Deputados
Arquivam Projeto de Instalação de Usinas no MS
Francelmo
Por HUDSON CORRÊA, da Agência Folha, em Campo Grande
A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul rejeitou e
arquivou no dia 30/11, por 17 votos a 4, o projeto do governador
José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, que
propunha a instalação de usinas de álcool no
entorno do Pantanal. Zeca do PT --que viajou nesta quarta a Brasília,
Rio e São Paulo-- foi informado à tarde da decisão
da Assembléia. A assessoria de imprensa do governador informou
que ele não comentaria o resultado.
O presidente da CCJR (Comissão de Constituição,
Justiça e Redação) da Assembléia, deputado
Onevan de Matos (PDT), disse que a morte do ambientalista Francisco
Anselmo Gomes de Barros, 65, o Franselmo, interferiu na decisão
da Assembléia.
No dia 13, Franselmo morreu 22 horas após atear fogo ao corpo
durante protesto no centro da cidade contra a instalação
de usinas de álcool.
"Eu acho que deve ter mexido com os sentimentos de alguns deputados
que não tinham posição definida. Antes, seria
uma votação um tanto quanto difícil, equilibrada",
afirmou Onevan, que votou contra o projeto.
"Eu perdi meu marido, mas ele deu a vida pelo meio ambiente,
então foi uma vitória, com certeza", disse a
viúva Iracema Sampaio, 67, que assistiu à votação.
Embora também tenha votado contra o projeto, o deputado Pedro
Teruel (PT) disse que "atitudes radicais que culminaram com
a trágica morte de Anselmo se sobrepuseram à discussão
técnica".
"Não foi nenhuma posição radical. Ele
se sentiu impotente para barrar isso aí [o projeto], porque
me disse três dias antes [de atear fogo ao corpo] que um terço
dos deputados estava a favor, um terço contra e um terço
indeciso. Aquele gesto dele foi para convencer os indecisos",
afirmou Sampaio.
Cerca de 200 pessoas, a maioria ambientalistas, incluindo um grupo
de ao menos dez favoráveis ao projeto, assistiram à
votação. Não houve tumulto, apenas uma vaia
durante discurso do deputado Sérgio Assis (PSB) favorável
ao projeto.
Projeto
Os deputados votaram durante a sessão o parecer da CCJR o
qual na semana passada, por 5 votos a 0, afirmara que o projeto
de Zeca do PT era inconstitucional e criava riscos de poluição
ao Pantanal com derramamento de vinhoto (resíduo da produção
de álcool) nos rios, levando à morte de peixes.
O governador argumentava que as usinas ficariam longe dos rios,
na área de planalto. Segundo ele, os empreendimentos trariam
desenvolvimento econômico a 28 municípios da região.
"Às vezes votamos a favor de projetos inconstitucionais
por decisão política. Nós estamos condenando
a região norte [onde seriam instaladas usinas] ao atraso.
Politicamente, esse parecer [da CCJR] pode ser derrubado",
apelou o deputado Loester Nunes (PDT).
Francelmo,
mais um Mártir Ambiental. Quantos Mais Serão Precisos
Para a Sociedade Acordar?
Editorial
Por
Vilmar S. Demamam Berna*
Ainda
continuo achando covardia quando o suicídio é uma
saída consciente da vida por não ter coragem de enfrentar
problemas que podem ser enfrentados ou é uma incapacidade
de pedir ajuda, de confiar no outro. Mas não consigo ver
como covarde o ato extremo de tirar a própria vida diante
de uma doença, como a depressão, onde a pessoa não
está plenamente consciente de suas decisões e às
vezes não vê saídas não por conta da
covardia, mas pela própria depressão que é
uma doença ainda negada em nossa sociedade. As pessoas não
têm vergonha de dizer que estão com dor física,
mas sentem vergonha de reclamar de depressão, que é
uma dor igualmente incapacitante, mas tratada, às vezes,
como 'sem vergonhice' ou vagabundagem. Muitas vezes pais, parentes,
cônjuges, colegas de trabalho só se dão conta
dos pedidos de socorro do suicida - todas as vezes em que tentou
chamar a atenção sobre si - quando é tarde
demais.
Também
não acho covardia o suicídio diante de uma doença
terminal irreversível, onde conscientemente se escolhe a
hora de partir, em vez de definhar agarrando-se a uma vida que às
vezes não merece mais a pena ser vivida. Quem disse que temos
de ser condenados à vida? Devem ser os mesmos que disseram
que estamos condenados à felicidade e que a individualidade
não é uma ilusão de nossa consciência.
