O autor é o escritor Vilmar Sidnei Demamam Berna
que autoriza a livre reprodução desde que citada a fonte e autoria.
1. A Comunicação Ambiental não é neutra
*****A comunicação ambiental é um instrumento que tanto pode estar a serviço de grupos e pessoas empenhadas sinceramente na defesa do meio ambiente, quanto movidas por interesses individuais ou corporativos que contratam profissionais para tentar passar uma imagem de ambientalmente responsáveis, sem ser, para se apossarem de recursos naturais ameaçados antes que se tornem indisponíveis ou caros demais tirar de onde está. Diante da impossibilidade de neutralidade, o profissional de comunicação ambiental precisa balizar sua conduta por um código de ética ambiental, como, por exemplo, o adotado pelos veículos da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental e associados.
1. O direito a um ambiente limpo e a um desenvolvimento sustentável é fundamental e está intimamente ligado ao direito à vida, à saúde e ao bem estar de todos. Os veículos da REBIA e associados devem informar o público sobre as ameaças ao ambiente - se está no nível global, regional, nacional ou local.
2. Freqüentemente, a mídia é a única fonte da informação para as pessoas interessadas em meio ambiente. É dever dos veículos da REBIA e associados aumentarem a consciência destas pessoas nos noticiários que tratam do meio ambiente. Os veículos da REBIA e associados devem se esforçar para relatarem diversos aspectos e assuntos relacionados com o meio ambiente.
3. Informando o público, os veículos da REBIA e associados desempenham um papel vital, permitindo às pessoas recorrer à ação para proteger o meio ambiente. O dever dos veículos da REBIA e associados está não somente em alertar as pessoas sobre os perigos que a cercam, mas também de acompanhar tais ameaças e em mantê-las informadas sobre as ações tomadas para resolver os problemas. Os veículos da REBIA e associados devem também tentar realizar reportagens que apresentem soluções possíveis aos problemas ambientais.
4. Os veículos da REBIA e associados não devem ser influenciados por interesses comerciais, políticos, governamentais ou não governamentais. Como regra geral, os veículos da REBIA e associados devem dar espaço para todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.
5. Os veículos da REBIA e associados devem manter o máximo de isenção possível, citar as fontes da informação e evitar o comentário especulativo ou alarmista, bem como a reportagem tendenciosa. A verificação das informações das fontes devem ser feitas sempre através da técnica de cruzamento, seja ela uma fonte comercial, oficial ou não governamental.
6. Os veículos da REBIA e associados devem promover a igualdade no acesso à informação e ajudar organizações e indivíduos a recebê-la. A recuperação eletrônica dos dados é uma ferramenta útil e igualitária neste ponto.
7. Os veículos da REBIA e associados devem respeitar o direito à privacidade dos indivíduos que foram afetados por catástrofes ambientais, por desastres naturais e também quando assim desejarem, em qualquer caso.
8. Os veículos da REBIA e associados não devem hesitar em corrigir uma informação que acreditava estar correta e na verdade estava errada, ou tentar mudar a opinião pública através de análises à luz de conhecimentos futuros.
2. Direito e dever de se comunicar
*****As organizações têm o direito e o dever de se comunicarem adequadamente com o público interessado, informando sobre como estão cuidando do meio ambiente. Ao fazerem isso, podem contribuir para a formação de consciência ambiental na população e mesmo dar o exemplo para outros, estimulando novos investimentos em meio ambiente, num efeito cascata. Qualquer plano ou campanha de Comunicação Ambiental deve estar baseado no desejo sincero em se comunicar francamente com seus diversos públicos. Adotar o silêncio como estratégia para se proteger de problemas, pode até dar certo em alguns casos, mas, quando não dá, pode ser tarde demais ou custar muito mais caro ter de corrigir boatos ou mentiras. Também se deve evitar divulgar como grande mérito ambiental ações e projetos que fazem parte das obrigações legais ou de controle de poluição intrínsecos à própria atividade poluidora, ou então, dar ênfase exagerada a investimentos ambientais absolutamente desproporcionais com o que se retira da natureza ou se provoca em degradação ambiental, sob pena de não se conseguir agregar credibilidade à informação ambiental.
