Os
artigos, entrevistas e textos do Vilmar podem ser republicados desde
que citado a fonte www.portaldomeioambiente.org.br
e os seguintes créditos ao final dos textos:
Vilmar
Sidnei Demamam Berna é escritor com mais de 15 títulos
publicados. É jornalista e fundou a REBIA - Rede Brasileira
de Informação Ambiental e edita a Revista, e o Portal
do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br).
Fundou ainda as organizações ambientalistas sem fins
lucrativos Defensores da Terra e Univerde. Em 1.999, no Japão,
foi homenageado pelas Organizações das Nações
Unidas com o Prêmio Global 500 Para o Meio Ambiente.
1.
O Planeta Sobreviverá, a Questão É se Sobreviveremos
com Ele.
“Não
é a terra que é frágil. Nós é
que somos frágeis.
A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que
as que produzimos.
Nada do que fazemos destruirá a natureza.
Mas podemos facilmente nos destruir.”
- James Lovelok
Não resta a menor dúvida que nosso estilo de vida
sobre o Planeta é insustentável e está avançando
sobre os estoques naturais da Terra, comprometendo as gerações
atuais e futuras. De acordo com Relatório Planeta Vivo 2002,
elaborado pelo WWF, o ser humano usa 20% a mais do que a terra pode
repor.
Além
disso, é preciso considerar que este avanço sobre
os recursos do Planeta não se dá de maneira igual
para todos. Existe um enorme desequilíbrio entre África
e Ásia, que usam os recursos do Planeta em torno de 1,4 hectares
por pessoa, enquanto na Europa Ocidental este uso chega a 5,0 hectares
e a dos norte-americanos, a 9,6 hectares. Os brasileiros usam em
média 2,3 hectares.
O
grito de alerta já foi dado há algum tempo e, durante
a RIO 92, no Rio de Janeiro, quando estabeleceu-se uma espécie
de novo pacto social que passou a incluir com real seriedade a componente
ambiental. Dez anos depois, os governantes reuniram-se novamente
em Johannesburgo, na África do Sul, para avaliar o que foi
realmente realizado nos 10 anos e tentarem reverter algumas das
tendências negativas e colocar a humanidade no caminho do
desenvolvimento sustentável.
O
que está em discussão é um novo modelo de valores
e princípios que deverá nortear nossa ação
no mundo. A grosso modo existem duas grandes visões em confronto.
Uma visão economicista não solidária, que transforma
tudo em mercadoria, incluindo a força de trabalho e a inteligência
humana e todo o planeta junto, para o fortalecimento e enriquecimento
de um pequeno grupo de nações e grandes empresas.
Esta é a visão dominante, que nos trouxe até
aqui. E outra visão, de uma economia solidária não
só com as pessoas, exigindo melhor justiça social
e distribuição de riquezas, mas também mais
respeito ao Planeta e todas as suas formas de vida.
Entretanto,
não devemos apostar muito no triunfo de uma visão
contra a outra, pois os privilegiados de sempre tenderão
a fazer como os monarcas do passado: liberar alguns anéis
para não perder os dedos. E isso já começou
se observamos os discursos dos poderosos que incluem sempre que
podem a necessidade de combate à pobreza e a preservação
ambiental. Não deixa de ser irônico ver os representantes
das superpotências defendendo o fim da pobreza quando são
eles os representantes de uma situação de exploração
dos estados-nações em desenvolvimento, via juros impagáveis
de dívidas externas e apoio a administrações
corruptas que contraem tais dívidas para o enriquecimento
de uma minoria, além de darem abrigo a mega empresas multinacionais,
que se colocam acima das nações, das pessoas e do
meio ambiente em suas metas de lucros crescentes.
Soa
falso, diante de exemplos como o dos EUA que sozinho gasta cerca
de 1 bilhão de dólares por dia em armamentos ou quando
se recusam a assinar o Protocolo de Kyoto para não reduzir
seus enormes índices de poluição para todo
o Planeta, mostrando ao mundo que coloca seus interesses econômicos
acima dos interesses coletivos de toda a Humanidade.
Quando
pensamos em mudanças, precisamos enfrentar um fato objetivo:
de onde vem o poder dos poderosos? Da força das armas e de
seus exércitos? Claro que não. Vem do povo. É
o povo quem dá força aos poderosos. É o povo
quem elege e deselege políticos e é quem compra ou
deixa de comprar produtos e serviços que criam ou destróem
as mega empresas. Só que o povo não tem a consciência
dessa sua força, como um enorme elefante que permanece prisioneiro
numa corrente que agora é fraquinha, mas não era quando
ele era pequeno e tentava se libertar.
Será
que o povo deseja mesmo uma economia solidária, como se fôssemos
uma enorme colméia de abelhas onde cada um faz a sua parte
para o bem de todos, ou no fundo no fundo, que vença o melhor
e o mais forte? O que está em discussão, é
o grau de civilidade que a Humanidade como um todo está disposta
a adotar. Precisamos nos olhar diante do espelho para saber se nossas
palavras, pensamentos, valores, desejos, não contradizem
nossos atos. Como agimos no nosso dia a dia? Quais são os
valores e princípios que nos movem em nosso cotidiano? O
que sonhamos para os nossos filhos no futuro e que futuro é
esse que estamos construindo para nossos filhos e netos? Enfim,
qual é a nossa idéia de felicidade, para nós
e para os que dependem de nossos atos aqui e agora para ter qualidade
de vida no futuro?
Galileu
provou que a Terra não era o centro do Universo – e
sofreu por pensar diferente. A ecologia veio mostrar que nossa espécie
não é a mais importante da Criação,
pois dependemos tanto da natureza quanto a mais comum das bactérias.
Tão simples assim. Sem planeta, não há espécie
humana, justiça social, riqueza, democracia.
