REBIA
Clique no mapa para
obter informações
gratuitas e participar
de debates ambientais sobre a sua região


REBIA - Conheça a Rede e Cadastre-se aqui
Apresentação da REBIA
Campanha da REBIA
PORTAL no ORKUT
REBIA no ORKUT
Capture logos e banners
Conselho Gestor e Editorial
Enquete sobre a REBIA
Parceiros da REBIA
Fundador da REBIA
Histórico da REBIA

EDITORIAS

» Agenda 21
» Ecologia Humana
» Ecoturismo
» Energia
» Saneamento
SERVIÇOS DA REBIA
»Banco de teses,
monografias e textos
importantes
» Dicionário Ambiental
» Imagens Ambientais
» Links do Ambiente
» Palestras Grátis
SERVIÇOS ESPECIAIS
DE PARCEIROS
» Calcule sua emissões
» Consulta e processos
» Informações sobre
 Agrotóxicos
» Mapa das RPPNs
» Produtos Perigosos
» Sensoriamento Remoto e imagem de satélites
» Testes ambientais
CIDADANIA AMBIENTAL ATIVA
» Áreas de Riscos
» Banco de projetos e
    experiências
» Campanhas
» Como Criar ONGs
» Como Fazer Projetos
» Como fazer uma campanha
» Denúncias
» Lista de ONGs
» Onde Obter Recursos
» Problemas ambientais
EDIÇÕES ANTERIORES DA REVISTA DO MEIO AMBIENTE
EDIÇÕES ANTERIORES DO JORNAL DO MEIO AMBIENTE
BANCO DE NOTÍCIAS


»
Outros meses

»
Cadastre-se aqui para receber notícias diárias GRÁTIS

SOBRE O PORTAL
Cadastre-se
Código de Ética
Como Anunciar
Como Assinar
Estatísticas
Expediente
SUA OPINIÃO, SUGESTÃO DE PAUTA, COMENTÁRIOS
Fale Conosco

Sua Opinião e Comentário

Enquetes

 

 

 

 

 

 

 

Estadisticas Gratis
courses: .fr.tw.cn.ru

   

Deputados Arquivam Projeto de Instalação de Usinas no MS

Francelmo
Por HUDSON CORRÊA, da Agência Folha, em Campo Grande

A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul rejeitou e arquivou no dia 30/11, por 17 votos a 4, o projeto do governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, que propunha a instalação de usinas de álcool no entorno do Pantanal. Zeca do PT --que viajou nesta quarta a Brasília, Rio e São Paulo-- foi informado à tarde da decisão da Assembléia. A assessoria de imprensa do governador informou que ele não comentaria o resultado.



O presidente da CCJR (Comissão de Constituição, Justiça e Redação) da Assembléia, deputado Onevan de Matos (PDT), disse que a morte do ambientalista Francisco Anselmo Gomes de Barros, 65, o Franselmo, interferiu na decisão da Assembléia.

No dia 13, Franselmo morreu 22 horas após atear fogo ao corpo durante protesto no centro da cidade contra a instalação de usinas de álcool.

"Eu acho que deve ter mexido com os sentimentos de alguns deputados que não tinham posição definida. Antes, seria uma votação um tanto quanto difícil, equilibrada", afirmou Onevan, que votou contra o projeto.

"Eu perdi meu marido, mas ele deu a vida pelo meio ambiente, então foi uma vitória, com certeza", disse a viúva Iracema Sampaio, 67, que assistiu à votação.
Embora também tenha votado contra o projeto, o deputado Pedro Teruel (PT) disse que "atitudes radicais que culminaram com a trágica morte de Anselmo se sobrepuseram à discussão técnica".

"Não foi nenhuma posição radical. Ele se sentiu impotente para barrar isso aí [o projeto], porque me disse três dias antes [de atear fogo ao corpo] que um terço dos deputados estava a favor, um terço contra e um terço indeciso. Aquele gesto dele foi para convencer os indecisos", afirmou Sampaio.

