americanas e da OTAN no sentido de garantia
da segurança global (Buzan 1991, Fontaine 1996, Huntington
1996).
A
globalização da economia tem o primeiro momento importante
na década de 1950, em que formam-se as corporações
multinacionais - atores econômicos com estratégia global
- que vão progressivamente saindo do controle dos Estados-nações
e que na década de 1980 transformam-se em corporações
transnacionais, cujo processo decisório ganha um escopo global.
Também nesta década inúmeras empresas médias
transformam-se em transnacionais. A produtividade econômica
cresce fabulosamente como produto da combinação de
revoluções tecnológicas (microeletronica, robótica,
novos materiais, eficiência energética, biotecnologia,
reciclagem e controle de poluição) e gerenciais (qualidade
total, reengenharia). O desenvolvimento da produtividade econômica
cria empregos de alta qualificação e elimina massivamente
empregos de baixa e media qualificação produzindo
desemprego estrutural em todo o mundo. O comercio internacional
intensifica-se criando pressões cada vez maiores para a diminuição
das barreiras alfandegárias (criação da Organização
Mundial de Comercio em 1994) e a formação de uniões
econômicas regionais complementares do processo de globalização
(NAFTA, Mercosul) (Lafer 1997). A dimensão financeira localiza-se
nos mercados financeiros transnacionais em que o capital especulativo
circula eletronicamente em alta velocidade erodindo progressivamente
a capacidade regulatoria dos Estados Nacionais (mesmo dos mais poderosos).
Os mercados financeiros transnacionais tem uma diversidade de atores
como bancos internacionalizados, megaespeculadores, fundos mútuos,
fundos de pensão, etc. As instituições de Bretton
Woods tornam-se cada vez mais limitadas para lidar com o fenômenos
da globalização financeira e a volatilidade da circulação
de capital especulativo constituísse na maior ameaça
para a estabilidade e previsibilidade do sistema (Thurow 1996, Dreifuss
1996).
As
sociedades nacionais tendem a dividir-se em três segmentos:
o globalizado, o nacional defensivo e o marginalizado. O primeiro
esta formado por indivíduos e organizações
que tem qualificações e produtividade que os habilitam
a competir globalmente (a grande maioria da população
nos países desenvolvidos, aproximadamente um quinto da população
em países como Brasil e Argentina, praticamente inexistente
nos países da África subsahariana). O segundo esta
formado por indivíduos e organizações que conseguem
sobreviver porque estão protegidos por estruturas políticas
ou geográficas da competitividade global, sendo que esta
é uma situação transitória com tendência
a desaparecer no meio e longo prazo. O terceiro segmento formado
por uma população que sofre crescente deprivação
material, cultural e psicológica (Viola 1998, Barber 1995).
A consolidação da globalização economico-financeira
na década de 1990 diferencia os países em quatro tipos
segundo o grau de centralidade de sua inserção no
sistema: desenvolvidos, emergentes, estagnados e marginalizados.
Na
década de 1960 inicia-se a globalização dos
sistemas de comunicações, constituindo-se do ponto
de vista simbólico-cultural o que MacLuhan chamou, quase
profeticamente (embora com viés simplificador-homogeneizante)
de “aldeia global”. A partir da segunda metade da década
de 1980 a globalização comunicacional-cultural implica
uma revolução nas telecomunicações -satélites,
televisão globalizada, fax, correio eletrónico e internet
-, o barateamento e crescimento exponencial do transporte aéreo
transcontinental, e a disseminação de conteúdos,
modos de vida e formas de lazer originalmente norte-americanos.
Uma minoria crescente da população mundial tem a oportunidade
de viajar a outros países, falar outras línguas diferentes
da nativa e experimentar diretamente outras culturas. A maioria
da população mundial tem acesso a traves da televisão
a informações sobre outras sociedades. Igual que nas
outras dimensões a globalização da cultura
esta longe de implicar sua homogeneização, pelo contrario
existe um processo de reafirmação das diferencialidades,
que se redefinem com tais em função de sua relação
com a globalidade (Guidens 1991, Featherstone 1994).
A
dimensão científico-tecnológica da globalização
reside no crescimento exponencial da intensidade das interações
no interior da comunidade cientifica internacional a traves dos
periódicos, do telefone-fax, do correio eletrónico,
da Internet e da interação cara a cara nos congressos.
Cresce também o papel do input cientifico nos diversos processos
decisórios referenciados-globalmente/globais de corporações,
Estados, agencias intergovernamentais e ONGs. A cooperação
transnacional entre instituições de ensino-pesquisa
(ciência básica e aplicada) e instituições
corporativas (ciência aplicada e tecnologias) se desenvolve
aceleradamente dando uma contribuição crucial para
o crescimento da produtividade econômica. Outra caraterística
fundamental da globalização científico-tecnológica
e o avanço de um novo paradigma baseado na alta complexidade,
na Inter-disciplinariedade e no sistemismo aberto: a formação
e as carreiras científicas incluem crescentemente componentes
sistêmicos, os problemas de pesquisa fundamentais são
definidos em espaços novos para além dos disciplinares
e as estruturas fundamentais de organização científica
universitária são institutos e redes interdisciplinares
ao invés de departamentos disciplinares (Keller 1990, Morin
1991, Deutsch 1997, Taladay, Farrands and Tooze 1997).
