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Entrevistas concedidas por Vilmar Sidnei Demamam Berna

1. A Wilson Bueno - Revista Comunicação, Agribusiness & Meio Ambiente
2. A Thaís Naldoni - Revista Imprensa
3. Sobre Marketing Ecológico no Brasil - Revista Marketing – Outubro 2002 - a Anna Gabriela Araújo
4. A Aline Garcia
5. A Priscila Cerqueira Ribeiro
5. A Aline Moura, sobre Jornalismo Ambiental no Terceiro Setor
6. A Revista Construir  - Fabiana Barboza
7. A Maria Cecília Trannim - tese de mestrado Programa EICOS, Cátedra da Unesco no Brasil, UFRJ
8. A Berenice Gehlen Adams - revista eletrônica Educação Ambiental em Ação
9. A Rafaela Lobato sobre "Jornalistas engajados no movimento ecológico"
10. A Filipe Marcel
11. A Mariana Alves Campos
12. Jornalismo em defesa do verde, por Marco Antonio Nascimento Rosa - revista Jornalismo em Ação, veículo de extensão universitária da UMESP Universidade Metodista de São Paulo
13. A Revista “Cooperador Paulino”
14. para a tese de mestrado sobre Ambientalismo de Frederico Loureiro
15. A Rubens Ribeiro - Revista Futuro


 

Entrevusta a Wilson Bueno - Revista Comunicação, Agribusiness & Meio ambiente

Revista: Há quem conteste a idéia de que existe um "jornalismo ambiental" ou um "jornalismo científico", com o argumento de que jornalismo é jornalismo, sem adjetivos. O que você acha disso? O jornalismo ambiental constitui um campo específico ou o ambiental é apenas um adjetivo a mais nesse caso para qualificar o jornalismo e pode ser descartado?

VSDB: O Jornalismo em geral não dá conta de tantos temas tão específicos, notadamente o ambiental, com toda a sua complexidade. É uma utopia imaginar que o Jornalismo não vá precisar de especializações ou que todo profissional de comunicação irá receber uma capacitação que dará conta de todo o conhecimento específico que precisará para o adequado exercício de suas atividades. Mas isso gera distorções, fazendo por vezes que o jornalismo especializado acabe virando um compartimento às vezes estanque e impermeável nas redações. Para o profissional que se especializa e investe tempo, conhecimento e dinheiro em sua área de conhecimento específico, ser respeitado é bom e todo mundo gosta, além de assegurar seu nicho de empregabilidade, mas corre o risco do tema deixar de ser pauta no jornalismo não-especializado.

Revista: Existem diferenças (de postura, de conteúdo, de compromisso) entre o jornalismo ambiental da Grande Mídia (como você costuma identificar) e o jornalismo ambiental desenvolvido pelas mídias ambientais? Se sim, quais são elas?

VSDB: Há algum tempo, percebia mais claramente que a Grande Mídia só se ocupava dos temas ambientais quando eram desastres. Hoje, percebo que isso está sendo superado lentamente. Já vejo com alguma freqüência a chamada Grande Mídia realizando boas coberturas ambientais, às vezes até com mais vantagens em termos de qualidade sobre a mídia especializada, por dispor de maiores recursos e meios. O volume de informações e a complexidade da questão ambiental justifica a existência de setores e espaços para a informação ambiental na chamada Grande Mídia, e também na mídia especializada. Enquanto a Grande Mídia disputa espaço com os variados temas do cotidiano, como política, moda, esportes, violência, etc., a mídia especializada em meio ambiente enfrenta o desafio de abrigar em sua pauta a complexidade do tema ambiental, que vai desde as questões da ecologia natural até a ecologia humana, envolvendo aspectos econômicos, ambientais, sociais, culturais, etc. A Grande Mídia e a mídia ambiental especializadas são complementares entre si.
Ao traçar planos de mídia para a área ambiental é importante que as empresas e agências compreendam o papel complementar da chamada Grande Mídia e das mídias especializadas em meio ambiente, a fim de evitar o desperdício de informação e de recursos, e obterem melhores resultados junto ao segmento da opinião pública que realmente se interessa e leva em conta a informação ambiental. A Grande Mídia precisa atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Já a mídia ambiental também aborda diversos temas, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental, tornando-se uma referência natural para quem busca informações ambientais.