Nossa
rota sobre o planeta será insustentável, enquanto
nossa idéia de felicidade for baseada na posse de bens materiais
e na acumulação de riquezas, enquanto ter for mais
importante que ser. Então, se pretendemos que os poderosos
do mundo mudem, precisamos também saber se estamos mudando
a nós próprios, para não continuarmos a criar
poderosos com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade.
2. Desenvolvimento Insustentável
É
natural que aqueles que defendem o meio ambiente fiquem satisfeitos
ao verem dirigentes de países desenvolvidos, ditos de ‘primeiro’
mundo, levantarem a bandeira ambiental. É como se víssemos
reconhecidas nossas lutas. Mas é preciso ver o que há
por trás dessa ‘conversão’ à causa
ambiental. Claro, que uma parte disso é devido à pressão
da opinião pública, cada vez mais consciente dos problemas
ambientais, mas não é só isso. É muito
conveniente para as lideranças dos países do ‘primeiro’
mundo exigirem dos países de ‘segundo’ e ‘
terceiro’ mundo que cuidem do meio ambiente. E é conveniente
por diversos motivos. Passam a imagem de que estão avançados
no cuidado ambiental enquanto aumentam seus lucros com a exportação
de produtos para despoluição, controle e monitoramento
ambiental, usam a questão ambiental como barreira comercial
para sobretaxar produtos industrializados do ‘segundo’
e ‘terceiro’ mundo e, ainda lucram ao desviar a atenção
da humanidade da base principal do problema: um modelo de desenvolvimento
‘vendido’ como o único possível, baseado
na exploração ilimitada de recursos naturais e na
super-exploração da mão de obra humana.
O
próprio conceito de países de primeiro, segundo e
terceiro mundo já revela uma falsa ideologia, quando sugere
uma corrida pelo desenvolvimento, onde os melhores chegaram primeiro
e cabe aos demais seguir os mesmos passos. Essa visão é
irreal pois pressupõe que o planeta e a ciência serão
capazes de fornecer matérias primas, absorver resíduos
e encontrar soluções para os problemas do crescimento
indefinidamente. Esconde o fato de que, na hipótese de todos
alcançarem um mesmo padrão de consumo dos países
chamados de ‘primeiro’ mundo serão precisos diversos
planetas Terra de recursos naturais.
As
conseqüências dessa ‘corrida’ por um tipo
de progresso insustentável não vai acabar com o planeta
no futuro. Já está fazendo isso no presente. Um exemplo
disso está na maciça extinção de espécies
e ecossistema, efeito estufa, ‘buraco’ na camada de
ozônio, mortes prematuras nas cidades devido às poluições
do ar, água, solo, etc. O planeta está acabando em
cada um desses lugares, onde este tipo de progresso deixa desertos
atrás de si e muita miséria, fome e mortes prematuras.
Aos
países pobres ou em desenvolvimento não são
oferecidas alternativas de desenvolvimento, muito pelo contrário.
A atual corrida só legitima um processo que já os
exclui pela impossibilidade de haver recursos naturais para todos
no futuro, enquanto acena com uma promessa que não pode ser
realizada.
Concentrar
o discurso na crise ambiental é uma boa estratégia
para países do primeiro mundo, grandes beneficiários
e divulgadores do atual modelo predatório de desenvolvimento.
É como se o discurso ambiental fosse uma espécie de
cortina de fumaça para despistar a atenção
da opinião pública para a insustentabilidade do modelo,
evitando serem acusados como vilões da humanidade.
Neste
cenário, está claro que os líderes, do chamado
‘primeiro’ mundo, não são os melhores
porta-vozes de um novo modelo de desenvolvimento, que leve em conta
não só os problemas ambientais mais também
os sócio-econômicos. Neste aspecto, o papel das lideranças
governamentais e não-governamentais em países pobres
e em desenvolvimento assume uma dimensão desafiadora, para
que não se repitam os erros cometidos até aqui.
3.
Crescimento com Limites
A
visão ecológica é relativamente nova. Há
pouco menos de três décadas poluição
era sinônimo de progresso. Hoje, a opinião pública
está mais consciente e crítica. Continua querendo
progresso e crescimento, mas já não aceita a falta
de responsabilidade ambiental, a poluição, a destruição
e desperdício de recursos naturais. Um dos problemas é
definir quais os limites do crescimento. Até onde uma comunidade
pode usar os recursos naturais e a biodiversidade sem comprometer
a sua própria qualidade de vida ou a de seus filhos e netos?
Não
há respostas prontas. Percebemos que os limites devem ser
colocados caso a caso, em função das características
de cada lugar. Isso pressupõe embate de idéias, possível
apenas num ambiente democrático, principalmente com uma imprensa
livre. Nossa geração tem um papel muito importante
na história da humanidade. É a geração
da transição entre duas visões distintas de
mundo. Não temos todas as respostas, muito menos a solução
de todos os problemas, mas já somos capazes de dizer não
ao progresso sem limites e dizer sim ao progresso com responsabilidade
ambiental, ainda que, às vezes, não saibamos direito
que caminhos são os melhores para nos levar a esse novo desafio.
Apesar
das diferentes visões de mundo, sempre acreditamos na possibilidade
do diálogo, pois, no fundo, parece haver um objetivo comum:
viver num mundo melhor, mais preservado, com maior qualidade de
vida para todos. Mas não podemos ser ingênuos a ponto
de acreditar que, só por que seria o melhor para todos, o
sentimento do bem comum é que move os povos e os indivíduos.
Pode até ser que a nível da promessa, do discurso,
das intenções isso ocorra, mas nem sempre se concretizam
em gestos. É preciso estar atento a discursos mentirosos
e falsos que usam a linguagem da responsabilidade social e ambiental
como biombo para esconder as verdadeiras intenções
de lucros crescentes e a qualquer custo.