Em
meados da década de 1980 a humanidade toma consciência
da globalização do risco e degradação
ambiental, que de fato já existia desde a década de
1950 em função da capacidade destrutiva das armas
nucleares e do potencial de contaminação - do ar,
água, solo e cadeias alimentares - por parte da indústria
química e nuclear (Caldwell 1984, Stern, Young and Druckman
1992). A dimensão ecológico-ambiental constitui o
mais poderoso dos processos de globalização com repercussões
extraordinárias sobre a atividade científica e sobre
os conceitos básicos que utilizamos para conhecer a realidade
social: quando os astronautas da primeira nave tripulada chegaram
a Lua em 1969, e conseguiram descrever e fotografar «o planeta
azul» desde o espaço, atingiu-se um ponto de inflexão
na construção da imagem da globalização
que mostraria seus frutos mais profundos com a emergência
da comunidade científica do «Global Environmental Change»
na segunda metade da década de 1980 (Buttel, Hawkins and
Power 1990). Uma vez atingida a percepção da globalização
ambiental vemo-nos obrigados a passar do conceito de sistema internacional
(que se refere apenas a realidades sociais) para o de sistema global
porque este permite-nos distinguir e incluir as realidades sociais
e naturais, e orienta-nos na investigação sistemática
sobre seus modos de interação em escala planetária
(North 1990). A Terra, suas caraterísticas geológicas
e geográficas, sua flora, fauna e arredores (incluído
o sol) constituem nosso único ambiente. A espécie
humana não poderia existir sem os delicados equilíbrios
da Biosfera. Enquanto espécie temos sido sempre simultaneamente
conquistadores e reféns da natureza, mas estas implicações
da aventura humana tem se tornado muito mais complexas em fins do
século XX: hoje estamos obrigados a construir um modelo civilizatorio
que implica investir concentradamente num desenvolvimento cientifico-tecnico-inteligente
e investir nas reformas micro-macro sociais (autoconhecimento e
desenvolvimento interior do indivíduo e mudança dos
padrões de consumo e modos de vida). É fundamental
evitar as tentações cornucopiana (a humanidade a través
da tecnologia resolve sempre todos os problemas) e neo-romántica
(parar o desenvolvimento cientifico-técnico e focalizar apenas
na reforma dos padrões de consumo e do modo de vida) (Sand
1990, Sandler 1997).
A
globalização política reside no avanço
de ideologias e regimes democráticos e individualistas em
detrimento dos autoritários e socializantes. Na ultima década,
regimes semi-democraticos ou democráticos, tem substituído
a regimes autoritários em quase todos os países do
mundo (Huntington 1991, Diammond and Plattner 1993). A proteção
dos direitos humanos, o pluripartidarismo e a competição
eleitoral tornaram-se princípios indiscutíveis da
vida política nacional e internacional, embora exista muitas
vezes uma distancia significativa entre a retórica e a realidade
concreta (Cançado Trindade e Faro de Castro 1997). A revolução
de capacidades individuais produzida pela expansão educacional
tem mudado drasticamente as concepções sobre o "bom
ordem social" em favor da valorização da responsabilidade/destaque
individual e limitando a intervenção do Estado/Coletividade
para promover a redução das desigualdades entre indivíduos
(redução de impostos e substituição
do Welfare pelo workfare). Como produto da revolução
das capacidades individuais há um grande crescimento dos
movimentos sociais e Organizações não-governamentais
que constituem um terceiro setor de organizações sociais
de similar importância aos clássicos setores privado
e estatal, e com fortes relações transnacionais (Guidens
1994, Tsoukalis 1998).
As
capacidades regulatorias do Estado-naçao são enfraquecidas
pelas outras dimensões da globalização, em
particular a econômico/financeira e a comunicacional/cultural;
e, pelo reforzamento das estruturas socio-politicas infranacionais,
o que nos casos mais agudos leva ao separatismo e a desintegração
nacional. As potencialidades de consolidação de regimes
democráticos ou de progresso de regimes semi-democraticos
para democráticos são muito diferenciadas dependendo
de variáveis como: maior competitividade da economia nacional,
menor proporção da população excluída/deprivada,
maior independência econômica e psicológica das
mulheres, menor força de ideologias radicais/fundamentalistas,
maior força de atitudes/movimentos anti-corrupção
e maior capacidade/eficiência governativa (O’Donnell
1991, Held 1995, Reis 1995, Lyons and Mastanduno 1995, Camargo 1997).