Revista: Levando em conta a importância das mídias ambientais em termos de penetração e acesso, em especial pela Web, como se justificaria o descaso das agências de propaganda e dos Governos em relação a elas? Desconhecimento? Preconceito? Antagonismo político ou ideológico? Ou tudo isso um pouco (ou muito!)?

VSDB: A mídia ambiental sofre de fato um certo bloqueio comercial. Não há, entretanto, um objetivo político como, por exemplo, estrangular as mídias ambientais para que não façam a crítica do modelo predatório e poluidor. Creio que o que existe é desconhecimento mesmo, falta de cultura ambiental, de formação e até mesmo, em alguns casos, incompetência. Tem agências que preferem investir suas verbas de publicidade em veículos da grande mídia em vez de também incluírem as mídias especializadas em seus planos de divulgação. Compram quantidade de público e não qualidade de público. Pouco importa se uma mensagem ambiental será lançada para um público numeroso que não está nem aí para as questões ambientais e que até às vezes acham o assunto chato. As empresas acabam gastando às vezes verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais adequados e controlar ou eliminar sua poluição, mas divulgam isso, quando divulgam, para um público assim, que não se importa com a informação ambiental. Mas também tem empresas e governos que agem como se o simples fato de terem mudado de atitude e de agora estarem cuidando direito do meio ambiente fosse suficiente para virar pauta de qualquer veículo ambiental. Limitam-se a contratar serviços de assessoria de comunicação ou mesmo usam suas próprias assessorias para enviarem releases, na esperança de divulgação, como se coubesse aos veículos financiarem a divulgação dos resultados.

Revista: Você acha possível, razoável, aceitável que as mídias ambientais possam inserir anúncios ou ter patrocinadores de empresas reconhecidamente agressivas ao meio ambiente? Se não, por quê? Se sim, como impedir a interferência nos conteúdos da publicação? Qual é a postura da Revista e do Portal do Meio Ambiente com relação a isso?

VSDB: Ninguém precisa ser 100% ecologicamente correto - até por que isso não existe - para só aí ter o direito de anunciar numa mídia ambiental. Assegurar espaço na mídia ambiental para a publicidade de poluidores que querem divulgar aspectos ambientais positivos de seus avanços ambientais é também uma forma de estimular estes avanços e fazer uma educação ambiental entre os poluidores que podem se sentir desafiados a também investirem em meio ambiente, como seus concorrentes. O problema é quando um veículo ou um profissional de comunicação aceita qualquer tipo de constrangimento, direcionamento ou mesmo assume posturas de auto-censura em relação a um patrocinador. Impedir isso é muito simples, é só assegurar espaço a todos os lados diferentes envolvidos numa questão ambiental, ainda que afete seu anunciante poluidor. Se alguém tem de ser anti-democrático, que seja o anunciante que retira sua publicidade por que não está gostando da liberdade de opinião do veículo que financia. Deveria refletir antes sobre a oportunidade interessante que é anunciar num veículo que tem a liberdade para criticar, pois isso atrai leitores interessados realmente na questão ambiental, exatamente aquele tipo de leitor crítico em relação ao patrocinador, e que terá a chance de talvez mudar de opinião ao receber também as informações que ele desconhecia.
Quanto à Revista e ao Portal do Meio Ambiente trata-se de veículos de comunicação especializados em meio ambiente e comprometidos com a verdade e a democratização da informação onde asseguramos espaço, com o máximo de isenção possível, a ambientalistas, empresas, governos e a todos que produzam ou necessitem democratizar informação ambiental. Assim, consideramos bem vindos apoios, parcerias, patrocínios, colaborações de Empresas, ONGs, Governos, poluidores ou não, desde que estas não pretendam interferir ou influenciar direta ou indiretamente na linha editorial ou na pauta. Cabe ao leitor o direito de escolher o que quer ler e julgar a informação, dispondo também do Espaço do Leitor para expor sua opinião, crítica, concordância, discordância. No item 4 de seu código de ética, como regra geral, a Revista e o Portal do Meio Ambiente assumem que devem dar espaço para todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.