4.
Gente Demais ou Crescimento Injusto?
Ricos e pobres devem fazer a sua parte a fim de evitar o esgotamento
do planeta. Não basta só exigir dos pobres controle
populacional e maior responsabilidade na ocupação
de novas áreas ambientais. É preciso exigir também
dos ricos melhor distribuição de renda e um modelo
de desenvolvimento menos predatório. O problema é
que são os ricos quem fazem as regras, sustentam os organismos
financeiros internacionais, dominam os grandes meios de comunicação
mundiais.
Não
que o problema do crescimento populacional mundial não seja
grave. Em 1.990, 51,5% da população mundial tinha
menos de 25 anos, segundo a ONU. Ou seja, somos um planeta com 2,7
bilhões de jovens, todos querendo emprego, melhor qualidade
de vida e, naturalmente, filhos. Até quando o planeta conseguirá
suportar a demanda? O problema não está só
na quantidade de indivíduos, mas na forma como esses indivíduos
vêm tratando o planeta. Por exemplo, uma única pessoa
vivendo em 20 mil hectares no meio da floresta amazônica,
ou no Pantanal, pode causar mais danos com uso do fogo e motoserra,
que 2.000 pessoas com consciência ambiental num edifício
no centro de São Paulo.
Ainda,
segundo a ONU, existem no planeta cerca de 1,1 bilhão de
pessoas vivendo em absoluta pobreza, 1 bilhão de analfabetos
e cerca de 13,5 milhões de crianças com menos de cinco
anos que morrem de fome a cada ano. Dados como esses levaram a Conferência
Mundial Sobre População e Desenvolvimento, realizada
em setembro de 1994, no Cairo, Egito, a definir um programa para
o controle da população mundial nos próximos
20 anos, como se o maior perigo para o planeta fosse a explosão
demográfica nos países pobres. Mas e os países
ricos? Quando serão obrigados a rever seu modelo predatório
e socialmente injusto de desenvolvimento, baseado em lucros crescentes,
que coloca um fardo ecológico excessivo sobre países
pobres e em desenvolvimento, reduzidos à condição
de meros exportadores de matérias primas e em lixeira do
‘primeiro mundo’ desenvolvido?
5.
Sustentável sim, mas para quem?
"Algumas
pessoas podem rir de mim porque eu tentei
e não consegui, mas com certeza eu rirei muito mais
porque elas nunca tentaram" - Darcy Ribeiro
O
planeta não é um enorme armazém de recursos
infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente
os nossos restos, por outro. O atual modelo de desenvolvimento tem
usado o planeta além de sua capacidade de suporte, e o colapso
dos sistemas vivos e os seus sinais já são visíveis
por todo o lado, como o aquecimento global, a perda maciça
de florestas e biodiversidade, etc. Como um lado diferente da mesma
moeda, milhões de nossos semelhantes estão condenados
a uma vida de sofrimento, fome e miséria. O que se percebe
é que a mesma lógica que superexplora o planeta produz
também a miséria e a fome. Não basta defender
um desenvolvimento ambientalmente sustentável sem perguntar:
sustentável para quem? Para os ricos? É fundamental
que além de ambientalmente sustentável, esse novo
modelo de desenvolvimento seja também justo na distribuição
da renda e qualidade de vida para todos.
Por
trás deste modelo insustentável não está
a falta de informação ou de conhecimento científico,
muito menos a exigência de atender as necessidades básicas
da humanidade. Só o que se gasta em armamentos hoje no mundo
seria mais do que suficiente para dar casa, comida e uma vida digna
a todo ser humano neste planeta. Por trás dessa forma de
vida existem valores egoístas, materialistas, mesquinhos
onde o que importa é acumular mais e mais poder e lucros
crescentes. E pouco adiantará exibir números sobre
os impactos negativos e as conseqüências dessa ação
humana sobre o planeta, pois, ao contrário de estimular uma
revisão de valores, só servirá para tornar
os materialistas e egoístas ainda mais afoitos em sua corrida
por acumular mais bens e poder antes que os recursos que restam
se esgotem ou o meio ambiente se contamine demais. Para esse tipo
de gente o mundo se divide entre vencedores por um lado e perdedores
por outro, uma espécie de seleção natural da
espécie, onde vencem os mais aptos. É mais ou menos
como aquele sujeito que, ao ser informado sobre a necessidade de
economizar água pois ela pode acabar, trata logo de beber
e estocar o máximo que puder antes dos outros.
Seria
muito cômodo acreditar que só os donos do poder econômico
e político são egoístas, materialistas e hipócritas.
Na verdade, cada um de nós que coloca sua idéia de
felicidade, sucesso, prestígio ou reconhecimento social no
acúmulo de bens e dinheiro reforça esse modelo. Quantas
vezes ouvimos pessoas medindo o sucesso e a felicidade de alguém
pelo novo carro ou iate, a viagem ao exterior, a construção
de uma piscina, o tamanho dos lucros num determinado período,
a operação plástica, etc.
Basta
passarmos alguns minutos diante da televisão para ver defeitos
humanos que deveríamos estar nos esforçando para combater,
como inveja, orgulho, cobiça, avareza, luxúria, gula,
preguiça, serem elevados à estatura de virtudes a
serem alcançadas. Estas são as bases de uma sociedade
materialista, consumista e individualista que gera esgotamento dos
recursos naturais e poluição do planeta, por um lado,
e injustiça social e concentração de renda,
por outro.
Por trás de nossos problemas ambientais, não estão
apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos
órgãos públicos de controle ambiental, ou a
falta de consciência ambiental, mas também um tipo
de atitudes e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente
e ao nossos semelhantes só para acumular lucros crescentes,
só se importante a nível do discurso com as agressões
ambientais e problemas sociais que gera. Logo, não basta
exigir mudança de comportamento de empresas e governos. Precisamos
ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois não
haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades
de quem acha que a felicidade e o sucesso está na posse de
cada vez mais bens materiais.
