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:: Textos Importantes do JMA ::

Agricultura Biodinâmica II - A Experiência da ABIO e COONATURA

UMA EXPERIÊNCIA VITAl

Brejal. Há vinte anos, os seis hectares de terra arrendada neste lugarejo perto de Petrópolis é palco constante de educação ambiental, por onde já passaram diversos personagens - estudantes, agrônomos, índios, ecologistas, pesquisadores e curiosos pela agricultura orgânica. Até novembro de 1997, este cenário era o Núcleo Rural da Coonatura - associação cooperativista que surgiu em 1979 no Rio de Janeiro, fundada por pessoas que não se conheciam mas que tinham em comum a preocupação com a contaminação dos alimentos. Foi uma carta escrita por Joaquim Moura naquele mesmo ano e enviada para o Jornal do Brasil (também para Carlos Drummond de Andrade, Caetano e Golbery) que provocou o encontro de 400 pessoas. Dizia assim:
"Esta carta é uma semente. A proposta é criar uma espécie de cooperativa que distribua, para quem se interesse, hortaliças (para começar), produzidas sem inseticidas nem outras químicas por quem tenha fazenda, sítio ou mesmo terreno grande em casa e queira aumentar ou diversificar sua renda, divertir-se e aprender plantando conforme a Natureza e contribuir para melhorar a alimentação dos sacrificados cariocas."
Em 97, devido à crise financeira da Coonatura (com uma dívida atual de R$180.000,00), a produção de seu Núcleo Rural tornou-se independente e Paulo Aguinaga, que já coordenava o Brejal, criou a Biohortas, empresa que comercializa e programa a produção dos agricultores orgânicos da região a fim de oferecer um mix maior de produtos durante o maior tempo possível. O principal cliente é a Coonatura; o excedente é vendido para a Moinho e a Agrinatura.
No início, a proposta do plantio orgânico chamou muita atenção entre os agricultores locais que, aos poucos, foram se aproximando por causa dos problemas com agrotóxicos e também porque a produção tinha um mercado específico, direcionado. É o caso de Levi de Oliveira, que trabalha há dezoito anos no Brejal, e de seu pai ,que intoxicou-se com veneno na agricultura convencional de tomate e pimentão.
Paulo Aguinaga acredita que o segmento hoje está decolando; o mercado, crescendo; as pessoas, mais conscientes. O consumidor exigente de mais qualidade e economia é que está puxando o crescimento. Na Dinamarca, o número de propriedades orgânicas é maior do que as convencionais. Aqui, o avanço é inegável. A entrada de produtos orgânicos no supermercado foi fator de grande estímulo, principalmente em São Paulo e Rio Grande do Sul, que estão à frente do movimento. Entretanto, a Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo já detectou produtores que usavam pesticidas.
Roberto Selig, engenheiro agrônomo e presidente da Abio (Associação de Agricultores Biológicos do Rio de Janeiro), aponta o modismo como uma tendência para o oportunismo mas acredita que a confiabilidade continua sendo um dado importante nessa nova relação de trabalho. A Associação foi fundada em l985 para administrar a comercialização dos produtos e, no mesmo ano, organizou a I Feira de Produtos Orgânicos em Friburgo. Um ano depois, estabelecia as primeiras normas de agricultura orgânica no país, considerando excludentes os agrotóxicos, os adubos químicos e a contaminação por culturas vizinhas. Desde então, a Associação vem passando por altos e baixos até l997, quando o produto orgânico passou a ser vendido no supermercado.
Hoje, a Abio, com 100 agricultores inscritos, é o único órgão credenciador (reconhecido por um Fórum nacional) dos que querem comercializar seus produtos no Estado do Rio de Janeiro. A Associação procura sempre abrir espaços de trabalho, como a feira da Glória , o Pavilhão 30 no Ceasa, inaugurado oficialmente em julho, e a feira do Horto do Fonseca, em Niterói. Como o governo do Estado está com uma abertura grande para a agricultura orgânica, a Abio e a Coonatura farão parte da Câmara Técnica que, junto à Secretaria de Agricultura e a Pesagro, constituirá um fórum permanente de estudos e discussões, funcionando como pólo irradiador de diretrizes para fomentar a produção, comercialização e ensino de agroecologia. No momento, a Coonatura, que funciona na Cobal do Humaitá, tenta reestruturar suas finanças e está prestes a receber uma casa-sede no Catete, cedida pelo governo do Estado. Com tudo isso, Roberto Selig alerta que se "não houver uma política geral com mudanças no sistema agrícola, nas idéias alimentares, na postura do consumidor, será muito difícil continuar um trabalho verdadeiro. A monocultura orgânica já está acontecendo!! A reforma agrária é uma necessidade para a agroecologia."