Revista: O Jornalismo Ambiental contribui, em que sentido, para a educação ambiental? Ou são instâncias completamente diferentes, sem qualquer ponto de tangência?

VSDB: O acesso à informação ambiental de qualidade é indispensável ao exercício da cidadania na defesa dos seus direitos e no exercício de seus deveres, por um meio ambiente melhor e preservado. A Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental, define em seu art. 5º, inciso II, como um dos objetivos fundamentais da educação ambiental a garantia da democratização das informações ambientais. E isso é perfeitamente compreensível pois os jovens de hoje, por exemplo, serão adultos num mundo que exigirá deles uma capacidade não só de dizer não às agressões ambientais, mas de dizer sim a um modelo de desenvolvimento que garanta a qualidade de vida humana sem destruir o planeta. Neste sentido, a escola assume um papel fundamental de estimular a cidadania ambiental do aluno, e uma das maneiras mais eficientes de se fazer isso é trazendo o contemporâneo para a sala de aula, aproximando o cotidiano vivido pelos alunos. Por isso, vejo o encontro do jornalismo ambiental com a educação ambiental como fundamental e desejável. O ideal é que a educação ambiental formal utilize jornais em sala de aula, ou mesmo vídeo com programas e shows com temas ambientais como motivadores para aulas interessantes e, sobretudo, próximas da realidade vivida. Desta forma, a educação ambiental pode ajudar o aluno a pensar criticamente sobre sua realidade e também influir sobre ela.

Revista: Como está o panorama na Web a partir das mídias ambientais? Tem observado alguma modificação (para melhor) nos últimos anos?

VSDB: A internet é uma ferramenta nova e superpoderosa para a democratização da informação de uma maneira geral, inclusive a ambiental. Ainda assusta, é mal empregada, é utilizada abaixo de sua potencialidade, as agências de publicidade e os grandes anunciantes ainda não perceberam o potencial comercial que representa, mas é inegável que veio para ficar e ocupar cada vez mais espaços e importância em nossas vidas. E, é sempre bom lembrar, informação é poder. Sem acesso à informação, as lutas dos cidadãos por seus direitos e mesmo o exercício de seus deveres, ficam bem mais difíceis. A internet deu ao conceito de aldeia global a sua real dimensão. No campo ambiental, cujas lutas são locais e globais, já que a poluição não respeita fronteiras, além de uma ferramenta poderosa de informação é uma ferramenta que proporciona a interatividade, a articulação e o exercício de cidadania, ampliando a capacidade de luta e dando voz aos cidadãos de todo o planeta na defesa de seus direitos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Num país de dimensões continentais, como o Brasil, e com problemas ambientais que ultrapassam muitas fronteiras, a Internet veio ocupar uma lacuna onde antes não existia nada, talvez só o telefone, ou o telex, com todas as suas limitações. Graças à internet, a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (http://www.portaldomeioambiente.org.br/JMA-Rebia.asp ) , ancorada no www.portaldomeioambiente.org.br vem pouco a pouco se tornando uma referência para produtores e difusores de informações ambientais de todo o Brasil.
Creio que a tendência é a internet crescer em importância em relação às demais ferramentas de comunicação devido à interatividade que proporciona, até por que entre os internautas de hoje, não sei precisar em que percentuais, estão também os leitores de jornais e revistas, telespectadores da televisão e ouvinte dos rádios. Não sei como a internet irá influir em seus hábitos. Tenho percebido uma sinergia cada vez maior entre os veículos tradicionais, que citam e remetem seus leitores, telespectadores e ouvintes para sites e fontes na internet, como forma de complementar o espaço curto e a ausência de canais de interatividade que o público, aparentemente, exige cada vez mais. A Revista do Meio Ambiente segue esta tendência. Não sei se isso estimulará uma migração para a internet, ou se acabará por fortalecer todas as ferramentas à medida que traz mais gente para 'consumir' informações.

Revista: As universidades, em particular as de Jornalismo, estão capacitando os profissionais de imprensa para atuarem nessa área? Quais seriam os conhecimentos e posturas básicas que deveriam fazer parte desta formação?