Como
parte da dimensão política, a governabilidade global
reside no processo de construção de instituições
inter e transnacionais - sistema das Nações Unidas,
Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, GATT-WTO, regimes
internacionais setoriais- aptas para gerir os problemas da sociedade
planetária. O processo de construção de instituições
de governabilidade global, em curso lento e difícil desde
o fim da segunda guerra mundial, no deve ser confundido com propostas
utópicas de criação de um governo mundial.
Uma caraterística fundamental do processo de globalização
é o subdesenvolvimento da dimensão da governabilidade
global com relação as outras devido originalmente
ao bloqueio do sistema da Nações Unidas pela Guerra
Fria. Na década de 1990, a governabilidade global não
se desenvolve com rapidez equivalente as outras dimensões
da globalização devido as seguintes razões:
a- conflito entre as vias oligarquica (promovida pelos G7 e a maioria
dos países de renda alta) e a democrática (promovida
pela maioria dos países de renda media e muitos de renda
baixa) de governabilidade; b- ausência de lideranças
orientadas para o longo prazo (estadistas) nos principais países
do mundo; c- o sistema Nações Unidas (de natureza
internacional) bloqueia a emergência de um novo sistema transnacional
de governabilidade (Rosenau and Czempel 1992, Weiss, Forsythe and
Coate 1994, Commission on Global Governance 1995, Falk 1995, Risse-Kappen
1995, Chayes and Handler Chayes 1995, Soares de Lima 1996, Colard
1996).
GLOBALIZAÇÃO
E PRINCIPAIS FORÇAS SOCIOPOLÍTICAS
O processo de Globalização tem redefinido de modo
dramática as clivagens e alinhamentos políticos. As
principais forças socio-politicas se definem hoje por sua
posição em relação a globalização.
Os Globalistas tem seus interesses e seus sistemas de valores orientados
pela escala global, para além do Estado Nação,
os Nacionalistas tem seus interesses e seus sistemas de valores
orientados pelo Estado Nação e contra a Globalização.
Para alem deste clivagem central entre Globalistas e Nacionalistas
é necessário diferenciar ao interior de ambos campos
o que permite conceituar a existência de cinco forças
socio-politicas relevantes (de poder diferenciado na escala global
e em cada pais): Globalistas-conservadores, Globalistas-progressistas,
Globalistas-sustentabilistas, Nacionalistas e Nacionalistas-sustentabilistas.
Os
Globalistas-conservadores ou Neo-liberais defendem economias nacionais
cada vez mais abertas ao mercado mundial, um papel central para
as corporações transnacionais, a continuidade do crescimento
não regulado dos mercados financeiros globais, uma expansão
acelerada do direito de propriedade intelectual, um desarmamento
pequeno e seletivo, um congelamento da ONU, do Fundo Monetário
Internacional e do Banco Mundial e um fortalecimento da Organização
Mundial de Comercio. Os GC são a força dominante no
sistema mundial, eles representam o que comunmente denomina-se neoliberalismo.
Exemplos de Globalistas-conservadores são: setores predominantes
dos grandes partidos, das corporações transnacionais
e do sindicalismo norte-americanos, europeu ocidentais e japoneses,
setores modernos do PFL/PPB do Brasil, do Partido Justicialista
na Argentina e do PRI no México, o Partido Nacional e setores
da Democracia Crista no Chile, o PAN no México.
Os
Globalistas-progressistas ou Neo-socialdemocratas defendem economias
abertas ao mercado mundial, um papel central para as corporações
transnacionais, a reforma e fortalecimento do FMI e com a missão
regular o capital financeiro global (como por exemplo o imposto
Tobin), um desarmamento crescente, uma reforma e fortalecimento
da ONU traves da combinação dos princípios
de representatividade populacional e poderio financeiro, o fortalecimento
da Organização Mundial de Comercio e dos diversos
regimes internacionais. Exemplos de Globalistas-progressistas são:
os setores de esquerda dos partidos democrata norte-americano, socialista
francês, social-democrata alemão, trabalhista inglês,
os novos setores do sindicalismo europeu baseados em trabalhadores
dos setores de tecnologias de informaçao/comunicação
que são definidamente favoráveis ã globalização
com governabilidade global; setores do PPS e do PSDB no Brasil,
o Partido Socialista no Chile, setores do PDR e do PRI no México,
setores do FREPASO e da UCR na Argentina.