Também
reforçamos esse modelo insustentável quando aprovamos
a idéia de que o mercado será capaz de prover o bem
estar e a qualidade de vida para todos e, conseqüentemente,
o ideal é um tipo de governo mínimo, que interfira
o mínimo possível e, melhor ainda, que esteja ao lado
do mercado auxiliando no seu avanço sobre o que é
de todos, transformando a água, a biodiversidade, os genes
de nosso próprio corpo e dos alimentos, em mercadorias.
Para
a grande maioria dos pobres e miseráveis que sonharam com
o mundo de maravilhas e riquezas prometidas pelos donos do poder
e do dinheiro nos países chamados desenvolvidos é
muito duro descobrir que o sonho é só um sonho, que
jamais será realidade, pois seriam precisos uns três
Planetas Terra de recursos.
Como
última esperança precisamos confiar no forte instinto
de sobrevivência de nossa espécie. Antes, só
quem sofria eram os que não tinham acesso ao poder e à
riqueza. Agora, com a destruição crescente dos sistemas
vitais a nível global, os poderosos também começam
a ver ameaçados as suas conquistas. Afinal, de que adiantará
acumular um tesouro em bens e dinheiro, mas não ter um ar
ou uma água limpa para respirar. Cada vez mais as pessoas
estão percebendo que, ao contrário do planeta parecer
uma laranja que podemos jogar o bagaço fora depois de chupada,
o planeta é um barco, onde uns poucos privilegiados podem
estar viajando na primeira classe, mas estamos todos juntos no mesmo
destino.
Tem
gente que acha mais fácil ficar reclamando que ninguém
ajuda, mas não se pergunta se está fazendo a sua parte
em defesa do Planeta. Para conseguir convencer os outros a modificarem
seus hábitos, precisamos modificar os nossos primeiro. Se
queremos um planeta preservado, de verdade, não basta apenas
lutar contra poluidores e depredadores. É preciso também
nos esforçarmos para mudar nossos valores consumistas, hábitos
e comportamentos que provocam poluição, atitudes predatórias
com os animais, as plantas e o meio ambiente.
Mas
só isso não basta, pois não há coerência
em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina,
odeia seus semelhantes. Por isso, precisamos, além de agirmos
corretamente com o meio ambiente, nos esforçarmos para sermos
mais fraternos, democráticos, justos e pacíficos com
os nossos semelhantes.
Confúcio
disse, há mais de 5 mil anos, que se alguém quisesse
mudar o mundo, teria de começar por si próprio, pois
mudando a si próprio, sua casa mudaria. Mudando sua casa,
a rua mudaria. Mudando a rua, o bairro mudaria. Mudando o bairro,
mudaria o município e assim por diante, até mudar
o mundo.
O
atual modelo predatório e injusto sobreviverá enquanto
nossa idéia de felicidade for baseada na posse de bens materiais
e na acumulação de riquezas, enquanto ter for mais
importante que ser. Então, se pretendemos que os poderosos
do mundo mudem, precisamos também saber se estamos mudando
a nós próprios, para não continuarmos a criar
poderosos com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade.
6. A Percepção da Ecologia
Não
basta termos clareza do que precisa ser mudado a fim de conseguirmos
uma relação mais harmônica da espécie
humana com as outras espécies e o próprio planeta.
É preciso sensibilizar e mobilizar a sociedade em direção
a esse mundo melhor, por isso, aqueles que se comunicam com o público
precisam falar uma linguagem que seja percebida por todos.
Muitas vezes, de tão conscientes da importância da
mensagem que pretendem transmitir, os multiplicadores de opinião
não se dão conta que suas palavras, apesar da atenção
da platéia, não estão sendo compreendidas como
imaginam. Para a maioria, meio ambiente é cuidar das plantas
e dos bichos, como se a espécie humana não fizesse
parte do planeta, assim, as pessoas nem sempre percebem as questões
ambientais como o outro lado da questão social, não
se dão conta que as mesmas forças e mecanismos que
superexploram o meio ambiente são também as mesmas
forças e mecanismos que superexploram o ser humano e produzem
a concentração de renda, a miséria, a fome,
as guerras.
Por outro lado, a população, por mais carente que
seja, possui consciência ecológica, só que essa
percepção é bastante romântica, associando-se
mais à proteção das plantas e dos animais e
menos à qualidade de vida da espécie humana, como
se não fizéssemos parte da natureza. Para a maioria,
lutar pelo fim das valas de esgotos e condições insalubres
de trabalho nas fábricas não é fazer luta ecológica.
Os ecologistas, educadores ambientais, jornalistas especializados
em meio ambiente, políticos e administradores públicos
e privados precisam ganhar as ruas, conquistar o povo, mas antes
devem rever sua linguagem e seus conceitos. Se queremos a compreensão
e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos,
devemos adaptar o ecologês às carências da nossa
sociedade, partindo dos temas que a sociedade já domina e
conhece para os que precisa conhecer a fim de construir uma melhor
relação, mais harmônica, menos poluidora com
seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta.
Educação
Ambiental
1.
Educação Ambiental e Cidadania Ativa
As árvores não são derrubadas, a fauna sacrificada
ou o meio ambiente poluído porque nossa espécie desconhece
os impactos dessas ações sobre a natureza. A destruição
da natureza não resulta da forma como nossa espécie
se relaciona com essa natureza, mas da maneira como se relaciona
consigo mesma. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar
recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está
reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura
de seu povo, portanto, este não é um ato isolado de
um ou outro indivíduo, mas reflete as relações
sociais e tecnológicas de sua sociedade. Seres humanos explorados,
injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos
compreendem com dificuldade que é anti-ético fazer
o mesmo com animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos.
