As perspectivas para o mercado de combustíveis, se tudo continuar
como está, não são positivas. O petróleo
e demais fontes fósseis de energia estão com os dias
contados. Segundo especialistas, as reservas atuais darão
conta do abastecimento mundial por mais apenas 40 anos...
Cenário para o biodiesel no Brasil
1.
DIRETRIZES DE POLÍTICA DE AGROENERGIA (Fonte: MME - 16.11.2005)
Biodiesel é um combustível líquido derivado
de biomassa renovável, que substitui total ou parcialmente
o óleo diesel de petróleo em motores de ignição
por compressão, automotivos (caminhões, tratores,
camionetas, automóveis, etc), transportes (aquaviários
e ferroviários) e estacionários (geradores de eletricidade
etc). O biodiesel pode ainda substituir outros tipos de combustíveis
fósseis na geração de energia, a exemplo do
uso em caldeiras ou em geração de calor em processos
industriais.
O biodiesel é produzido a partir de diferentes matérias-primas,
tais como óleos vegetais diversos (mamona, dendê, soja,
girassol, amendoim, algodão etc), gorduras animais, óleos
e gorduras residuais, por meio de diversos processos. A evolução
tecnológica evidencia a adoção da transesterificação
como principal processo de produção. Consiste numa
reação química em meio alcalino, onde se fazem
reagir óleos vegetais (ou gorduras animais) e um álcool
(etanol ou metanol), na proporção aproximada de 10
para 1, respectivamente.
Essa reação tem como produto preponderante o biodiesel
(éster de ácidos graxos). Como subproduto, tem-se
a glicerina, de alto valor agregado e com aplicações
diversas na indústria química. Além da glicerina,
a cadeia produtiva do biodiesel gera ainda uma série de outros
coprodutos (torta, farelo etc.), que podem agregar valor e se constituir
em outras fontes de renda importantes para os produtores agrícolas
e industriais.
Entretanto, deve ser observado que a magnitude do mercado de combustíveis
introduz o desafio de se buscar novos mercados e aplicações
para o uso da glicerina e da torta de mamona, entre outros, haja
vista que a capacidade produtiva desses sub-produtos aumentará
bastante com o desenvolvimento da produção do biodiesel.
O biodiesel pode ser usado puro ou misturado ao diesel em diversas
proporções. A mistura de 2% de biodiesel ao diesel
de petróleo é chamada de B2, e assim sucessivamente,
até o biodiesel puro, denominado B100. A Lei n° 11.097/05
estabeleceu que, a partir de janeiro de 2008, a mistura B2 passa
a ser obrigatória no território nacional. Assim, todo
o óleo diesel comercializado no País deverá
conter, necessariamente, 2% de biodiesel. Em janeiro de 2013, este
percentual passará para 5%.
Vale aqui ressaltar que, a depender da evolução da
capacidade produtiva e da disponibilidade de matéria-prima,
entre outros fatores, esses prazos podem ser antecipados, mediante
Resolução do Conselho Nacional de Política
Energética – CNPE, conforme estabelecido pela Lei.
Em sua Resolução N. 03 de 23 de setembro de 2005,
o CNPE antecipou para janeiro de 2006 o B2, cuja obrigatoriedade
se restringirá ao volume do biodiesel produzido por detentores
do selo “CombustívelSocial”.
Como um substituto direto para o óleo diesel, o mercado potencial
para o biodiesel é determinado essencialmente pelo mercado
do derivado de petróleo. Atualmente, a demanda total de óleo
diesel no Brasil é cerca de 40 bilhões de litros anuais,
sendo 94% produzido no próprio país e 6% importada,
com dispêndio de quase US$ 1 bilhão por ano com a importação.
O uso da mistura B2, já autorizada desde dezembro de 2004,
e obrigatória a partir de janeiro de 2008, conforme mencionado,
representa um volume de, aproximadamente, 840 milhões de
litros anuais de biodiesel, e contribui para a redução
das importações de diesel.