Os
Globalistas-sustentabilistas consideram inviável o modo de
vida perdulário e os sistemas produtivos energeticamente
ineficientes predominantes atualmente nos países de renda
alta e media e advogam por reformas profundas na ordem internacional
com o objetivo de viabilizar a proteção ambiental
nos respetivos espaços nacionais. Os Globalistas-sustentabilistas
são defensores da idéia de desenvolvimento ambientalmente
sustentável com atenuação das assimetrias sociais
em escala nacional e mundial. Para a maioria dos GS esta atenuação
deveria dar-se através de uma integração ativo/seletiva
das economias periféricas no mercado mundial e de uma transferencia
subsidiada de tecnologias sustentáveis por parte dos países
ricos. Os GS são favoráveis ao imediato estabelecimento
de uma autoridade supranacional, combinando os princípios
da transnacionalidade e da internacionalidade, capaz de lidar com
os problemas da crise socio-ambiental planetária. Embora
do ponto de vista normativo defendem um caminho democrático
de construção da governabilidade global, estão
dispostos a aceitar formas oligarquicas desde que isto acelere o
processo. Fornam parte das forças Globalistas-sustentabilistas,
entre outros, os seguintes: 1) organizações não
governamentais e grupos comunitários que lutam pela proteção
ambiental enfatizando a cooperação global; 2) o setor
das agências estatais (de nível federal, estadual e
municipal) encarregadas de proteger o ambiente orientado para a
cooperação global; 3) grupos e instituições
científicas que pesquisam os problemas ambientais, muitos
deles com uma abordagem sistêmica, que estão impactando
profundamente a dinâmica da comunidade científica (o
que se refletiu na posição destacada adquirida pela
comunidade do "global environmental change" nos EUA);
4) um setor de administradores e gerentes que implementam um paradigma
de gestão dos processos produtivos baseado na eficiência
no uso dos materiais, na conservação da energia, na
redução da poluição, no ecodesign e
na qualidade total; 5) consumidores verdes que demandam entre outras
coisas alimentos de uma agricultura orgânica, automóveis
e eletrodomésticos de alta eficiência energética,
papel reciclado, recipientes reutilizáveis, produtos que
tenham sido produzidos usando tecnologias limpas e a partir de matérias
primas produzidas de modo sustentável; 6- redes multissetorias
que estabelecem e certificam o caráter sustentável
dos processos de produção, de transporte e o ciclo
de vida dos produtos, como os vários "selos verdes"
e a ISO 14000; 7- funcionários de agencias e tratados internacionais
encarregados de equacionar os problemas ambientais que ultrapassam
as fronteiras nacionais, como o Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente, a Convenção de Viena-Montreal
para a proteção da camada de ozônio, a Convenção
de Basel sobre o comercio de lixo toxico, as Convenções
de Rio sobre Mudança Climática e Biodiversidade.
Exemplos de Globalistas-sustentabilistas, no nível partidário,
são: setores de esquerda da Socialdemocracia européia
e setores predominantes dos Partidos Verdes Alemão, belga,
austríaco, escandinavos, francês, australiano e brasileiro.
Os Nacionalistas defendem economias protecionistas, forças
armadas poderosas e o papel do Estado-nação como entidade
superior da ordem internacional sendo favoráveis ao congelamento
da ONU, receosos das corporações transnacionais e
contrários a circulação global do capital financeiro,
favoráveis a eliminação do Fundo Monetário
Internacional e contrários a formação de regimes
internacionais e à construção de novas instituições
globais. Existe uma grande variedade de Nacionalistas, com eixos
programáticos específicos bastante diferenciados,
indo desde racistas, passando por fundamentalistas religiosos, ate
igualitários radicais. Exemplos de Nacionalistas são:
Perot/Buchanam e os setores empresarias e sindicais em setores de
baixa competitividade(EUA), Frente Nacional (França), Aliança
Nacional e Liga do Norte (Itália), Neocomunistas (Rússia),
maioria do PT e PSB no Brasil ,Frente Zapatista no México,
Partidos Comunistas na França e na Itália e Chile.
Os
Nacionalistas-sustentabililistas são favoráveis ao
desenvolvimento sustentável a escala nacional comandado por
um Estado fortemente intervencionista que promove a justiça
social e um congelamento da ONU, são contrários as
corporações transnacionais, ao FMI e ao mercado financeiro
global. Fornam parte dos Nacionalistas-sustentabilistas as organizações
não governamentais e grupos comunitários que lutam
pela proteção ambiental enfatizando o localismo/nacionalismo
e rejeitando a globalização; e, o setor das agências
estatais (de nível federal, estadual e municipal) encarregadas
de proteger o ambiente orientado pelo localismo/nacionalismo e contrários
à globalização. No nível partidário
são exemplos de Nacionalistas Sustentabilistas: setores minoritários
do PT e do PSB no Brasil, setores predominantes do Partido Verde
chileno e setores radicais dos Partidos Verdes francês, alemão,
holandês, australiano e brasileiro.
Três regimes internacionais de alta relevância para
o fluxo de matéria e energia global estão em processo
de formação desde meados da década de 1980:
proteção da camada de ozônio, mudança
climática e proteção da biodiversidade. Eles
são plenamente representativos da nova densidade interdependência
entre a biosfera e o sistema mundial (Porter and Brown 1996, Gerhing
1994, Charnovitz 1996).
O
Acordo para a Proteção da Camada de Ozônio é
definitivamente o melhor exemplo de sucesso na construção
de regimes internacionais setoriais para a proteção
do ambiente global: Convenção de Viena (1985), Protocolo
de Montreal (1987), Emenda de Londres (1990), Emenda de Copenhague
(1992). A produção e uso de clorofluorcarbonos caiu
dramaticamente nos países desenvolvidos durante a década
de 1990 e tem aumentado apenas limitadamente nos países emergentes.