Cerca de 200 pessoas, a maioria ambientalistas, incluindo um grupo de ao menos dez favoráveis ao projeto, assistiram à votação. Não houve tumulto, apenas uma vaia durante discurso do deputado Sérgio Assis (PSB) favorável ao projeto.

Projeto

Os deputados votaram durante a sessão o parecer da CCJR o qual na semana passada, por 5 votos a 0, afirmara que o projeto de Zeca do PT era inconstitucional e criava riscos de poluição ao Pantanal com derramamento de vinhoto (resíduo da produção de álcool) nos rios, levando à morte de peixes.

O governador argumentava que as usinas ficariam longe dos rios, na área de planalto. Segundo ele, os empreendimentos trariam desenvolvimento econômico a 28 municípios da região.

"Às vezes votamos a favor de projetos inconstitucionais por decisão política. Nós estamos condenando a região norte [onde seriam instaladas usinas] ao atraso. Politicamente, esse parecer [da CCJR] pode ser derrubado", apelou o deputado Loester Nunes (PDT).

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u115799.shtml

Francelmo, mais um Mártir Ambiental. Quantos Mais Serão Precisos Para a Sociedade Acordar?

Editorial
Por Vilmar S. Demamam Berna*

Ainda continuo achando covardia quando o suicídio é uma saída consciente da vida por não ter coragem de enfrentar problemas que podem ser enfrentados ou é uma incapacidade de pedir ajuda, de confiar no outro. Mas não consigo ver como covarde o ato extremo de tirar a própria vida diante de uma doença, como a depressão, onde a pessoa não está plenamente consciente de suas decisões e às vezes não vê saídas não por conta da covardia, mas pela própria depressão que é uma doença ainda negada em nossa sociedade. As pessoas não têm vergonha de dizer que estão com dor física, mas sentem vergonha de reclamar de depressão, que é uma dor igualmente incapacitante, mas tratada, às vezes, como 'sem vergonhice' ou vagabundagem. Muitas vezes pais, parentes, cônjuges, colegas de trabalho só se dão conta dos pedidos de socorro do suicida - todas as vezes em que tentou chamar a atenção sobre si - quando é tarde demais.

Também não acho covardia o suicídio diante de uma doença terminal irreversível, onde conscientemente se escolhe a hora de partir, em vez de definhar agarrando-se a uma vida que às vezes não merece mais a pena ser vivida. Quem disse que temos de ser condenados à vida? Devem ser os mesmos que disseram que estamos condenados à felicidade e que a individualidade não é uma ilusão de nossa consciência.

E finalmente, não considero covardia quando alguém se sacrifica por uma causa que o ultrapassa e dá sentido à sua vida e à sua morte, como a dos monges budistas que se imolaram chamando a atenção do mundo para o absurdo que se praticava na Guerra do Vietnã é que foi fundamental para o fim daquele conflito. Ao contrário de serem covardes, esses mártires foram extremamente corajosos e sobretudo altruístas, colocando o interesse coletivo muito acima do individual. Francelmo foi de uma coragem extrema e heróica e teve de ter muito sangue frio e equilíbrio para concluir seu gesto. Sozinho, em segredo, planejou tudo com antecedência e muito cuidado, escolheu o melhor momento político para obter eficácia, providenciou os recursos necessários, escreveu as 17 cartas, uma delas aos seus colegas jornalistas.

É importante compreender o que ele quis dizer com seu gesto por dois motivos, para que este seja o único e não se repita mais, e para que sua mensagem não caia no esquecimento:

“Meus queridos pares,

Pioneiros no Brasil na questão do meio ambiente, hoje somos passados para trás por interesses de maus políticos, maus empresários e PhD’s de aluguel. Em termos de Brasil, estamos vendo o barco afundar e ninguém diz nada.

São transgênicos entrando de contrabando pelo Sul, e o governo apoiando. São queimadas da Amazônia, e o governo impassível. Gente com terra do tamanho de um Estado, e a gente sem terra. É transposição do rio São Francisco, no lugar de revitalização.