I ENCONTRO DE INCENTIVO À AGRICULTURA ORGÂNICA

Aconteceu no dia 24 de setembro em Rio do Ouro, Magé. O Encontro foi promovido pela Rede Agroecologia Rio que atua em três outros pontos no Estado (Friburgo, Bom Jardim e Cachoeiras de Macacu), sob a assistência da Recope - um colegiado de várias entidades (Univesidade Rural, Pesagro/Rio, Emater/Rio, Abio, Agrinatura, Embrapa, AS-PTA), com verba federal para pesquisa de agricultura orgânica e apoio aos custos do credenciamento semestral dos produtores.
A região de Magé é um polo sem nenhum contato com a agricultura orgânica e com alto índice de uso de agrotóxicos. Por isso, dezenas de agricultores foram convidados para os debates levantados pelos representantes da Abio, Horta & Arte de São Paulo e Emater, com o objetivo de elucidar dúvidas, desmitificar expectativas e incentivar o sonho de uma vida melhor para todos. A Rede oferece a assistência técnica da Emater, apoio à metodologia participativa da AS-PTA, além de insumos fornecidos pela Universidade, como a adubação verde e as caldas para controle de pragas e doenças. A conversão imediata para o orgânico não foi o objetivo principal do encontro. Roberto Selig lançou o conceito de transição, incentivando o agricultor a separar uma área para testar os novos métodos e observar os resultados até o momento de decidir entre o veneno ou a vida.
Cristina Ribeiro, da Abio, discutiu a comercialização. Há falta de produtos orgânicos no mercado e não se sabe o caminho de levá-lo ao consumidor - um trajeto diferente do produto convencional. Hoje, existem quatro distribuidores que compram, embalam e distribuem para o varejo: o Sítio do Moinho, a Agrinatura, a Coonatura e o Sítio Cultivar. A proposta da Abio é abrir mais entrepostos e tornar o produto acessível para quem quiser consumir. Cristina Ribeiro afirma: "Há necessidade de se fazer agricultura orgânica porque não haverá outro jeito de plantar. O orgânico vai virar convencional." Em tempos de transgênicos liberados, essa é a tábua de salvação. Vale citar Luis Eduardo Carvalho, engenheiro de alimentos e professor da Faculdade de Farmácia da UFRJ, em artigo recente no jornal O Globo: "A saúde tem seus mistérios. Os transgênicos parecem ter seus ministérios. O próprio Ministério da Saúde, pasmemo-nos, tem sempre votado contra rotular os transgênicos."
Em São José do Rio Preto, o trabalho com agricultura orgânica começou há quatro anos com grande aceitação por parte dos agricultores por causa do número crescente de casos de intoxicação por agrotóxicos. Como o forte da cidade é a produção de frango, usa-se a compostagem para a adubação do solo, com ótimos resultados. A assessoria do trabalho é feita pelo Centro Experimental de Agricultura Orgânica da Secretaria de Agricultura de São José.
Em São Roque (SP), a Horta & Arte é um sucesso. Segundo Filipe Mesquita, a empresa, fundada em 1991, tem como missão atender e viabilizar economicamente pequenos agricultores orgânicos, com o auxílio de uma equipe de agrônomos que desenvolve tecnologia e auxilia o gerenciamento da produção. São parceiros da empresa oitenta produtores, na sua grande maioria micro e pequenos, caracterizados pela agricultura familiar, o que garante a qualidade e a eficiência do sistema orgânico de produção. A Horta & Arte contribuiu para que os produtos saíssem dos espaços alternativos de comercialização e ganhassem um número maior de consumidores: são 7 caminhões por dia de produtos orgânicos! Outro fator de orgulho da empresa são as embalagens desenvolvidas para diferenciar as hortaliças orgânicas das convencionais, vendidas a granel nos supermercados. Elas se tornaram padrão nos supermercados da grande São Paulo e foram copiadas pela maioria dos fornecedores de hortaliças convencionais.
Hoje, a Horta & Arte quer produzir para exportar. Para isso, a empresa investiu numa unidade de beneficiamento para processar e refrigerar os produtos destinados ao mercado externo. Filipe incentiva o sonho: "O produtor orgânico trabalha muito para que tudo dê certo. Isso tem um valor. Não vou entregar meu pé de alface por R$0,l5. Vamos pensar grande!! R$1,00 não significa nada para o consumidor da cidade. A maçã argentina tem gosto de farinha. Com a cebola orgânica você chora, com a cebola argentina você dá risada. O princípio dessa agricultura é não adubar a planta, mas alimentar a terra; é sonhar e tentar descobrir uma maneira de acabar com o veneno, com a morte dos rios."