Quatro fatores são fundamentais para explicar este sucesso:
a rápida formação de consenso na comunidade
cientifica e a eficiência da comunicação extraacademica
(efeito comunidade epistemica), o fato da produção
de CFC estar concentrada em poucos atores (corporações
transnacionais), a liderança do governo americano nas negociações
internacionais, e, rápida resposta das corporações
produtoras de CFC no investimento em pesquisa e desenvolvimento
de alternativas tecnológicas viáveis comercialmente
(Benedick 1991, Underdal 1992). Este regime é um claro exemplo
de vitoria dos Globalistas-sustentabilistas apoiados pelos Globalistas-progressistas.
A
Convenção da Mudança Climática (Rio,
1992) tem tido ate agora um impacto limitado devido aos seguintes
fatores:
a- baixa disposição na sociedade americana a diminuir
as emissões de gases estufa, com impacto extremadamente negativo
sobre Europa Ocidental e desapontamento na comunidade ambientalista
internacional com relação ao presumido potencial de
liderança do vicepresidente Al Gore;
b- fraca capacidade de liderança internacional por parte
do Japão, o único pais grande e rico impulsado por
um vector de redução das emissões de gases
estufa;
c- mínima disposição de reorientar as políticas
publicas para a atenuação do crescimento nas emissões
de gases estufas nos países emergentes;
d- complexificação, na interior da comunidade cientifica,
das caraterísticas do problema e de suas possíveis
soluções -passajem do modelo de aquecimento global
para o modelo de fenômenos meteorológicos extremos
erráticos;
e- grandes dificuldades para negociar, em Kyoto 1997, um protocolo
estabelecendo metas precisas e cronogramas para a redução
das emissões de gases estufa, devido a complexidade simultaneamente
internacional e transnacional das clivagens e coalizões;
e,
f- perspectivas difíceis para a ratificação
do protocolo de Kyoto devido a ausência de obrigações
para os países emergentes, alguns dos quais tem uma importância
dramaticamente crescente nas emissões de gases estufa, particularmente
China, Índia e Indonésia, mas também Tailândia,
Malásia, Filipinas, Brasil e México (O’Riordan
and Jager 1996, Soroos 1997, Rayner and Malon 1998, Clark, Van Eijndoven
and Jaeger 1998). Contudo, na Quarta Conferencia das Partes de Buenos
Aires (1998) a Argentina assumiu uma posição responsável
no sentido dos compromissos voluntários para a redução
das emissões de gases estufa, que embora tenha tido reação
desfavorável dos principais países emergentes no momento,
pode facilitar no futuro a quebras dos impasses globais.
Os impasses do regime da mudança climática são
produto da vitoria de uma coalizão de bloqueio entre Globalistas-conservadores,
Globalistas-progressistas e Nacionalistas.
A
Convenção de Biodiversidade (Rio 1992) tem um duplo
impacto. De um lado ela aumentou extraordinariamente a consciência
publica internacional sobre a importância da diversidade biológica
(quase inexistente fora da academia antes da década de 1990)
e inaugurou o conceito de "commmon concern of humankind".
De outro lado, ela é estruturalmente pouco funcional devido
ao fato que os EUA mantém uma atitude reticente com relação
à Convenção em todos os aspectos que não
protegem claramente a propriedade intelectual tal como foi definida
historicamente na cultura civilizatoria americana: privilegiamento
excessivo das formas concentradas de propriedade intelectual/patentes
desenvolvidas em centros científico/tecnológicos capital/conhecimento
intensivos e subdimensionamento da importância de outras formas
de propriedade intelectual de baixa intensidade capital/conhecimento.
EUA é um ator/subsistema -complexo e internamente heterogêneo
já que formado por uma rede de corporações
(grandes e pequenas) universidades, agencias estatais e ONGs- extraordinariamente
importante na questão já que em seu território
localizam-se aproximadamente 2/3 da capacidade cientifico/tecnológica
mundial sobre biodiversidade e biotecnologia; este grau de centralidade
de um Estado-nação não se repete em nenhuma
outra questão vinculada ao ambiente global. Uma arena política
globalizada/transnacionalizada decisiva dos próximos anos
estará situada em torno da alta diversidade de interpretações
dadas a dois cruciais tratados em vigor desde 1995: a Convenção
de Diversidade Biológica - fundada em requisitos de equidade
e acessibilidade aos recursos biológicos - e o Trade Related
Aspects of Intelectual Property Rights, TRIPS/WTO - fundado em princípios
fortes de propriedade privada e lucro. A situação
dos esforços para a proteção e uso sustentável
da biodiversidade no mundo é hoje extremadamente diferenciada:
desde avanços importantes em países como Costa Rica
e Belize, que estabelecem acordos para pesquisa farmacológica
e alimentar com corporações transnacionais; passando
por países com novas retóricas ambiciosas com pouca
correspondência em políticas efetivas como Brasil,
Malásia e Mexico; e países como Canadá e EUA
(que apesar de ter um sistema extenso de proteção
da biodiversidade, ainda tem significativa extinção
de espécies); e, indo ate a aceleração da destruição
em países em colapso de governabilidade (parte importante
da África Sub-Saariana) (Hanna, Folke and Maler 1996, Wasson
1997, Swanson 1997, Macilwain 1998, Masood 1998).