A atual relação de nossa espécie com a natureza
é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento
das relações humanas entre nós próprios.
Vivemos sendo explorados, achamos justo e legítimo explorar.
É
ilusão pretender que a educação ambiental sozinha
será capaz de enfrentar estes enormes desafios. A população
tem uma visão romântica da ecologia, associando-a mais
em defesa do verde e, por extensão, das árvores e
animais. Nessa visão, o ser humano não faz parte da
natureza, por isso pode fazer com ela o que quiser. Por mais que
julgue as questões ecológicas importantes, a maioria
da população as considera secundárias, pois
o mais importante é lutar por moradia, alimento, emprego,
escola, bons salários etc. As questões ambientais
são importantes também, mas inoportunas e secundárias
diante dessas outras prioridades.
Sabemos
no entanto, que sem um meio ambiente preservado não há
qualidade de vida, que os ambientes natural e humano deveriam viver
em harmonia. Na verdade, as lutas por melhores condições
de vida travadas por sindicatos, associações de moradores
e outras entidades da sociedade civil, por exemplo, tem uma enorme
relação direta com o meio ambiente.
Só
democratizar a informação ambiental não é
suficiente sem uma articulação com a educação
ambiental, afinal, não é pelo maior ou menor volume
de informações que a população aprende
a pensar criticamente e atuar em seu mundo pra transformá-lo,
se não tiver uma cultura e uma formação que
predisponha as pessoas a valorizar esta informação.
Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco tornando-se insensíveis
diante da informação, como se fosse mais uma espécie
de poluição onde as palavras perdem o significado
e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore
ou uma floresta. A educação, por sua vez, não
se dá ao vácuo, mas inserida em seu tempo e no contexto.
Deve, portanto, saber aproveitar dos meios de comunicação
seu compromisso com o contemporâneo, trazendo a realidade
vivida para o processo educativo, crítico e participativo,
adequado à realidade dos alunos.
Por
outro lado, não há educação ambiental
sem participação política. Não basta
estimular a participação dos cidadãos e não
garantir os instrumentos de acesso à informação,
primeiramente, pois sem ela dificilmente o cidadão consegue
se mobilizar, e garantir canais de participação, com
comitês e conselhos paritários, e, finalmente, instrumentos
que permitam aos cidadãos participarem do estabelecimento
das regras do jogo. A educação ambiental é
fundamentalmente uma pedagogia de ação. Não
bata se tornar mais consciente dos problemas ambientais, sem se
tornar também mais ativo, crítico e participativo.
O comportamento dos cidadãos em relação ao
seu meio ambiente, é indissociável do exercício
da cidadania.
2.
A Mudança Começa em Nós
Todos
nós desejamos viver num mundo melhor, mais pacífico,
fraterno e ecológico. O problema é que as pessoas
sempre esperam que esse mundo melhor comece no outro. É comum
ouvirmos pessoas falando que têm boa vontade para ajudar,
mas como ninguém as convida para nada, nem se organizam,
então não podem contribuir como gostariam para um
mutirão de limpeza da rua, por exemplo, ou para plantio de
árvores. Pessoas assim acabam achando mais fácil reclamar
que ninguém faz nada, ou que a culpa é do “Sistema”,
dos governantes ou empresas, mas não se perguntam se estão
fazendo a parte que lhes cabe.
Por
outro lado, é importante não ficar esperando a perfeição
individual - pois isso é inatingível. O fato de adquirirmos
consciência ambiental, não nos faz perfeitos. O importante
é que tenhamos o compromisso de ser melhor todo dia, procurando
sempre nos superarmos. Também não podemos cometer
o erro de subordinar a luta em defesa da natureza às mudanças
nas estruturas injustas de nossa sociedade, pois devem ser lutas
interligadas e simultâneas, já que de nada adianta
alcançarmos toda a riqueza do mundo, ou toda a justiça
social que sonhamos, se o planeta tornar-se incapaz de sustentar
a vida humana com qualidade.
As
questões ambientais estão inter-relacionadas também
à questão da identidade cultural de uma comunidade.
Ao migrar das cidades do interior para os grandes centros urbanos,
além de todos os problemas que acarretam com o crescimento
das cidades, as pessoas perdem muito de sua identidade cultural,
sua memória. Se no interior, apesar das dificuldades, as
pessoas tinham nome e sobrenome, eram conhecidas, nas cidades estão
isoladas, como se fosse num mar enorme, de gente por todos os lados,
mas gente desconhecida.
Sem
identidade cultural, importa muito pouco saber que o patrimônio
da coletividade, seja ambiental, seja arquitetônico, histórico,
cultural, a própria rua, a praça, está sendo
ameaçado ou destruído. À medida que essa gente
não se sente dona desses espaços coletivos - que são
considerados como terra de ninguém ou como pertencentes aos
governos dos quais não gostam - também não
se mobilizam em sua defesa. Assim, não há nenhuma
sensação de perda diante de uma floresta que deixa
de existir ou de um lago ou manguezal aterrado, pois a população
residente, em sua maior parte, por não ter identidade cultural
com o lugar em que vive, também não se sente parte
dele. Esse fenômeno acontece, hoje, principalmente nas periferias
das grandes cidades brasileiras, onde se concentram milhares de
trabalhadores que usam as cidades apenas para dormir constituindo-se
em mão-de-obra pendular casa-trabalho/trabalho-casa das grandes
cidades. Existe uma grande população, mas não
um grande povo.
Um
educador ambiental, por exemplo, precisa ter clara compreensão
dessa realidade, procurando também associar-se às
lutas populares pelo resgate cultural e desenvolvendo técnicas,
como a memória viva, para iniciar uma formação
de identidade cultural dos educandos com o lugar em que vivem.