No Pantanal, querem fazer do rio Paraguai um canal de navegação com portos para grandes embarcações e grandes comboios. É pólo siderúrgico, é pólo gás-químico. Agora, querem fazer usinas de álcool na Bacia do Alto Paraguai. Um terço dos deputados estaduais são a favor. Um terço contra. E um terço sem saber o que é. Já que não temos votos para salvar o Pantanal, vamos dar a vida para salvá-lo”.

O que Francelmo denuncia é, em última instância, a indiferença em nossa sociedade, onde " ninguém diz nada" diante do desastre ambiental que já compromete as presentes e futuras gerações, a indiferença diante da traição dos "políticos, maus empresários e PhD’s de aluguel".

Observem que Francelmo não tenta chamar atenção para si, ou diz que não tem jeito, que não há mais tempo de salvar a natureza e que por isso mesmo ele prefere retirar-se da vida, mas ao consumar seu ato e distribuir calculadamente suas cartas, Francelmo mostra confiança de que esta guerra ainda pode ser ganha, apesar de estarmos perdendo algumas batalhas para a cobiça, o egoísmo, a visão estreita de alguns e a indiferença da maioria.

Na natureza, as formigas-soldado sacrificam-se pelo formigueiro e nem por isso são extintas, por que as demais formigas cuidam para que seus genes se perpetuem e continuem sempre existindo formigas-soldado que irão dar a própria vida para proteger a vida de todos. Francelmo não se sacrificou para que seu gesto caísse no vazio da indiferença ou por que cansou de ver a natureza agredida, mas por que tinha esperanças e confiava na capacidade da sociedade em acordar a tempo, e sabia que seu gesto poderia ajudar - como ajudou - aos seus colegas jornalistas, ambientalistas e tantos outros, a avançar na luta ambiental e obter conquistas que antes pareciam impossíveis. Francelmo ficaria feliz de saber que seu gesto não foi inútil, e que pelo menos, uma das questões de denunciava, a pretensão do governador Zeca do PT de implantar usinas de álcool no Pantanal, já não tem mais clima político favorável para ser aprovado.

*Vilmar Sidnei Demamam Berna é jornalista, ambientalista e escritor. Fundou e edita desde janeiro de 1996 o Jornal do Meio Ambiente e preside a ONG IBVA Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais. Em 1999, foi homenageado pela ONU com o Prêmio Global 500 pelo Meio Ambiente. Contatos: vilmarberna@jornaldomeioambiente.com.br

NOTA DO MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE

O Ministério do Meio Ambiente lamenta a morte do ambientalista Francisco Anselmo de Barros. Esclarece, também, que é contra a implantação de agroindústrias de exploração de cana-de-açúcar e seus derivados em áreas limítrofes ao Pantanal sul-mato-grossense, proposto no Projeto de Lei do Executivo do Mato Grosso do Sul, submetido à Assembléia Legislativa do Estado. O ministério entende que a preservação da planície pode não se concretizar, apesar dos limites geográficos e físicos propostos pelo projeto de lei, uma vez que existe a possibilidade de contaminação dos rios que correm do planalto para o Pantanal.

Há diversos testes científicos confirmando que o cultivo da cana-de-açúcar provoca erosão e degradação do solo, acarreta diminuição de microorganismos na terra – principalmente quando a plantação é queimada antes da colheita - e pode comprometer os recursos hídricos com o despejo de produtos químicos, como pesticidas e vinhoto.

Além disso, o Ministério do Meio Ambiente lembra que existe uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 1985, determinando aos órgãos estaduais do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul a suspensão de licenças para implantação de novas destilarias de álcool nas bacias hidrográficas do Pantanal mato-grossense, até o Conselho se posicionar sobre o assunto.

O Ministério do Meio Ambiente reafirmará essa posição nas instâncias jurídicas e administrativas pertinentes, uma vez que a definição constitucional do Pantanal como Patrimônio Nacional impõe à União atuar na defesa de sua preservação.