VSDB: Nenhum curso universitário faz milagres, por isso o profissional precisa manter a mente aberta e buscar complementar seu conhecimento. Qualquer veículo especializado vai exigir do profissional um mínimo de domínio no conhecimento do tema abordado pelo Jornal. No caso ambiental, o profissional precisa conhecer bastante deste universo, nomenclatura, etc. Só agora as universidades começam, timidamente, a promover o curso de Jornalismo Ambiental, mas ainda é um esforço isolado de algumas instituições. Mas é importante ir além do ensino da Academia, participar de grupos de debates de jornalismo ambiental, estagiar na área, participar de seminários e encontros ambientais, ler sobre o assunto, etc. Isso tudo para descobrir depois que não tem uma vaga no mercado para os profissionais da área, por que a grande mídia não valoriza adequadamente o tema, a mídia especializada é em número pequeno e quase ideológico sem condições de contratar ninguém.
O futuro jornalista ambiental não deve se limitar à visão de empregados à procura de um patrão. O emprego tradicional está desaparecendo. A saída pode ser organizar com os colegas cooperativas de serviços profissionais de comunicação para oferecer serviços a segmentos da sociedade que apesar de pequenos ou especializados e de terem necessidade de estabelecer algum tipo de democratização da informação, não encontram espaço nas mídias tradicionais, e isso envolve inúmeras organizações como bairros, clubes, ONGs, associações de pequenos comerciantes, etc. O diploma e o talento, apesar de importantes, não asseguram vaga em lugar algum.

Revista: O jornalismo ambiental é, por natureza, um jornalismo militante?

VSDB: Não acredito em isenção. Acredito em compromisso ético. O jornalista ambiental deve assumir o compromisso pessoal e ético de sempre assegurar espaço equivalente tanto para os que denunciam quanto para os que são denunciados, tanto para os que falam e escrevem apaixonadamente contra ou a favor de algum aspecto ambiental. Cabe ao leitor, e não ao editor ou ao jornalista, escolher que informação o leitor lerá. E é isso o que diferencia bem um veículo aberto de um veículo institucional, onde geralmente o que conta é a opinião, a ideologia, o pensamento, o engajamento da instituição que financia o veículo.

Revista: Fale um pouco sobre a Revista e o Portal do Meio Ambiente. Como é a sua avaliação a respeito desses veículos ao longo desta vitoriosa trajetória? O número de acessos tem aumentado? Quais os principais problemas, incluindo as dificuldades para a própria sobrevivência financeira?

VSDB: A Nedstat (www.nedstatbasic.net) é um serviço de auditoria independente, com sede nos EUA, que vem monitorando os acessos ao Portal do Meio Ambiente registrando a média de mais de 7.000 acessos ao dia. Na média MENSAL o site tem ultrapassado 200.000 visitantes! Este número de acessos ultrapassa as tiragens dos veículos impressos especializados em meio ambiente no Brasil, inclusive da própria Revista do Meio Ambiente, cuja tiragem mensal está em torno de 25 mil exemplares! Para conferir diariamente as estatísticas do site basta clicar na página 'Estatísticas'. Os números crescentes de visitas ao www.portaldomeioambiente.org.br são indicadores importantes que desmistificam a idéia de que os brasileiros não se importam nem se interessam pelo meio ambiente. O que podemos constatar é o contrário. As pessoas estão cada vez mais interessadas e a mídia impressa não tem conseguido acompanhar e divulgar a enorme quantidade e diversidade de informações ambientais que acontece diariamente no país. Aqueles que lidam e dependem da informação ambiental, seja em seu processo de decisão, seja para garantir direitos ou mesmo para se manterem informados da conjuntura ambiental sabem como é estratégico ter acesso a esse tipo de informação especializada.
Outro indicador qualitativo sobre como a sociedade vem valorizando a importância da democratização da informação ambiental são os inúmeros prêmios recebidos pelo Portal do Meio Ambiente:

Página Nota 10 - Escola Net - escolanet.com.br por atender aos critérios de estar em português, apresentação visual adequada, conteúdo cultural e educativo nos artigos e textos, boa resolução da página e página educacional e cultural;
Prêmio Ecosite - do Projeto Eco Via (www.ecovia.cjb.net e-mail: ecovia@zipmail.com.br), concedido aos melhores sites ecológicos brasileiros;
Melhor Periódico - A Ambiental - Rede de Informações Sobre Meio Ambiente ( www.ambiental.com.br ) elegeu o Portal do Meio Ambiente como o melhor periódico sobre o assunto na Internet.
Top 10% PNN - O Portal do Meio Ambiente foi escolhido para fazer parte da seleção PNN Top 10% pela PNN Rede de Notícias em Português™ - Departamento de seleção e promoção dos melhores sites de língua portuguesa - www.interpnn.com e-mail: top10@interpnn.com).

Existe um gargalo que tem impedido a democratização da informação ambiental no Brasil e que justifica a fundação de novos veículos dedicados à questão ambiental. Veja por exemplo a situação do Portal do Meio Ambiente que recebe diariamente, por meio eletrônico, a média de cinqüenta novas notícias ambientais, umas 1.500 por mês. Aproveitamos cerca de 10 notícias no Boletim Notícias do Meio Ambiente, enviado por e-mail diariamente para 32.000 leitores cadastrados e, mensalmente, umas 40 que veiculamos através da Revista do Meio Ambiente impressa, cuja tiragem de 25.000 exemplares é enviada por correio e distribuída de maneira dirigida aos multiplicadores e formadores de opinião em todo o país. Essa situação não é muito diferente para os outros editores de mídias ambientais no Brasil. Todos recebem muito mais informações do que conseguem aproveitar. De um lado, está a iniciativa crescente da Sociedade, através de suas empresas, universidades, organizações do terceiro setor e do próprio governo, em produzir informações ambientais, aparentemente demonstrando que acordou para a nova realidade ambiental do planeta e está passando do discurso e declarações de boa vontade ambiental para a prática. Do outro, as mesmas empresas e governos que enchem as redações da mídia especializada com releases, por um lado, excluem esses veículos de seus planos de mídia. Também não asseguram recursos para divulgação nos projetos ambientais que patrocinam. Depois se queixam que os resultados obtidos não receberam a divulgação que merecia, que apesar de todo o investimento em projeto de responsabilidade sócio-ambiental a imagem institucional da empresa ou Governo continua péssima, ou que o evento, curso ou seminário ambiental não recebeu o público esperado por falta de divulgação.

Revista: O que você diria para um colega que se dispusesse a seguir o mesmo caminho? Vá em frente ou pense bem antes de entrar nessa?

VSDB: Sugiro que leia os Dez Mandamentos da Comunicação Ambiental, uma colaboração de minha autoria para ajudar aos que desejam se engajar nessa causa.

1. A comunicação ambiental, como qualquer atividade humana, não é neutra - A comunicação ambiental é um instrumento que tanto pode estar a serviço de grupos e pessoas empenhadas sinceramente na defesa do meio ambiente, quanto movidas por interesses individuais ou corporativos que contratam profissionais para tentar passar uma imagem de ambientalmente responsáveis, sem ser, para se apossarem de recursos naturais ameaçados antes que se tornem indisponíveis ou caros demais tirar de onde está. Diante da impossibilidade de neutralidade, o profissional de comunicação ambiental precisa balizar sua conduta por um código de ética ambiental, como, por exemplo, o adotado pelos veículos da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental e associados.

1. O direito a um ambiente limpo e a um desenvolvimento sustentável é fundamental e está intimamente ligado ao direito à vida, à saúde e ao bem estar de todos. Os veículos da REBIA e associados devem informar o público sobre as ameaças ao ambiente - se está no nível global, regional, nacional ou local.

2. Freqüentemente, a mídia é a única fonte da informação para as pessoas interessadas em meio ambiente. É dever dos veículos da REBIA e associados aumentarem a consciência destas pessoas nos noticiários que tratam do meio ambiente. Os veículos da REBIA e associados devem se esforçar para relatarem diversos aspectos e assuntos relacionados com o meio ambiente.