Nesse
ponto retorna a questão fundamental da linguagem. É
preciso partir da percepção dos educandos sobre o
que são as questões ambientais, e não da dos
educadores, para que os alunos assumam como suas as melhorias ambientais
e a defesa de seu patrimônio ambiental, e não uma imposição
dos governos ou da escola. Nesse sentido, o professor não
deve pretender ser um condutor de novos conhecimentos, pois não
se trata apenas de estimular o aluno a dominar maior número
de informações, mas assumir o papel de estimulador,
motivador, instrumento, apoio, levando os alunos a elaborarem seu
próprio conhecimento sobre o que seja meio ambiente e o aluno
pode fazer para evitar as agressões.
A
educação ambiental, à medida que se assume
como educação mais política do que técnica,
assume também o processo de formadora da identidade política
e cultural de um povo. Nesse sentido, alinha-se a todas as lutas
e movimentos da sociedade pela cidadania.
O
educador ambiental deve procurar colocar os alunos em situações
que sejam formadoras, como por exemplo, diante de uma agressão
ambiental ou de um bom exemplo de preservação ou conservação
ambiental, apresentando os meios de compreensão do meio ambiente.
Em termos ambientais isso não constitui dificuldades, uma
vez que o meio ambiente está em toda a nossa volta. Dissociada
dessa realidade, a educação ambiental não teria
razão de ser. Entretanto, mais importante que dominar informações
sobre um rio ou ecossistema da região é usar o meio
ambiente local como motivador, para que o aluno seja levado a compreender
conceitos como, por exemplo:
•
Visão física: Nada vive isolado na natureza. Assim
como influenciamos no meio, somos influenciados por ele. Um ser
depende do outro para sobreviver. Não existem seres mais
ou menos importantes para o conjunto da vida no planeta. A única
coisa importante é a rede de relações que todos
os seres vivos mantém entre si e com o meio em que vivem.
Rompida esta "teia", ou diminuída em sua capacidade,
a vida corre perigo.
•
Visão cultural: O meio ambiente não é constituído
apenas pelo mundo natural, onde vivem as plantas e os animais, mas
também pelo mundo construído pelo ser humano, suas
cidades, as zonas rurais e urbanas. Estes dois mundos relacionam-se
e influenciam-se reciprocamente. Somos resultado dessas duas evoluções,
a natural e a cultural.
•
Visão político-econômica: O poder não
está distribuído de maneira igual por toda a humanidade,
sendo diferente, portanto, a distribuição das responsabilidades
de cada um pela destruição do planeta e pela construção
de um mundo melhor. Cada cidadão pode e deve fazer a sua
parte, mas os empresários, políticos, administradores
públicos, etc., têm uma responsabilidade muito maior.
Atrás de cada agressão à natureza estão
interesses sócio-econômicos e culturais de nossa espécie,
que usa o planeta como se fosse uma fonte inesgotável de
recursos. As relações entre a espécie humana
e a natureza estão em desequilíbrio por que refletem
a injustiça e desarmonia das relações entre
os indivíduos de nossa própria espécie.
•
Visão ética: A mudança para uma relação
mais harmônica e menos predatória e poluidora com o
planeta e as outras espécies depende de todos, mas especialmente
começa em cada um de nós, individualmente, através
de dois movimentos distintos: um para dentro de nós mesmos
e de nossa família, com adoção de novos hábitos,
comportamentos, atitudes e valores; e outro para a sociedade em
torno de nós, buscando a união com outros cidadãos
para influir em políticas públicas e empresariais
que levem em conta o planeta, a qualidade de vida, a justiça
social.
Logo,
por mais que o ensino para o meio ambiente mude de lugar para lugar,
em função das diferentes realidades, alguns princípios
estão presentes praticamente em todas as situação,
tais como:
•
Defina palavras e conceitos - Defender a natureza, a flora e a floresta,
o meio ambiente, a ecologia. Preservar os ecossistemas e os habitats,
combater a depredação dos recursos naturais, a poluição
de mananciais e do lençol freático. São palavras
e conceitos que se tornaram comuns hoje em dia, mas afinal, do que
se trata? É preciso definir o que se está falando,
tomando o cuidado de não cair num tecnicismo que distancie
o aluno da ação transformadora que ele precisa empreender
como cidadão de seu tempo.
•
Mostre a importância - Por mais sério que seja, ninguém
consegue ter a sensação de importância por uma
coisa abstrata, fora de sua realidade. Antes de se importar com
a sobrevivência das outras espécies, o aluno precisa
estar consciente de sua própria importância, sua capacidade
de interferir no meio ambiente e de agir como cidadão. Afinal,
como respeitar espécies consideradas inferiores se o aluno
percebe que não há respeito entre os indivíduos
de sua própria espécie?
•
Estimule a reflexão - A cada ação deve corresponder
uma reflexão, pois não é possível pretender
transformar o mundo ou criar uma relação mais harmônica
com a natureza ou os outros indivíduos de nossa própria
espécie baseando-se apenas no academicismo, onde se acumula
um volume imenso de conhecimentos e informações sem
que isso reverta em melhoria das condições de vida;
ou no tarefismo, onde se procura transformar o mundo pela ação
direta, como se nosso esforço fosse o suficiente para contagiar
a todos. O equilíbrio entre as duas forças deve ser
o objetivo de uma boa educação para o meio ambiente.
•
Estimule a participação - Uma vez que o aluno já
domina um mínimo de conhecimentos sobre palavras e conceitos
e está consciente sobre a importância de seu papel
como agente transformador o próximo passo é a participação.