Marina Silva - Ministra do Meio Ambiente

Os Mártires da Ecologia

Francisco Alves Mendes Filho (Chico Mendes) - 44 anos, assassinado assassinado com um tiro de escopeta, quando estava no quintal de sua casa, no dia 22 de dezembro de 1988. Seringueiro desde criança, dedicou praticamente toda a sua vida à defesa dos trabalhadores e povos da floresta.
Em abril de 1993, em Vitória (ES) foi morto com quatro tiros o biólogo e ambientalista Paulo Vinhas, que lutava contra empresas que exploravam areia de forma desordenada na região de Barra do Jucu, em Vila Velha (ES), no mesmo dia em que a prefeitura flagrou os irmãos Queiroz retirando areia da área embargada, depois de denúncia do ambientalista. O empresário Aílton Barbosa Queiroz foi condenado a 16 anos de prisão, em Guarapari (ES) pelo crime.

Seu Edu, foi espancado até a morte nas ruas de Itaipuaçu, em Marica (RJ), em 1993, por que combatia o roubo de areia nas praias da região. As denúncias feitas por Seu Edu acusavam a formação de uma cratera pela extração de areia da Praia de Itaipuaçu. Apontava também diversos loteamentos irregulares em áreas da Mata Atlântica. Até hoje sua morte não foi esclarecida.

Þ O sargento Amauri, do Batalhão de Polícia Florestal e Meio Ambiente, foi assassinado em Itaperuna, em 1992, ao tentar coibir a pesca predatória em uma fazenda da cidade.
Þ Fernando, da ONG Univerde, de São Gonçalo, foi apedrejado até a morte no Terminal Norte de Niterói, em 1998. Ele denunciava invasões de manguezais na Baía de Guanabara.
Álvaro Marques (RJ) – 69 anos, assassinado em plena luz do dia, no centro Angra dos Reis, no dia 23/01/1999. Era presidente da SERENA – Sociedade Ecológica Para a Recuperação da Natureza e na ocasião estava denunciando agressões ao manguezal de Mambucaba.
Dionísio Júlio Ribeiro (RJ) – Assassinado em 22/02/2005 em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, por vingança de um caçador denunciado por ele. Era um defensor da Reserva Biológica do Tinguá.
Dorothy Stang – 73 anos, assassinada com sete tiros no dia 12/02/2005, em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Estado do Pará, Brasil. A Irmã Dorothy lutava pela distribuição eqüitativa da terra e pelo desenvolvimento sustentável.
Bispo Luiz Flávio Cappio (Frei Luiz) - 59 anos, encerrou em 10/10/2005 uma greve de fome de 11 dias contra o projeto de transposição do rio São Francisco, depois que um enviado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu abrir novas discussões sobre o plano. "Eu quero acreditar na sinceridade dele (Lula), que não é mentiroso", disse o bispo que havia prometido manter seu protesto até a morte, a menos que o governo cancelasse o projeto de 4,5 bilhões de reais.
Francisco Anselmo Gomes de Barros (Francelmo) – 65 anos, imolou-se com fogo em 12/11/2005, em Campo Grande (MS), durante ato público contra a instalação de usinas de álcool na região do Pantanal. Era presidente da Fundação para Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (Fuconams).

 

Os Mártires da Ecologia

Por Roberto Malvezzi, Gogó *

Primeiro foi Chico Mendes. Tombou como tombaram suas seringueiras, pelas mãos dos predadores, pela arma dos pistoleiros. Depois outro ambientalista foi morto no Rio de Janeiro -por que não tenho o nome dele aqui em minha frente como tenho a imagem de N. S. de Guadalupe que alguém do México me deu?-, morto por caçadores do parque. Em seguida veio Ir. Dorothy, quando a força feminina irredutível pôs-se franca e abertamente contra o desmatamento de sua região. Depois veio Frei Luiz - que não morreu -, mas, estava disposto a imolar-se pelo rio São Francisco e seu povo. Agora foi a vez de Anselmo, pondo fogo em seu próprio corpo, num gesto derradeiro, queimando-se como as queimadas da Amazônia.