3. Informando o público, os veículos da REBIA e associados desempenham um papel vital, permitindo às pessoas recorrer à ação para proteger o meio ambiente. O dever dos veículos da REBIA e associados está não somente em alertar as pessoas sobre os perigos que a cercam, mas também de acompanhar tais ameaças e em mantê-las informadas sobre as ações tomadas para resolver os problemas. Os veículos da REBIA e associados devem também tentar realizar reportagens que apresentem soluções possíveis aos problemas ambientais.

4. Os veículos da REBIA e associados não devem ser influenciados por interesses comerciais, políticos, governamentais ou não governamentais. Como regra geral, os veículos da REBIA e associados devem dar espaço para todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.

5. Os veículos da REBIA e associados devem manter o máximo de isenção possível, citar as fontes da informação e evitar o comentário especulativo ou alarmista, bem como a reportagem tendenciosa. A verificação das informações das fontes devem ser feitas sempre através da técnica de cruzamento, seja ela uma fonte comercial, oficial ou não governamental.

6. Os veículos da REBIA e associados devem promover a igualdade no acesso à informação e ajudar organizações e indivíduos a recebê-la. A recuperação eletrônica dos dados é uma ferramenta útil e igualitária neste ponto.

7. Os veículos da REBIA e associados devem respeitar o direito à privacidade dos indivíduos que foram afetados por catástrofes ambientais, por desastres naturais e também quando assim desejarem, em qualquer caso.

8. Os veículos da REBIA e associados não devem hesitar em corrigir uma informação que acreditava estar correta e na verdade estava errada, ou tentar mudar a opinião pública através de análises à luz de conhecimentos futuros.

2. Direito e dever de se comunicar - As organizações têm o direito e o dever de se comunicarem adequadamente com o público interessado, informando sobre como estão cuidando do meio ambiente. Ao fazerem isso, podem contribuir para a formação de consciência ambiental na população e mesmo dar o exemplo para outros, estimulando novos investimentos em meio ambiente, num efeito cascata. Qualquer plano ou campanha de Comunicação Ambiental deve estar baseado no desejo sincero em se comunicar francamente com seus diversos públicos. Adotar o silêncio como estratégia para se proteger de problemas, pode até dar certo em alguns casos, mas, quando não dá, pode ser tarde demais ou custar muito mais caro ter de corrigir boatos ou mentiras. Também deve-se evitar divulgar como grande mérito ambiental ações e projetos que fazem parte das obrigações legais ou de controle de poluição intrínsecos à própria atividade poluidora, ou então, dar ênfase exagerada a investimentos ambientais absolutamente desproporcionais com o que se retira da natureza ou se provoca em degradação ambiental, sob pena de não se conseguir agregar credibilidade à informação ambiental.

3. Um profissional da comunicação ambiental não precisa necessariamente ser ambientalista - Ser ambientalista é uma decisão cidadã que um profissional da comunicação ambiental pode ter ou não. Melhor se tiver, pois o planeta não é um enorme armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente os nossos restos, por outro. O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos onde só importa a opinião de uma lado em detrimento de outras opiniões.

4. Os limites da comunicação Ambiental - Só democratizar a informação ambiental pode não ser suficiente para produzir as mudanças necessárias de opinião. Não é pelo maior ou menor volume de informações que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo, se não tiver uma cultura e uma formação que predisponha as pessoas a valorizar esta informação. Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco tornando-se insensíveis diante da informação, como se fosse mais uma espécie de poluição onde as palavras perdem o significado e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore ou uma floresta. A simples veiculação de informação ambiental desassociada de um compromisso com a cidadania crítica e participativa como defende a educação ambiental, ao contrário de estimular uma revisão de valores, pode aumentar a velocidade do saque aos recursos do Planeta, uma espécie de ética distorcida, como se a seleção natural das espécies separasse o mundo em vencedores (desenvolvidos, países de primeiro mundo) e perdedores (em desenvolvimento, sub-desenvolvidos, países de segundo e terceiro mundo) onde apenas os mais aptos e espertos sobrevivem, aqueles que chegaram primeiro e dispõem dos melhores meios e tecnologias para retirar e utilizar com mais eficiência e rapidez os recursos do Planeta, capitalizando lucros e socializando prejuízos.