Para
a mistura B5, obrigatória a partir de 2013, estima-se o volume
de 2,6 bilhões de litros de biodiesel por ano. A sua produção
e uso representam o desenvolvimento de uma fonte energética
sustentável sob os aspectos ambiental, econômico e
social. A dimensão do mercado no Brasil e no mundo assegura
uma grande oportunidade para o setor agrícola, assim como
contribuirá para o desenvolvimento e a ampliação
do parque industrial. Com vistas à redução
dos custos de produção há de se buscar no segmento
industrial o desenvolvimento e a adequação da produção
desse combustível renovável em regime contínuo,
sem no entanto invalidar as experiências de produção
pelo regime de bateladas, inicialmente desenvolvidas.
Também
se faz necessário consolidar da tecnologia da transesterificação
etílica, tendo em vista a potencialidade brasileira na produção
do etanol a partir da cana-de-açúcar. Ademais, esforços
devem ser viabilizados para a adequada identificação
das barreiras tecnológicas e comercias que podem dificultar
a colocação do biodiesel nacional nos mercados externos,
em especial dos Estados Unidos e da União Européia,
onde predomina a transesterificação metílica
a partir de um seleto conjunto de oloeaginosas (soja e canola).
Isso é relevante para o aproveitamento do diferencial positivo
do Brasil no segmento agrícola, que dispõe de uma
grande diversidade de matérias-primas, com diferentes potencialidades
regionais. Engloba tanto culturas já tradicionais, como a
soja, o amendoim, o girassol, a mamona e o dendê, quanto para
alternativas novas, como o pinhão manso, o nabo forrageiro
e uma grande variedade de oleaginosas a serem exploradas.
O
cultivo de matérias-primas e a produção industrial
têm grande potencial de geração de empregos,
promovendo, dessa forma, a inclusão social. Para estimular
ainda mais esse processo, o Governo Federal institui um modelo tributário
específico, com a criação do selo “Combustível
Social” e a instituição de níveis diferenciados
de desoneração tributária em função
do aproveitamento combinado da agricultura familiar e do agronegócio
na cadeia produtiva.
2. O Cenário.
As
pespectivas para o mercado de combustíveis, se tudo continuar
como está, não são positivas. O petróleo
e demais fontes fósseis de energia estão com os dias
contados. Segundo especialistas, as reservas atuais darão
conta do abastecimento mundial por mais apenas 40 anos.
Por
conta deste panorama, o mundo todo começa a investir seriamente
em outras fontes prováveis de energia que já vinham
sendo estudadas no passado, sejam as opções a produção
de biocombustíveis, o melhor aproveitamento de gás
natural ou qualquer outro combustível renovável e
não-poluente. Tudo isso ficou ainda mais urgente após
a discussão do Protocolo de Quioto, através do qual
os países devem diminuir sua cota de emissão de gás
carbônico (C02), principal causador do efeito estufa. Portanto,
o momento é de escolha de tecnologia a ser adotada e de qual
matéria-prima utilizar para geração de energia.
No
Brasil, de tradição agrícola, a pesquisa do
biodiesel tem se mostrado a opção número um.
Com grande extensão territorial para plantação,
o combustível obtido através de óleos vegetais
pode ser o diferencial. Neste contexto, o insumo número um
é a soja, já que o país é um dos grandes
produtores mundiais do grão e em 2003 ocupou o primeiro lugar
em exportação.
O
mais recente passo tomado neste sentido pelo Governo Federal foi
a assinatura, no último dia 16 de janeiro, do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva para a criação, em
Piracicaba, interior de São Paulo, do Pólo Nacional
de Biocombustíveis, na Esalq (Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz). O pólo será responsável por
centralizar as pesquisas feitas no país em relação
ao biodiesel e desenvolver outras com cana-de-açúcar
e derivados, além de insumos como madeira, milho, amendoim,
soja e girassol. Será também papel dele contribuir
na definição de estratégias no campo da energia
baseada em fontes alternativas. O programa contará com a
participação dos ministérios da Agricultura,
Ciência e Tecnologia e Minas e Energia.