O regime de Biodiversidade é um exemplo de vitoria parcial
de uma coalizão entre Globalistas-sustentabilistas, Globalistas-progressistas
e Nacionalistas-sustentabilistas.
O
Global Environment Facility (GEF) é o instrumento financeiro
construído para apoiar o desenvolvimento dos três regimes
ambientais mencionados: a sua missão precipua e financiar
o custo incremental da proteção do ambiente global.
Apesar da lentidão de sua construção, o GEF
esta revolucionando na direção da eficiência
alocativa os mecanismos de transferencia de recursos multilaterais.
O fator negativo é a magnitude pequena dos recursos alocados
se comparados com as necessidades do ambiente global. Entre os aspectos
positivos destacam-se: uma negociação na qual os países
desenvolvidos concederam em termos de democracia no processo decisório
e o resto do mundo cedeu em termos de levar a serio considerações
de eficiência substantiva, a formação de uma
estrutura ad hoc leve e dinâmica para a gestão do fundo
combinando as vantagens relativas do PNUD, PNUMA e Banco Mundial,
e, a promoção internacional de uma metodologia sistêmica
não- economicista e sofisticada de avaliação
de custo-beneficio na financiamento da custo incremental da proteção
do ambiente global (Sand 1996, Viola 1997b).
A
GLOBALIZAÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL
Além
das caraterísticas gerais do processo de globalização,
existem alguns vetores específicos que promoveram a globalização
da política ambiental no Brasil:
1-
O consenso mundial (comunidade cientifica e formadores de opinião
publica) sobre a importância decisiva da Amazônia, em
termos de clima regional e biodiversidade global e o fato da Amazônia
ter ser tornado prioritária nos esforços de proteção
das ONGs ambientalistas internacionais (Gash, Nobre, Roberts and
Victoria 1996).
2- A formação de vastas coalizões transnacionais
em torno de algumas questões especificas amazônicas:
os impactos negativos de grandes projetos como o Polo Noroeste,
Balbina, Tucurui e pavimentação da BR364 entre Porto
Velho e Rio Branco (e sua eventual prolongação ate
o Pacífico); o assassinato de Chico Mendes em 1988 e seu
legado na concepção das reservas extrativistas; o
estabelecimento das reservas indígenas; o garimpo e a contaminação
das cadeias alimentares; a expansão altamente predatória
da industria madeireira; as realidades e controvérsias a
respeito da bio-pirataria e dos direitos das populações
tradicionais aos lucros da biotecnologia.
3- O impacto favorável que teve em diversos atores socio-políticos
no Brasil à nova consideração da questão
amazônica por parte de atores transnacionais estratégicos
e que mudaram em poucos anos a percepção da floresta
amazônica por parte da sociedade brasileira. Com efeito, até
fins da década de 1980 a percepção da floresta
Amazônica não diferia da percepção histórica
das florestas Atlântica e da Araucária, que foram quase
totalmente devastadas no processo de assentamento humano durante
o século XX. Nesta visão a floresta Amazônica
era mata a ser derrubada o mais rápido possível para
promover o desenvolvimento agropecuário, barragero, mineral
e urbano. A partir de aproximadamente 1988 processou-se uma acelerada
mudança perceptiva nos formadores de opinião: a floresta
amazônica passou a ser vista como um gigantesco reservatório
de biodiversidade (com extraordinário valor econômico
e estético) em que deveriam existir arquipélagos de
extrativismo, industria madedeira e mineração sustentável.
4- A influencia de padrões internacionais de proteção
ambiental sobre setores exportadores brasileiros com mercados nos
países desenvolvidos, como papel/celulose, aço, fruticultura,
alimentos processados derivados da avicultura/suinocultura.
5- A realização da UNCED no Rio em 1992.
6- A dramática mudança na disponibilidade de Fundos
dos Bancos Multilaterais para o Brasil, em 1989-90, de barragens,
rodovias e colonização da fronteira para saneamento
básico, proteção ambiental, educação
básica e reforma agraria.
7- O predomínio de uma orientação econômica
aberturista e internacionalizante nas elites brasileiras desde inicio
da década de 1990.
8- O processo de modernização acelerado do setor produtivo
do Sul/Sudeste (tanto corporações transnacionais quanto
nacionais) na primeira metade da década de 1990, o que incluiu
também a absorção de tecnologias mais favoráveis
a sustentabilidade ambiental, mesmo que numa escala e timing diferente
dos países desenvolvidos.