5. Adaptar o "ecologês" - Não basta ter clareza do que precisa ser mudado a fim de conseguir uma relação mais harmônica da espécie humana com as outras espécies e o próprio planeta. É preciso sensibilizar e mobilizar a sociedade em direção a esse mundo melhor, por isso, aqueles que se comunicam com o público precisam falar uma linguagem que seja percebida por todos. Se queremos a compreensão e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos, devemos adaptar o ecologês às carências da nossa sociedade, partindo dos temas que a sociedade já domina e conhece para os que precisa conhecer a fim de construir uma melhor relação, mais harmônica, menos poluidora com seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta.

6. A opinião pública não é um livro em branco - Ao traçar uma política de comunicação ambiental deve-se levar em conta que a opinião pública já dispõe de informações ambientais, mas essas informações podem ser negativas, incompletas, falsas, preconceituosas, tendenciosas. Nem toda a informação ou o melhor plano de comunicação ambiental do mundo irá convencer ou sensibilizar quem não quer ser convencido nem sensibilizado. Por isso, uma política de comunicação ambiental nunca parte do zero, mas precisa pesquisar a percepção que os diferentes públicos já possuem e, a partir daí, estabelecer uma estratégia para identificar quais os públicos são os mais prioritários, que tipo de mensagem e linguagem serão mais apropriados, que veículos deverão ser empregados, que campanhas devem ser prioritárias. A cada período, uma nova pesquisa deve ser efetivada a fim de avaliar se a política de comunicação está sendo eficaz, redefinindo prioridades e aprendendo com os erros.

7. A verdade como melhor estratégia - O melhor antídoto para a desconfiança do público é a verdade, com a circulação de documentos e informações específicas para este público e identificação de parceiros para projetos. Pode-se ainda promover visitas desse público ao empreendimento e palestras de especialistas independentes, cujas posições, apesar de críticas em relação ao empreendimento, mantêm abertas as portas ao diálogo e aprovam o empreendimento, embora com restrições e exigências, o que é melhor que posições absolutamente contrárias, que não favorecem o diálogo ou provocam um clima de confronto da comunidade com a empresa.

8. Os papéis das mídias - Ao traçar planos de mídia para a área ambiental é importante que os profissionais de comunicação compreendam o papel complementar da chamada Grande Mídia e das mídias especializadas em meio ambiente, a fim de evitar o desperdício de informação e de recursos, e obterem melhores resultados junto ao segmento da opinião pública que realmente se interessa e leva em conta a informação ambiental. A Grande Mídia precisa atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Já a mídia ambiental também aborda diversos temas, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental, tornando-se uma referência natural para quem busca informações ambientais.

9. O todo em vez das partes - É importante adotar um Plano de Comunicação de forma sistêmica, ou seja, envolvendo a todos e não apenas um de seus setores, pois não adianta um setor para preservar e criar uma imagem de compromisso com o meio ambiente, se outros setores contribuem para a imagem de poluição e degradação ambiental. Por exemplo, tão importante quanto a atuação coordenada dos setores de relações públicas, assessoria de imprensa, publicidade e propaganda, é a atuação de setores como de controle e monitoramento ambiental, engenharia de produção, etc.

10. Comunicação em mão dupla - O diálogo tem a função de reconciliar posições conflitantes, sendo mais eficaz que a imposição e o controle. Ao criar canais de negociação, como Conselhos Comunitários ou Auditorias Ambientais Não-Governamentais, as organizações permitem que os tomadores de decisão se antecipem a problemas ou adotem novos procedimentos no seu gerenciamento e atividades ambientais. As análises e decisões sobre os problemas, quando tomadas em conjunto, estimulam o envolvimento e comprometimento de todos nas soluções adotadas.


 

Entrevista a Thaís Naldoni, Revista IMPRENSAwww.portalimprensa.com.br

Os últimos acidentes naturais, tais como o Katrina, por exemplo, mobilizaram a imprensa em todo o mundo. Como o senhor avalia a cobertura da imprensa quando o assunto é meio-ambiente? Ainda faz-se uma cobertura factual ou já é possível encontrar matérias mais educativas? Por que?