É no enfrentamento dos problemas de seu cotidiano que o aluno
se formará como cidadão. Além disso, o jovem
não precisa chegar à maioridade ou ter um diploma
técnico para só então defender seus direitos
a um meio ambiente preservado, pois cada omissão equivale
à destruição de mais e mais recursos naturais,
de mais e mais poluição. A mudança deve começar
já, inicialmente através de novas atitudes e comportamentos,
mas logo a seguir procurando engajar-se nas ações
da sociedade em defesa do meio ambiente e da qualidade de vida.
Para estimular os alunos, uma boa técnica é estabelecer
parceiras com os grupos ecológicos comunitários do
lugar, convidando-os para se integrarem ao trabalho na escola.
•
Interesse-se a descobrir coisas novas - Um diploma de conclusão
de curso não significa o domínio total de um conhecimento.
A gente continua aprendendo sempre. Interesse seus alunos pelos
estudos da natureza, lendo com eles notícias recentes de
jornais e revistas, comentando a última programação
sobre ecologia na televisão. Estimule cantinhos da natureza
na sala de aula, museus naturais, álbum de recortes, leituras
coletivas de materiais etc.
•
Faça junto com eles - O exemplo vale mais do que mil palavras.
Os alunos são bastante impressionáveis diante da figura
do professor. Ver o professor falar, falar, mas não agir
conforme o que fala é desestimulante para os alunos e, ao
mesmo tempo, um apelo ao não-agir, considerar o ensino para
o meio ambiente como mais uma disciplina aborrecida que deve ser
estudada apenas para tirar uma boa nota. Aproveite a oportunidade
e engaje-se com seus alunos na tarefa de se construir as novas relações
com o planeta, afinal, essa é uma tarefa de cidadania, muito
mais que um compromisso de trabalho.
•
Saia da sala de aula - O meio ambiente da sala de aula não
é o mais adequado para ensinar sobre o mundo que está
lá fora. Sair da sala de aula, entretanto, traz inúmeros
problemas quando se dispõe de apenas 45 minutos para uma
aula. Uma das soluções pode ser mutirão pedagógico
com colegas de outras disciplinas, o que reforça o caráter
interdiciplinar do ensino para o meio ambiente. Outra possibilidade
é sugerir aos pais dos alunos que façam incursões
em finais de semanas ou feriados para realizar estudos do meio ou
investigar e fotografar um problema ambiental, levando no carro
dois, três ou mais coleguinhas dos filhos. E isso nem é
uma proposta absurda, já que muitos pais ajudam os filhos
nos trabalhos escolares, e não deixa de ser um passeio interessante,
além de promover a integração entre pais e
alunos, escolas e comunidade.
3.
A educação ambiental é também uma educação
para a paz
Não
cabe, em educação ambiental, um ensino do tipo mero
transmissor de conhecimentos pois os problemas ambientais de nosso
mundo não resultam na falta de conhecimento ou informação,
caso contrário, pessoas bem informadas não promoveriam
agressões ambientais.
A
educação ambiental deve buscar a motivação
do aluno para a mudança de atitudes, de valores, sensibilizá-lo
para a transformação ambiental de sua realidade, estimular
uma nova ética mais solidária e responsável
tanto com nossos semelhantes quanto com os demais seres da Criação.
Os alunos não são ‘páginas em branco’
sem história ou experiências ambientais anteriores,
pois já trazem uma bagagem ambiental, só que essa
visão é às vezes romântica, como se as
questões ambientais dissessem respeito apenas às plantas
e aos bichos, uma visão embrionária de cidadania,
onde o mundo melhor que desejamos começa no outro, uma visão
utilitarista, onde o Planeta e os outros seres não passam
de recursos, justificando o seu uso e abuso em nome do desenvolvimento
da espécie humana.
Os
meios de comunicação, principalmente a televisão,
exibem grande número de informações ambientais,
no entanto, não possuem o caráter pedagógico
requerido para o ensino do meio ambiente, mas isso não significa
que se deva recusá-los. É mais o caso de complementá-los,
lidando com as informações e conceitos veiculados
para ajudar os alunos na reflexão sobre os fatos, relacionando-os
com suas realidades vividas. Nesse processo, os alunos ao mesmo
tempo que adquirem os instrumentos intelectuais necessários
para a compreensão do mundo em que vivem, motivam-se a transformá-lo,
buscando solução real para os problemas apresentados,
atacando suas causas. Neste sentido, se adequadamente utilizada,
os meios de comunicação podem se tornar importantes
instrumentos do professor na formação do aluno, como,
por exemplo, usar em sala de aula jornais, revistas, vídeos
com temas ambientais.
Outra
idéia interessante é aproximar o aluno de seu meio
ambiente através de passeios ecológicos, estudo do
meio, estudo de caso, etc., que estimulem a troca de informações,
visões e experiências sobre o meio ambiente na comunidade,
seus problemas concretos e possibilidades de solução,
seguido de debates cidadãos e trabalhos científicos,
mas agora num clima de interesse pelos fenômenos naturais
e os conceitos sobre a natureza, a idéia de ecossistema,
as cadeias alimentares, os ciclos naturais, o profundo poder de
interferência da espécie humana na modificação
– para pior ou melhor – do seu meio ambiente. Os alunos
estarão partindo do local para o global, da realidade que
conhecem e dominam para a que não conhecem e desejam dominar.
Os debates podem ser momentos muito ricos de possibilidades envolvendo
o convite a ambientalistas, líderes comunitários,
agentes governamentais, promotores públicos, pessoas que
lidam com a problemática ambiental local preparando os alunos
antes para aproveitarem bem o encontro, realizando perguntas interessantes
que os motivem para a participação cidadã ambiental.