Estamos diante de fatos inéditos na história da humanidade. Sempre tivemos mártires. Aqueles que deram suas vidas por suas convicções religiosas, pela liberdade de seu povo, ou mesmo ofereceram suas vidas para salvar a vida de outras pessoas. Mas só agora temos pessoas expondo suas vidas para salvar também a natureza, fundamento que sustenta toda a comunidade da vida, não somente a do ser humano. Essas pessoas já entenderam que a vida biológica é um todo, onde uma vida depende da outra, mas onde também a vida depende de elementos não vivos, como a água, o ar e os solos. Essas pessoas transtornam a visão utilitarista, economicista, reducionista da natureza e da pessoa humana. Aqueles que matam a natureza são também aqueles que assassinam outras pessoas humanas.

Os mártires ambientais nos dizem abertamente que a história da humanidade chegou a um impasse decisivo, isto é, temos que rever todos os fundamentos da civilização humana e readquirir um sentido para a história que não seja regido exclusivamente pelos interesses econômicos imediatos. Enfim, precisamos reinventar a história humana.

Essas pessoas percebem ainda que todas as linguagens estão esgotadas: a política representativa, a revolução armada, a democracia representativa com suas estruturas de poder, as passeatas efêmeras, as mobilizações que não tem prosseguimento, os discursos evasivos, enfim, nos dizem que vivemos sob a ditadura do econômico e que o econômico está descolado do social, do político e do ambiental.

É preciso reinventar a linguagem da luta popular. Em uma época de transição, de fim de um determinado tipo de história, de crise civilizatória, onde tudo está em cheque e questionamento, a única linguagem que está restando é expor a própria vida. Essas pessoas não retiram a vida de outros, mas aceitam expor a sua própria.

Os poderes já entenderam que tem um fato novo no cenário, isto é, tem pessoas expondo suas vidas em favor de todas as vidas. E têm muito medo....

* Coordenador Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticias/19916.asp?lang=PT&cod=19916

Desespero ou heroísmo?

Francelmo II
Por Thereza Hilcar*

Francelmo é meu herói. Pra quem, ainda, não sabe de quem se trata, Francisco Anselmo (carinhosamente chamado de Francelmo pelos amigos) é aquele homem que a mídia mostrou como o ambientalista que ateou fogo sobre o próprio corpo em defesa do Pantanal. Pois é: exatamente ele quem elegi para herói, nestes tempos em que achar um espécime desta natureza é praticamente impossível. Sei que isto vai chocar algumas pessoas. Muitas delas, talvez a maioria, pensam justamente o contrário. As opiniões são diversas: uns dizem que Francelmo foi um louco; que cometeu um gesto insano, brutal; outros chegam a dizer que o motivo não merecia tal sacrifício. Houve até quem dissesse que ele não pensou em ninguém, nem na família, nos amigos.

Tem até quem pense que sua atitude foi fruto de algum desequilíbrio, algo insano. Sinto desapontá-los, mas estão todos enganados. Ou melhor, muito longe da realidade dos fatos. Mas não me espanta que as pessoas prejulguem, com tanta facilidade atitudes como a do amigo Francelmo. Afinal, pouca gente sabe que há mais de 40 anos ele erguia sua bandeira ambientalista, fazia do tema sua ideologia, sua vida. Conheci-o há mais ou menos 25 anos. Até então, o meio ambiente para mim era apenas uma obviedade composta por árvores, água, calor, frio. Não via nada de mais na questão. Foi ele a primeira pessoa que me chamou a atenção para a fragilidade do ecossistema. Escrevia artigos, publicava em sua revista, conversava com as pessoas sobre o assunto, cuidava da natureza a sua volta e não se descuidava do que estava distante. Em sua fala havia paixão, mas nunca fanatismo, que isto fique bem claro. Francelmo era um pacifista, discreto, ponderado, sem qualquer tipo de vaidade, mas de opiniões firmes. Principalmente quando o assunto era meio ambiente. Sua mulher, a brava e lutadora Iracema Sampaio, costumava brincar dizendo que sua única rival era a natureza, tamanha dedicação do marido à questão. Levamos um susto, claro, quando soubemos que aquele homem simples, quieto, equilibrado, havia silenciosamente montado todo um esquema de se imolar, na tentativa derradeira de salvar o meio ambiente mais próximo, o Pantanal. Muitos dos seus amigos, familiares, estão até agora vivendo numa espécie de transe. Difícil aceitar que alguém dê sua própria vida em prol de uma causa. Mas pra mim, Francelmo fez muito mais que isto.