E
finalmente, não considero covardia quando alguém se
sacrifica por uma causa que o ultrapassa e dá sentido à
sua vida e à sua morte, como a dos monges budistas que se
imolaram chamando a atenção do mundo para o absurdo
que se praticava na Guerra do Vietnã é que foi fundamental
para o fim daquele conflito. Ao contrário de serem covardes,
esses mártires foram extremamente corajosos e sobretudo altruístas,
colocando o interesse coletivo muito acima do individual. Francelmo
foi de uma coragem extrema e heróica e teve de ter muito
sangue frio e equilíbrio para concluir seu gesto. Sozinho,
em segredo, planejou tudo com antecedência e muito cuidado,
escolheu o melhor momento político para obter eficácia,
providenciou os recursos necessários, escreveu as 17 cartas,
uma delas aos seus colegas jornalistas.
É
importante compreender o que ele quis dizer com seu gesto por dois
motivos, para que este seja o único e não se repita
mais, e para que sua mensagem não caia no esquecimento:
“Meus
queridos pares,
Pioneiros
no Brasil na questão do meio ambiente, hoje somos passados
para trás por interesses de maus políticos, maus
empresários e PhD’s de aluguel. Em termos de Brasil,
estamos vendo o barco afundar e ninguém diz nada.
São
transgênicos entrando de contrabando pelo Sul, e o governo
apoiando. São queimadas da Amazônia, e o governo
impassível. Gente com terra do tamanho de um Estado, e
a gente sem terra. É transposição do rio
São Francisco, no lugar de revitalização.
No
Pantanal, querem fazer do rio Paraguai um canal de navegação
com portos para grandes embarcações e grandes comboios.
É pólo siderúrgico, é pólo
gás-químico. Agora, querem fazer usinas de álcool
na Bacia do Alto Paraguai. Um terço dos deputados estaduais
são a favor. Um terço contra. E um terço
sem saber o que é. Já que não temos votos
para salvar o Pantanal, vamos dar a vida para salvá-lo”.
O
que Francelmo denuncia é, em última instância,
a indiferença em nossa sociedade, onde " ninguém
diz nada" diante do desastre ambiental que já compromete
as presentes e futuras gerações, a indiferença
diante da traição dos "políticos, maus
empresários e PhD’s de aluguel".
Observem
que Francelmo não tenta chamar atenção para
si, ou diz que não tem jeito, que não há mais
tempo de salvar a natureza e que por isso mesmo ele prefere retirar-se
da vida, mas ao consumar seu ato e distribuir calculadamente suas
cartas, Francelmo mostra confiança de que esta guerra ainda
pode ser ganha, apesar de estarmos perdendo algumas batalhas para
a cobiça, o egoísmo, a visão estreita de alguns
e a indiferença da maioria.
Na
natureza, as formigas-soldado sacrificam-se pelo formigueiro e nem
por isso são extintas, por que as demais formigas cuidam
para que seus genes se perpetuem e continuem sempre existindo formigas-soldado
que irão dar a própria vida para proteger a vida de
todos. Francelmo não se sacrificou para que seu gesto caísse
no vazio da indiferença ou por que cansou de ver a natureza
agredida, mas por que tinha esperanças e confiava na capacidade
da sociedade em acordar a tempo, e sabia que seu gesto poderia ajudar
- como ajudou - aos seus colegas jornalistas, ambientalistas e tantos
outros, a avançar na luta ambiental e obter conquistas que
antes pareciam impossíveis. Francelmo ficaria feliz de saber
que seu gesto não foi inútil, e que pelo menos, uma
das questões de denunciava, a pretensão do governador
Zeca do PT de implantar usinas de álcool no Pantanal, já
não tem mais clima político favorável para
ser aprovado.
*Vilmar
Sidnei Demamam Berna é jornalista, ambientalista e escritor.
Fundou e edita desde janeiro de 1996 o Jornal do Meio Ambiente e
preside a ONG IBVA Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais.
Em 1999, foi homenageado pela ONU com o Prêmio Global 500
pelo Meio Ambiente. Contatos: vilmarberna@jornaldomeioambiente.com.br
NOTA
DO MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE
O
Ministério do Meio Ambiente lamenta a morte do ambientalista
Francisco Anselmo de Barros. Esclarece, também, que é
contra a implantação de agroindústrias de exploração
de cana-de-açúcar e seus derivados em áreas
limítrofes ao Pantanal sul-mato-grossense, proposto no Projeto
de Lei do Executivo do Mato Grosso do Sul, submetido à Assembléia
Legislativa do Estado. O ministério entende que a preservação
da planície pode não se concretizar, apesar dos limites
geográficos e físicos propostos pelo projeto de lei,
uma vez que existe a possibilidade de contaminação
dos rios que correm do planalto para o Pantanal.