A PRÁTICA DO PLANTIO

O produtor orgânico gasta um pouco mais de tempo e esforço no seu trabalho inicial. A cenoura convencional sai mais barata porque há um herbicida que mata o mato e deixa a cenoura em pé. No plantio orgânico, o mato é capinado pacientemente na mão. Segundo Paulo Aguinaga, o princípio da agricultura orgânica é reequilibrar o solo para que as pragas não o prejudiquem, cuidando-o como um organismo vivo que, para produzir alimentos saudáveis, tem que ser bem nutrido com matéria orgânica, sais minerais e toda biodiversidade. A intervenção na terra que nunca foi plantada deve ser feita de maneira ecológica, cuidadosa. O inseto é visto como um animal que tem fome e as plantas nativas são bioindicadoras: não há inimigos naturais, mas solos desequilibrados que geram plantas fragilizadas. A praga é um sintoma de desequilíbrio. Monocultura, queimadas, adubos químicos, derrubada de árvores para criação de pastos e bois, desequilibram o ecossistema. Com a agricultura orgânica, evita-se a contaminação da natureza, a erosão do solo, a morte dos peixes e pássaros. Para Ernani Fornari, ex-gerente da Coonatura, além de fixar o homem na terra, combate-se o incentivo da indústria da morte: as fábricas de agrotóxicos.
O primeiro passo para a prática orgânica é ver a vocação da região para o que pode ser plantado, analisando-se solo, clima, águas. Para isso, é importante a assessoria de um dos agrônomos da Abio. Quanto menor é o terreno, mais rentável tem de ser o produto para que se auto-sustente como, por exemplo, são recomendáveis as ervas medicinais para uma pequena propriedade.
No Brejal, o solo possui o teor de ph ideal e vocação para hortaliças. A adubação é feita com composto orgânico, comprado a R$30,00 o m3, mais barato que o humus e com o mesmo nível de excelência para a terra. O composto é matéria orgânica em processo de fermentação aeróbica: um monte de pena de galinha, esterco, restos orgânicos, coberto com plástico ou capim seco, em fermentação. O solo de uma mata tem sempre um processo de compostagem.
Em Valença, João Carlos Ávila, ex-secretário de agricultura, dedica-se à produção de compostagem, em parceria com abatedouros de galinhas que provocavam problemas de poluição nos rios de vários municípios.
As sementes continuam sendo o calcanhar de Aquiles da agricultura orgânica. Boa parte delas ainda é comprada no mercado convencional. Recentemente, chegaram as produzidas em um assentamento do Movimento dos Sem-Terra no Rio Grande do Sul. Uma ótima novidade.

Stella Maris C.

 

LINHA DIRETA:
Coonatura - Cobal Humaitá - box 82 - telefax - 527-3027
Barra - telef.- 495-8987
Galpão - telefax - 580-8504 telef.- 580-9485
Abio - telef. 642-2575 (Teresópolis)
Agrinatura - fax - 644-6963
Horta & Arte - Felipe Mesquita - 7997-1303 / 1305 / 1772 / 1242 ou 96ll-8700 (São Roque,SP)

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ED. Nº 17
Agosto 2008




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