Seu gesto desesperado tornou-lhe uma exceção em meio a uma sociedade hedonista como a nossa. Quem, afinal, seria capaz de gesto como este? Quem se lembra de alguém que tenha feito tamanho sacrifício em prol da vida? Acho que não há precedentes neste Brasil de interesses espúrios e mentiras deslavadas. Neste país onde impera a opção pelo lucro fácil e rápido, contas em paraísos fiscais, poder a qualquer preço e o solene desprezo à população, calada à custa de ações populistas, de esmolas. Por isso as pessoas não acreditam que o gesto de Francelmo foi pura e simplesmente um ato de extrema coragem, sem qualquer conotação político-partidária, mas sim humanitária.

Um gesto de quem sabe muito bem a falta que a natureza faz. Mas como querer que as pessoas entendam? Como pedir que elas não duvidem? Ninguém acredita mais em heróis, em pessoas capazes de se doar por outros. Depois disto, infelizmente só depois disto, não podemos mais aceitar os argumentos de poderosos e astutos que acostumaram amealhar fundos em detrimento de milhões de pessoas. Não podemos mais viver em
paz diante do descaso, do escárnio da ignorância de quem só sabe onde fica o próprio umbigo. Francelmo não pensou em ninguém em particular quando ateou fogo em seu próprio corpo. Ele pensou nas milhares de crianças que não poderão respirar ar puro se continuarmos colocando o falso progresso à frente da natureza. Porque nenhum emprego, nenhum salário vai poder comprar de volta o ar puro, a água potável, a saúde de milhares de pessoas. Nenhum progresso vai compensar o desaparecimento deste santuário que é o Pantanal que, aliás, pode ser a nossa única fonte de divisas através do turismo. Numa época em que bandidos ganham as primeiras páginas dos jornais e os vilões se travestem de mocinhos, Francelmo é um verdadeiro, único herói dos tempos modernos. Só lamento que os heróis quase sempre morram durante a luta. Uma luta que está apenas começando e que depende, mais do que nunca, de cada um de nós. Que seu gesto nos dê, ao menos, um pouco de sua coragem para olhar até o futuro. E que ele seja verde.

*Jornalista e colunista do Correio do Estado (Fonte: http://www.correiodoestado.com.br - 15/11/2005)


 

LANÇAMENTO!
Editora Paulus
COMPRE AQUI

ASSINE A REVISTA DO MEIO AMBIENTE

ED. Nº20
Nov./Dez. 2008




ANUNCIE  NA PRÓXIMA EDIÇÃO. Reserve já!

 

O Portal do Meio Ambiente é uma publicação da REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental, editada em parceria com a OSCIP Associação Ecológica Piratingaúna, e tem por missão democratizar a informação ambiental como forma de contribuir para formação e a mobilização da cidadania ambiental planetária. A REBIA não tem fins lucrativos e é feita por indivíduos e organizações parceiras que doam voluntariamente seus talentos, recursos e energias na certeza de que um mundo melhor é possível. Editado também de forma voluntária pelo escritor, jornalista e ambientalista VILMAR Sidnei Demamam BERNA, que em 1999 recebeu o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, recebeu o Prêmio Verde das Américas, entre outros. Contatos: vilmar@rebia.org.br / Telefax: (21) 2610-2272 Redação: Trav. Gonçalo Ferreira, 777 - Casarão da Ponta da Ilha, Bairro Jurujuba, Niterói, RJ CEP 24370-290 (Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião do Portal do Meio Ambiente).