A
decisão de implanta-Io em Piracicaba levantou críticas
por parte de pesquisadores e técnicos de outras regiões
do país que temem a concentração em São
Paulo, a despeito do desenvolvimento dos demais estados na área.
A
idéia do projeto do Ministério da Ciência e
TecnoJogia (MCT) é testar o biocombustível em várias
capitais até o final de 2004, na mistura B-5, ou seja, 5%
de óleo vegetal misturado ao diesel. Esta medida faz parte
do Probiodiesel (Programa Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico
de Biodiesel), criado pelo Ministério da Ciência e
Tecnologia através da Portaria 702, em outubro de 2002, visando
"promover o desenvolvimento científico e tecnológico
de biodiesel, a partir de ésteres etílicos de óleos
vegetais puros e/ou residuais". Para este ano, o programa tem
orçamento previsto de R$ 8 milhões.
No
entanto, substituir o óleo diesel pelo vegetal não
será tarefa fácil, já que o tradicional continua
sendo mais barato. O Brasil importa 18% do óleo diesel que
consome e, para fazer a troca, será necessária uma
grande produção de matéria-prima vegetal, seja
ela a soja, o dendê, a mamona, o girassol ou outro insumo.
A utilização de uma gama de vegetais seria uma oportunidade
para o aproveitamento do potencial de diferentes estados brasileiros.
Hoje, a produção de biodiesel brasileira ainda é
experimental, mas se o objetivo de se substituir 5% do diesel importado
pelo de óleos vegetais sair do papel, haverá uma demanda
de aproximadamente 3,5 bilhões de biodiesel.
Para
os estados do Nordeste e Espírito Santo, por exemplo, está
sendo pleiteado um projeto para incentivo da produção
de mamona, unidades de extração do óleo desta
e obtenção final de biodiesel com este vegetal. O
custo seria de R$ 10 milhões (um milhão para cada
estado).
O
interesse pelo desenvolvimento no país de novas fontes combustíveis
vai além das fronteiras brasileiras. Em junho do ano passado,
o presidente Lula, em encontro com o presidente americano George
W. Bush, levou em sua comitiva a ministra de Minas e Energia, Dilma
Roussef, que fez contato com o secretário americano de energia
com o propósito de discutir questões como as tecnologias
para combustíveis renováveis. A idéia era que
ainda no começo de 2004 fosse criado um grupo Brasil? Estados
Unidos para estudos e estreitamento de cooperação
nos setores de biomassa e biodiesel.
O
interesse norte-americano pode ser explicado pelo fato de que já
ficou provado que o potencial do Brasil quanto ao biodiesel não
é nada desprezível. Segundo estudos do NBB (National
Biodiesel Board), órgão americano de implementação
de biodiesel nos Estados Unidos, o Brasil tem todas as condições
para ser líder na produção mundial deste tipo
de combustível, promovendo a substituição de
60% da demanda mundial do óleo diesel.
O Portal do Meio Ambiente é uma publicação da REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental, editada em parceria com a OSCIP Associação Ecológica Piratingaúna, e tem por missão democratizar a informação ambiental como forma de contribuir para formação e a mobilização da cidadania ambiental planetária. A REBIA não tem fins lucrativos e é feita por indivíduos e organizações parceiras que doam voluntariamente seus talentos, recursos e energias na certeza de que um mundo melhor é possível. Editado também de forma voluntária pelo escritor, jornalista e ambientalista VILMAR Sidnei Demamam BERNA, que em 1999 recebeu o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, recebeu o Prêmio Verde das Américas, entre outros. Contatos: vilmar@rebia.org.br / Telefax: (21) 2610-2272 Redação: Trav. Gonçalo Ferreira, 777 - Casarão da Ponta da Ilha, Bairro Jurujuba, Niterói, RJ CEP 24370-290 (Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião do Portal do Meio Ambiente).