Há
diversos testes científicos confirmando que o cultivo da
cana-de-açúcar provoca erosão e degradação
do solo, acarreta diminuição de microorganismos na
terra – principalmente quando a plantação é
queimada antes da colheita - e pode comprometer os recursos hídricos
com o despejo de produtos químicos, como pesticidas e vinhoto.
Além
disso, o Ministério do Meio Ambiente lembra que existe uma
resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama),
de 1985, determinando aos órgãos estaduais do Mato
Grosso e do Mato Grosso do Sul a suspensão de licenças
para implantação de novas destilarias de álcool
nas bacias hidrográficas do Pantanal mato-grossense, até
o Conselho se posicionar sobre o assunto.
O
Ministério do Meio Ambiente reafirmará essa posição
nas instâncias jurídicas e administrativas pertinentes,
uma vez que a definição constitucional do Pantanal
como Patrimônio Nacional impõe à União
atuar na defesa de sua preservação.
Marina
Silva - Ministra do Meio Ambiente
Os
Mártires da Ecologia
Francisco
Alves Mendes Filho (Chico Mendes) - 44 anos, assassinado assassinado
com um tiro de escopeta, quando estava no quintal de sua casa,
no dia 22 de dezembro de 1988. Seringueiro desde criança,
dedicou praticamente toda a sua vida à defesa dos trabalhadores
e povos da floresta.
Em
abril de 1993, em Vitória (ES) foi morto com quatro tiros
o biólogo e ambientalista Paulo Vinhas, que lutava contra
empresas que exploravam areia de forma desordenada na região
de Barra do Jucu, em Vila Velha (ES), no mesmo dia em que a
prefeitura flagrou os irmãos Queiroz retirando areia
da área embargada, depois de denúncia do ambientalista.
O empresário Aílton Barbosa Queiroz foi condenado
a 16 anos de prisão, em Guarapari (ES) pelo crime.
Seu Edu, foi espancado até a morte nas ruas de Itaipuaçu,
em Marica (RJ), em 1993, por que combatia o roubo de areia
nas praias da região. As denúncias feitas por
Seu Edu acusavam a formação de uma cratera pela
extração de areia da Praia de Itaipuaçu.
Apontava também diversos loteamentos irregulares em
áreas da Mata Atlântica. Até hoje sua
morte não foi esclarecida.
Þ
O sargento Amauri, do Batalhão de Polícia Florestal
e Meio Ambiente, foi assassinado em Itaperuna, em 1992, ao tentar
coibir a pesca predatória em uma fazenda da cidade.
Þ
Fernando, da ONG Univerde, de São Gonçalo, foi
apedrejado até a morte no Terminal Norte de Niterói,
em 1998. Ele denunciava invasões de manguezais na Baía
de Guanabara.
Álvaro
Marques (RJ) – 69 anos, assassinado em plena luz do dia,
no centro Angra dos Reis, no dia 23/01/1999. Era presidente
da SERENA – Sociedade Ecológica Para a Recuperação
da Natureza e na ocasião estava denunciando agressões
ao manguezal de Mambucaba.
Dionísio
Júlio Ribeiro (RJ) – Assassinado em 22/02/2005
em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, por vingança
de um caçador denunciado por ele. Era um defensor da
Reserva Biológica do Tinguá.
Dorothy
Stang – 73 anos, assassinada com sete tiros no dia 12/02/2005,
em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 quilômetros
da sede do município de Anapu, no Estado do Pará,
Brasil. A Irmã Dorothy lutava pela distribuição
eqüitativa da terra e pelo desenvolvimento sustentável.
Bispo
Luiz Flávio Cappio (Frei Luiz) - 59 anos, encerrou em
10/10/2005 uma greve de fome de 11 dias contra o projeto de
transposição do rio São Francisco, depois
que um enviado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
prometeu abrir novas discussões sobre o plano. "Eu
quero acreditar na sinceridade dele (Lula), que não é
mentiroso", disse o bispo que havia prometido manter seu
protesto até a morte, a menos que o governo cancelasse
o projeto de 4,5 bilhões de reais.