Nenhuma
experiência seria mais enriquecedora que a organização,
com os próprios alunos de um grupo ambiental na escola, como
os Clubes de Amigos do Planeta. Ao mesmo tempo em que vão
tomando conhecimento sobre a problemática ambiental em seus
diversos aspectos, sobre as alternativas de soluções,
sobre a necessidade de mudança de valores e atitudes, também
vão construindo a própria cidadania ambiental, passam
a valorizar o trabalho em equipe pelo bem comum, aprendem a ser
democráticos, ou seja, a discutir e negociar opiniões
diferentes num ambiente pacífico sem precisar recorrer a
armas ou agressões físicas. Neste sentido, a educação
ambiental é também uma educação para
a paz.
4.
Dez Mandamentos do “Amigo do Planeta”
1
- Só Jogue Lixo no Lugar Certo
É horrível quando a gente vê alguém jogando
lixo no chão. As ruas, praças e qualquer logradouro
público não são terra de ninguém, mas
pertencem a todos. Você não jogaria lixo na casa de
alguém, jogaria? Pois é, a rua pertence a todos, tem
muitos donos. O lixo espalhado, além de atrair ratos, moscas,
mosquitos, cria um aspecto horrível de poluição
em sua cidade. E, depois, custa muito dinheiro de impostos para
limpar, dinheiro que podia estar sendo usado para outras obras.
Um Amigo do Planeta só joga seu lixo nos locais apropriados,
ou guarda no bolso e traz para colocar na lixeira da própria
casa.
2
- Poupe Água e Energia
A água que você usa não sai da parede. Ela vem
de algum rio ou manancial. Os rios estão sendo agredidos
pela poluição e pelo desmatamento, o que torna a água
potável cada vez menos disponível, o que eleva o custo
de seu tratamento. Quanto à energia, existe a elétrica
ou então vem de fontes como gás, petróleo,
lenha e carvão. Elas vão escassear cada vez mais e
algumas não são renováveis, como o petróleo,
por exemplo.
3
Não Desperdice
Evite consumir além do necessário. Adquira o indispensável
em alimentos, objetos, roupas, brinquedos etc. As lojas e supermercados
estão cheios de inutilidades que só fazem gastar mais
e mais recursos naturais na fabricação. Reflita antes
de comprar. Rejeite produtos descartáveis, como copos, garrafas
etc. Além de poluírem e aumentarem o volume de lixo,
também apressam o esgotamento dos recursos naturais. Reutilize
as sacolas de compra. Prefira alimentos naturais, evitando enlatados,
empacotados, refrigerantes, os alimentos industrializados, além
de mais caros, podem causar alergias e outros males e, às
vezes, nem têm grandes funções nutritivas.
4
- Proteja os Animais e as Plantas
Cada animal ou planta é um ser vivo como você e tem
tanto direito à vida, à liberdade e ao bem estar quanto
nós. Embora você não perceba, sua vida está
interligada com a de todos os outros seres. É essa interligação
que forma a `teia da vida' que garante a sobrevivência de
todos. Por ter perdido esta noção, nossa espécie
vem causando tanto prejuízo e poluição à
natureza, com conseqüências cada vez mais graves para
a nossa qualidade de vida. Os seres humanos são os únicos
com capacidade de modificar em profundidade seu meio ambiente. Nós
temos usado essa capacidade para piorar as coisas. Agora precisamos
fazer o contrário, para nossa própria sobrevivência.
5
- Proteja as Árvores
Para fabricar papel é preciso cortar árvores, logo,
poupar papel é uma forma de defender as árvores. Utilize
os dois lados da folha de papel. Leve sua sacola de compras ao supermercado.
Faça coleta seletiva em sua casa. Recicle o papel, fabricando
novo papel a partir do papel usado. A outra forma de ajudar é
defendendo as árvores existentes e plantando novas árvores.
Adote uma árvore. Cuide dela com carinho e respeito.
6
- Evite Poluir Seu Meio Ambiente
Use o menos possível o automóvel, programando suas
saídas. Ele provoca poluição do ar. Acostume-se
a ouvir música sem aumentar muito o volume do som. Som alto
provoca poluição sonora. Enfim, reveja seu dia-a-dia
e tome as atitudes ecológicas que julgar mais corretas e
adequadas para você. Não espere que alguém venha
fazer isso por você. Faça você mesmo.
7
- Faça Coleta Seletiva do Lixo
É fácil separar o lixo seco (inorgânico: papel,
plástico, metal, vidro) do lixo molhado (orgânico:
restos de comida, cascas de frutas etc.). Você estará
contribuindo para poupar os recursos naturais, aumentar a vida útil
dos depósitos públicos de lixo, diminuir a poluição.
É só ter duas vasilhas diferentes a lado da pia da
cozinha e um lugar para depositar o lixo seco até alcançar
um volume que permita sua venda ou doação - e boa
vontade.
8
- Só Use Biodegradáveis
Existem certos produtos de limpeza que não se degradam na
natureza, como sabões, detergentes etc. Procure certificar-se,
ao comprar estes produtos, de que são biodegradáveis.
Evite o uso de venenos e inseticidas. Uma casa limpa é suficiente
para afastar insetos e ratos. Os inseticidas são altamente
nocivos para o meio ambiente e para a saúde das pessoas.
9
- Conheça Mais a Natureza
Estude e leia mais sobre a natureza, mesmo que não seja tarefa
da escola. Tenha em casa livros, revistas que falem sobre a natureza.
Faça um álbum de recortes com figuras de animais e
plantas. Procure no dicionário palavras como saúde
do trabalhador, reciclagem, reaproveitamento, habitat, biodegradáveis
etc. Quanto mais você souber, melhor poderá agir em
defesa da natureza.
10
- Participe Dessa Luta
Não adianta você ficar só estudando e conhecendo
mais sobre a natureza. É preciso combinar estudo e reflexão
com ação. Você pode agir sozinho, procurando
políticos ou a imprensa, por exemplo, para denunciar ou protestar
contra os abusos, poluições, depredações.
Também pode agir em grupo. Crie um Clube de Amigos do Planeta