 

Vilmar: A opinião pública está cada vez mais consciente e sensível às questões ambientais e cobra das empresas, políticos e governos cada vez maior responsabilidade ambiental. O resultado são leis e multas cada vez mais rigorosas, podendo chegar facilmente a milhões de reais, além da obrigação de reparar o dano. O papel da imprensa nessa tomada de consciência foi estratégico. Ao divulgarem as tragédias e acidentes ambientais em todo o mundo, por exemplo, contribuíram para o despertar de uma consciência ambiental que cada vez é mais crescente e cuja tendência, ao contrário de diminuir de intensidade, como se fosse um modismo passageiro, é de aumentar.  Segundo o Major Hazard Incident Data Service, da Grã-Bretanha, até 1.986 ocorreram 2.500 acidentes industriais no mundo, sendo que mais da metade (1.419) em apenas cinco anos, entre 1981 e 1986. Já os grandes acidentes ambientais, que envolveram maior número de mortes e milhões de dólares de indenização, num total de 233 acidentes, ocorreram no curto período entre 1970 e 1989. A divulgação em escala mundial destes fatos não só contribuiu para sensibilizar a opinião pública, mas também para fortalecer os movimentos ambientalistas, que se multiplicaram nesse período, além de gerar um conjunto de leis ambientais e de órgãos de controle que não existiam antes de 1970.

Há algum tempo, percebia mais claramente que a imprensa tradicional só se ocupava dos temas ambientais quando eram desastres. Hoje, percebo que isso está sendo superado lentamente. Já vejo com alguma freqüência a imprensa tradicional realizando boas coberturas ambientais, às vezes até com mais vantagens em termos de qualidade sobre a imprensa especializada, por dispor de maiores recursos e meios, mas não pode fugir à lógica deter de atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Vejo a imprensa tradicional e a ambiental como complementares.

A mídia brasileira já se mostra mais consciente quanto às causas ambientais? Por que?

Vilmar: Cada veículo tende a acompanhar o interesse do seu público e é visível o crescimento da consciência ambiental na sociedade brasileira. A menos de duas décadas poluição era sinônimo de progresso, hoje, é tratada como crime ambiental. A consciência ambiental da população é um caminho sem retorno que só tenderá a crescer diante de leis que se tornam cada vez mais rigorosas. Um exemplo do crescimento desta consciência ambiental pode ser medido através do números de acesso ao Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br ). O Portal tem mantido a média diária de 7.000 visitas. Cerca de 200.000 acessos ao MÊS, o que constitui uma tiragem significativa por qualquer ângulo que se examine, especialmente por não ser um veículo de massa, mas especializado. Entretanto, há limites para a democratização da informação ambiental. Enquanto para a maioria das pessoas notícias sobre impactos e danos ambientais, principalmente diante de grandes acidentes, podem sensibilizar e contribuir para o despertar da consciência ambiental, para outras pode significar a necessidade de aumentar o controle e a posse aos recursos naturais ameaçados a fim de tomar para si tudo o que puder antes que o recurso acabe ou se comprometa de vez. Assim, não basta apenas democratizar a informação ambiental, é preciso uma ‘educomunicação’ para contribuir na formação de cidadãos mais críticos e participativos, e também

Continuação

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ED. Nº20
Nov./Dez. 2008




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O Portal do Meio Ambiente é uma publicação da REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental, editada em parceria com a OSCIP Associação Ecológica Piratingaúna, e tem por missão democratizar a informação ambiental como forma de contribuir para formação e a mobilização da cidadania ambiental planetária. A REBIA não tem fins lucrativos e é feita por indivíduos e organizações parceiras que doam voluntariamente seus talentos, recursos e energias na certeza de que um mundo melhor é possível. Editado também de forma voluntária pelo escritor, jornalista e ambientalista VILMAR Sidnei Demamam BERNA, que em 1999 recebeu o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, recebeu o Prêmio Verde das Américas, entre outros. Contatos: vilmar@rebia.org.br / Telefax: (21) 2610-2272 Redação: Trav. Gonçalo Ferreira, 777 - Casarão da Ponta da Ilha, Bairro Jurujuba, Niterói, RJ CEP 24370-290 (Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião do Portal do Meio Ambiente).