Francisco
Anselmo Gomes de Barros (Francelmo) – 65 anos, imolou-se
com fogo em 12/11/2005, em Campo Grande (MS), durante ato público
contra a instalação de usinas de álcool
na região do Pantanal. Era presidente da Fundação
para Conservação da Natureza de Mato Grosso do
Sul (Fuconams).
Os
Mártires da Ecologia
Por
Roberto Malvezzi, Gogó *
Primeiro
foi Chico Mendes. Tombou como tombaram suas seringueiras, pelas
mãos dos predadores, pela arma dos pistoleiros. Depois outro
ambientalista foi morto no Rio de Janeiro -por que não tenho
o nome dele aqui em minha frente como tenho a imagem de N. S. de
Guadalupe que alguém do México me deu?-, morto por
caçadores do parque. Em seguida veio Ir. Dorothy, quando
a força feminina irredutível pôs-se franca e
abertamente contra o desmatamento de sua região. Depois veio
Frei Luiz - que não morreu -, mas, estava disposto a imolar-se
pelo rio São Francisco e seu povo. Agora foi a vez de Anselmo,
pondo fogo em seu próprio corpo, num gesto derradeiro, queimando-se
como as queimadas da Amazônia.
Estamos
diante de fatos inéditos na história da humanidade.
Sempre tivemos mártires. Aqueles que deram suas vidas por
suas convicções religiosas, pela liberdade de seu
povo, ou mesmo ofereceram suas vidas para salvar a vida de outras
pessoas. Mas só agora temos pessoas expondo suas vidas para
salvar também a natureza, fundamento que sustenta toda a
comunidade da vida, não somente a do ser humano. Essas pessoas
já entenderam que a vida biológica é um todo,
onde uma vida depende da outra, mas onde também a vida depende
de elementos não vivos, como a água, o ar e os solos.
Essas pessoas transtornam a visão utilitarista, economicista,
reducionista da natureza e da pessoa humana. Aqueles que matam a
natureza são também aqueles que assassinam outras
pessoas humanas.
Os
mártires ambientais nos dizem abertamente que a história
da humanidade chegou a um impasse decisivo, isto é, temos
que rever todos os fundamentos da civilização humana
e readquirir um sentido para a história que não seja
regido exclusivamente pelos interesses econômicos imediatos.
Enfim, precisamos reinventar a história humana.
Essas
pessoas percebem ainda que todas as linguagens estão esgotadas:
a política representativa, a revolução armada,
a democracia representativa com suas estruturas de poder, as passeatas
efêmeras, as mobilizações que não tem
prosseguimento, os discursos evasivos, enfim, nos dizem que vivemos
sob a ditadura do econômico e que o econômico está
descolado do social, do político e do ambiental.
É
preciso reinventar a linguagem da luta popular. Em uma época
de transição, de fim de um determinado tipo de história,
de crise civilizatória, onde tudo está em cheque e
questionamento, a única linguagem que está restando
é expor a própria vida. Essas pessoas não retiram
a vida de outros, mas aceitam expor a sua própria.
Os
poderes já entenderam que tem um fato novo no cenário,
isto é, tem pessoas expondo suas vidas em favor de todas
as vidas. E têm muito medo....
*
Coordenador Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Francelmo
é meu herói. Pra quem, ainda, não sabe de quem
se trata, Francisco Anselmo (carinhosamente chamado de Francelmo
pelos amigos) é aquele homem que a mídia mostrou como
o ambientalista que ateou fogo sobre o próprio corpo em defesa
do Pantanal. Pois é: exatamente ele quem elegi para herói,
nestes tempos em que achar um espécime desta natureza é
praticamente impossível. Sei que isto vai chocar algumas
pessoas. Muitas delas, talvez a maioria, pensam justamente o contrário.
As opiniões são diversas: uns dizem que Francelmo
foi um louco; que cometeu um gesto insano, brutal; outros chegam
a dizer que o motivo não merecia tal sacrifício. Houve
até quem dissesse que ele não pensou em ninguém,
nem na família, nos amigos.
Tem
até quem pense que sua atitude foi fruto de algum desequilíbrio,
algo insano. Sinto desapontá-los, mas estão todos
enganados. Ou melhor, muito longe da realidade dos fatos. Mas não
me espanta que as pessoas prejulguem, com tanta facilidade atitudes
como a do amigo Francelmo. Afinal, pouca gente sabe que há
mais de 40 anos ele erguia sua bandeira ambientalista, fazia do
tema sua ideologia, sua vida. Conheci-o há mais ou menos
25 anos. Até então, o meio ambiente para mim era apenas
uma obviedade composta por árvores, água, calor, frio.