9- A emergência e desenvolvimento, no período 1987-97,
da Geração-92 do ambientalismo brasileiro: um vasto
contingente de jovens de bom nivel educacional que descobriram simultaneamente
a natureza, a qualidade ambiental, as ONGs, as viagens/intercâmbios
da vida globalizada e as virtudes do desenvolvimento pessoal reflexivo.
O
GOVERNO COLLOR, 1990-92: A TRANSIÇÃO ACELERADA PARA
A CENTRALIDADE E GLOBALIZAÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL
SOB A INFLUENCIA DA RIO-92
A
posição brasileira no sistema internacional tem mudado
extraordinariamente desde a Conferência de Estocolmo em 1972,
quando o Brasil co-liderou com a China a aliança dos países
periféricos contrários a reconhecer a importância
dos problemas ambientais. O modelo de desenvolvimento que estava
no seu apogeu em 1972 baseava-se numa forte depleção
dos recursos naturais considerados infinitos, em sistemas industriais
muito poluentes e na intensa exploração de uma mão
de obra barata e desqualificada. Entre 1950 e 1979 o Brasil foi
uma das periferias mais dinâmicas do sistema mundial com tendência
para ascender ao centro. Durante a década de 1970 o Brasil
(igual aos outros Novos Países Industrializados) foi um dos
principais receptores de indústrias poluentes transferidas
do Norte devido ao avanço da consciência ambiental.
Com o novo paradigma tecnológico (informação
intensiva) que se vai implantando no mundo a partir de inicio da
década de 1980 as vantagens comparativas internacionais do
Brasil tornam-se desvantagens: os recursos naturais clássicos
perdem valor relativo, a tolerância para com a poluição
torna-se um estigma, uma força de trabalho desqualificada
é incapaz de operar os novos sistemas produtivos. Estas são
algumas causas fundamentais da crise e consequente declínio
brasileiro na década de 1980, ainda que devam assinalar-se
também variáveis de natureza estritamente política
vinculadas ao caráter da transição democrática
(que exacerbou os particularismos) e a falta de renovação
das elites políticas. Apesar de seu extraordinário
custo social a crise do modelo de desenvolvimento tem tido um aspecto
benéfico que é o de ter acelerado na opinião
pública a tomada de consciência da devastação
ambiental. Esta extraordinária mudança na opinião
pública manifesta-se na posição do governo
brasileiro em 1992, quase nas antípodas de Estocolmo 1972,
muito sensível aos problemas ambientais (Guimaraes 1991,
Hogan e Vieira 1992, Reis Velloso 1992, Santos 1993, Becker e Egler
1993, Martins 1994, Fonseca Júnior e Nabuco de Castro 1994,
Guilhon Albuquerque 1996).
Quando
Collor nomeia a Lutzenberger como secretario de meio ambiente, em
março de 1990, sinaliza uma nova responsabilidade ambiental
que o governo brasileiro pretendia assumir. A súbita conversão
ambientalista de Collor explica-se pela necessidade de ganhar a
confiança da opinião pública do Norte para
seu programa econômico globalista-conservador que requer como
um de seus elementos cruciais a vinda de novos investimentos estrangeiros
ao país. No início de 1990 o ambientalismo tinha avançado
extraordinariamente na opinião pública do Norte, a
popularidade da proteção ambiental era muito alta
(entre os três primeiros lugares em ordem de prioridade na
maioria dos países) e as questões ambientais tinham
ocupado o lugar mais destacado na agenda da reunião dos G7
em Paris (1989). Logo depois de eleito, Collor percebeu imediatamente
que a ênfase na proteção ambiental era provavelmente
sua maior moeda de troca na nova parceria pretendida com o Norte.
Além disto, Collor também percebeu que a escolha do
Brasil para sediar a UNCED-92 por parte da Assembléia Geral
da ONU, efetuada poucos dias depois de sua eleição,
dava-lhe uma grande oportunidade para projetar sua pessoa e seu
governo no cenário internacional.
No
primeiro ano de governo, Collor/Lutzenberger tomam algumas decisões
importantes que lhe dão credibilidade diante do ambientalismo
internacional: prorrogação da suspensão dos
subsídios e incentivos fiscais para agropecuária na
Amazônia, suspensão do programa de ferro-gusa da Amazônia
oriental, maior monitoramento e fiscalização do desflorestamento
com queda de 50% nas queimadas em agosto/outubro de 1990 (comparadas
com o ano anterior); inicio da elaboração do macro-zoneamento
ecológico-econômico, fim do programa nuclear paralelo
dos militares e adesão do Brasil à política
ocidental de não-proliferação nuclear (Arnt
e Schwartaman 1992, D’Incao e Maciel de Oliveira 1994). Como
produto destas medidas o presidente Collor torna-se por alguns meses
um homem confiável para o establishment ocidental, capital
que deteriora-se rapidamente em janeiro de 1991, quando a inércia
da cultura do Brasil Potência e erros de avaliação
estratégica dos militares e Itamaraty deixam ao pais fora
da coalizão anti-iraquiana.