Não via nada de mais na questão. Foi ele a primeira
pessoa que me chamou a atenção para a fragilidade
do ecossistema. Escrevia artigos, publicava em sua revista, conversava
com as pessoas sobre o assunto, cuidava da natureza a sua volta
e não se descuidava do que estava distante. Em sua fala havia
paixão, mas nunca fanatismo, que isto fique bem claro. Francelmo
era um pacifista, discreto, ponderado, sem qualquer tipo de vaidade,
mas de opiniões firmes. Principalmente quando o assunto era
meio ambiente. Sua mulher, a brava e lutadora Iracema Sampaio, costumava
brincar dizendo que sua única rival era a natureza, tamanha
dedicação do marido à questão. Levamos
um susto, claro, quando soubemos que aquele homem simples, quieto,
equilibrado, havia silenciosamente montado todo um esquema de se
imolar, na tentativa derradeira de salvar o meio ambiente mais próximo,
o Pantanal. Muitos dos seus amigos, familiares, estão até
agora vivendo numa espécie de transe. Difícil aceitar
que alguém dê sua própria vida em prol de uma
causa. Mas pra mim, Francelmo fez muito mais que isto.
Seu
gesto desesperado tornou-lhe uma exceção em meio a
uma sociedade hedonista como a nossa. Quem, afinal, seria capaz
de gesto como este? Quem se lembra de alguém que tenha feito
tamanho sacrifício em prol da vida? Acho que não há
precedentes neste Brasil de interesses espúrios e mentiras
deslavadas. Neste país onde impera a opção
pelo lucro fácil e rápido, contas em paraísos
fiscais, poder a qualquer preço e o solene desprezo à
população, calada à custa de ações
populistas, de esmolas. Por isso as pessoas não acreditam
que o gesto de Francelmo foi pura e simplesmente um ato de extrema
coragem, sem qualquer conotação político-partidária,
mas sim humanitária.
Um
gesto de quem sabe muito bem a falta que a natureza faz. Mas como
querer que as pessoas entendam? Como pedir que elas não duvidem?
Ninguém acredita mais em heróis, em pessoas capazes
de se doar por outros. Depois disto, infelizmente só depois
disto, não podemos mais aceitar os argumentos de poderosos
e astutos que acostumaram amealhar fundos em detrimento de milhões
de pessoas. Não podemos mais viver em
paz diante do descaso, do escárnio da ignorância de
quem só sabe onde fica o próprio umbigo. Francelmo
não pensou em ninguém em particular quando ateou fogo
em seu próprio corpo. Ele pensou nas milhares de crianças
que não poderão respirar ar puro se continuarmos colocando
o falso progresso à frente da natureza. Porque nenhum emprego,
nenhum salário vai poder comprar de volta o ar puro, a água
potável, a saúde de milhares de pessoas. Nenhum progresso
vai compensar o desaparecimento deste santuário que é
o Pantanal que, aliás, pode ser a nossa única fonte
de divisas através do turismo. Numa época em que bandidos
ganham as primeiras páginas dos jornais e os vilões
se travestem de mocinhos, Francelmo é um verdadeiro, único
herói dos tempos modernos. Só lamento que os heróis
quase sempre morram durante a luta. Uma luta que está apenas
começando e que depende, mais do que nunca, de cada um de
nós. Que seu gesto nos dê, ao menos, um pouco de sua
coragem para olhar até o futuro. E que ele seja verde.
O Portal do Meio Ambiente é uma publicação da REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental, editada em parceria com a OSCIP Associação Ecológica Piratingaúna, e tem por missão democratizar a informação ambiental como forma de contribuir para formação e a mobilização da cidadania ambiental planetária. A REBIA não tem fins lucrativos e é feita por indivíduos e organizações parceiras que doam voluntariamente seus talentos, recursos e energias na certeza de que um mundo melhor é possível. Editado também de forma voluntária pelo escritor, jornalista e ambientalista VILMAR Sidnei Demamam BERNA, que em 1999 recebeu o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, recebeu o Prêmio Verde das Américas, entre outros. Contatos: vilmar@rebia.org.br / Telefax: (21) 2610-2272 Redação: Trav. Gonçalo Ferreira, 777 - Casarão da Ponta da Ilha, Bairro Jurujuba, Niterói, RJ CEP 24370-290 (Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião do Portal do Meio Ambiente).