Durante
o ano 1991 a contenção das despesas públicas
afetou negativamente a secretaria do meio ambiente, assim como a
outros ministérios. A governabilidade do IBAMA que já
era complicada anteriormente ficou muito difícil em 1991
devido ao forte achatamento salarial e ao sistemático retardamento
governamental nas contrapartidas para liberação de
empréstimos internacionais. A forte retórica pró-ambientalista
de Collor não se traduziu numa significativa realocação
do gasto público em favor da proteção ambiental.
Contudo, apesar do arrocho orçamentário o governo
adotou algumas medidas favoráveis na área ambiental:
o BNDES apoia projetos de despoluição, entre os quais
destacam-se por sua magnitude os da Baía da Guanabara e dos
rios Tietê e Guaíba; estes projetos refletem a conscientização
pública já que pela primeira vez obras de saneamento
ambiental ocupam um lugar central no gasto público de vários
Estados; é demarcada a reserva Yanomami em acordo com as
reivindicações dos indígenas e seus aliados
depois de um forte conflito com os militares e as elites amazônicas;
realizaram-se, por convocatória do governo brasileiro, as
reuniões de presidentes do Pacto Amazônico e do Mercosul
cujos comunicados finais enfatizaram a necessidade de uma reforma
da ordem mundial na direção do desenvolvimento sustentável
e reconheciam que também os países do Sul deviam realizar
esforços significativos para lidar com os problemas ambientais
globais (Magalhaes Moura 1996, Vigevani 1997).
A
posição do governo brasileiro no processo preparatório
e na realização da Rio-92 foi fundada nos seguintes
princípios: 1- os problemas ambientais globais são
relevantes e devem ser tratados prioritariamente pela comunidade
internacional; 2- existe responsabilidade diferenciada pela causa
e pela correspondente solução dos problemas ambientais
globais, sendo que os países ricos devem assumir um custo
fortemente maior. Porém, a operacionalização
da posição brasileira nos PREPCOMS (até março
92) foi afetada pelas diferenças entre o Itamaraty que levantava
posições em transição do Nacionalismo
ao Globalismo-progressista e Lutzenberger (que levantava posições
globalistas-sustentabilistas). Goldemberg, sucessor de Lutzenberger
na secretaria de meio ambiente, liderou com sucesso junto com o
novo chanceler Lafer (mais competente e consistente que Rezek na
virada rumo ao globalismo) a posição brasileira na
Rio-92, incluindo os aspectos organizativos e operacionais para
a realização da conferencia. Contudo uma nova clivagem,
menor e de diferente signo da anterior aconteceu entre Goldemberg
e Lafer: a posição do primeiro era tinha um importante
componente nacionalista inclinada a procurar alianças estratégicas
com países como Índia, China, Indonésia e Malásia;
a posição do segundo era mais Interdependentista inclinada
a sintonizar-se com as posições dos países
desenvolvidos, particularmente as européias. Durante a Conferencia
e o período imediato anterior, maio/junho de 1992, o governo
brasileiro concluiu a mudança iniciada em fins de 1989 na
direção de uma política exterior responsável
no concernente a problemas ambientais globais: co-liderou na redação
da Convenção de Biodiversidade; facilitou o acordo
na convenção de mudança climática e
teve posições consistentemente favoráveis a
compromissos a favor do desenvolvimento sustentável na Agenda
21. Contudo, a posição brasileira foi irresponsável
quando apoiou a Malásia na sua oposição a uma
convenção sobre florestas.
A
posição brasileira na UNCED pode ser enquadrada como
um tênue Globalismo-progressista inserido numa estrutura estatal
em que predominam o Nacionalismo (declinante) e o Globalismo-conservador
(ascendente). Apesar do seu caráter declinante, o Nacionalismo
era ainda hegemônico em setores fundamentais da estrutura
estatal como as Forças Armadas. Estas estavam desorientadas
e perplexas devido ao colapso do comunismo em 1989, que tirou-lhes
um elemento fundamental de sua justificativa histórica. A
nova política exterior norte-americana favorável ao
enfraquecimento das Forças Armadas na América Latina
colocava àquelas numa posição extremamente
defensiva; a identificação espontânea com o
fortalecimento do Estado-nação foi a primeira resposta
e decorrente disto a sua inclinação a aliar-se com
as elites amazônicas contra as políticas de preservação
e desenvolvimento sustentável defendidas pelo governo Collor.
A
tênue posição Globalista-progressista do Brasil
foi produto da influência de cinco fatores: a- a crise do
modelo desenvolvimentista brasileiro na década de 1980 tem
produzido, na segunda metade da década, uma significativa
abertura na opinião pública para a idéia de
desenvolvimento sustentável (mesmo que a adesão a
este ideal seja muito difusa); b- o presidente Collor