3. Um profissional da comunicação ambiental
não precisa ser ambientalista
*****Ser ambientalista é uma decisão cidadã que um profissional da comunicação ambiental pode ter ou não. Melhor se tiver, pois o planeta não é um enorme armazém de recursos infinitos, por um lado, e uma enorme lixeira capaz de absorver indefinidamente os nossos restos, por outro. O engajamento com a causa ambiental, neste caso, não é do profissional de comunicação, mas do cidadão, e isso deve estar claro para não transformar o resultado do trabalho em panfletos ideológicos onde só importa a opinião de um lado em detrimento de outras opiniões.
3. 2. Os limites da comunicação Ambiental
*****Só democratizar a informação ambiental pode não ser suficiente para produzir as mudanças necessárias de opinião. Não é pelo maior ou menor volume de informações que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo, se não tiver uma cultura e uma formação que predisponha as pessoas a valorizar esta informação. Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco se tornando insensíveis diante da informação, como se fosse mais uma espécie de poluição onde as palavras perdem o significado e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore ou uma floresta. A simples veiculação de informação ambiental desassociada de um compromisso com a cidadania crítica e participativa como defende a educação ambiental, ao contrário de estimular uma revisão de valores, pode aumentar a velocidade do saque aos recursos do Planeta, uma espécie de ética distorcida, como se a seleção natural das espécies separasse o mundo em vencedores (desenvolvidos, países de primeiro mundo) e perdedores (em desenvolvimento, subdesenvolvidos, países de segundo e terceiro mundo) onde apenas os mais aptos e espertos sobrevivem, aqueles que chegaram primeiro e dispõem dos melhores meios e tecnologias para retirar e utilizar com mais eficiência e rapidez os recursos do Planeta, capitalizando lucros e socializando prejuízos.
4. Adaptar o ‘ecologês’
*****Não basta ter clareza do que precisa ser mudado a fim de conseguir uma relação mais harmônica da espécie humana com as outras espécies e o próprio planeta. É preciso sensibilizar e mobilizar a sociedade em direção a esse mundo melhor, por isso, aqueles que se comunicam com o público precisam falar uma linguagem que seja percebida por todos. Se queremos a compreensão e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos, devemos adaptar o ecologês às carências da nossa sociedade, partindo dos temas que a sociedade já domina e conhece para os que precisa conhecer a fim de construir uma melhor relação, mais harmônica, menos poluidora com seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta.
5. A opinião pública não é um livro em branco
*****Ao traçar uma política de comunicação ambiental deve-se levar em conta que a opinião pública já dispõe de informações ambientais, mas essas informações podem ser negativas, incompletas, falsas, preconceituosas, tendenciosas. Nem toda a informação ou o melhor plano de comunicação ambiental do mundo irá convencer ou sensibilizar quem não quer ser convencido nem sensibilizado. Por isso, uma política de comunicação ambiental nunca parte do zero, mas precisa pesquisar a percepção que os diferentes públicos já possuem e, a partir daí, estabelecer uma estratégia para identificar quais os públicos são os mais prioritários, que tipo de mensagem e linguagem serão mais apropriados, que veículos deverão ser empregados, que campanhas devem ser prioritárias. A cada período, uma nova pesquisa deve ser efetivada a fim de avaliar se a política de comunicação está sendo eficaz, redefinindo prioridades e aprendendo com os erros.
6. A verdade como melhor estratégia
*****O melhor antídoto para a desconfiança do público é a verdade, com a circulação de documentos e informações específicas para este público e identificação de parceiros para projetos. Pode-se ainda promover visitas desse público ao empreendimento e palestras de especialistas independentes, cujas posições, apesar de críticas em relação ao empreendimento, mantêm abertas as portas ao diálogo e aprovam o empreendimento, embora com restrições e exigências, o que é melhor que posições absolutamente contrárias, que não favorecem o diálogo ou provocam um clima de confronto da comunidade com a empresa.
7. Os papéis das mídias
*****Ao traçar planos de mídia para a área ambiental é importante que os profissionais de comunicação compreendam o papel complementar da chamada Grande Mídia e das mídias especializadas em meio ambiente, a fim de evitar o desperdício de informação e de recursos, e obterem melhores resultados junto ao segmento da opinião pública que realmente se interessa e leva em conta a informação ambiental. A Grande Mídia precisa atender um público diferenciado que está interessado em diversos assuntos, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Já a mídia ambiental também aborda diversos temas, mas todos interligados direta ou indiretamente à questão ambiental, tornando-se uma referência natural para quem busca informações ambientais.
8. O todo em vez das partes
*****É importante adotar um Plano de Comunicação de forma sistêmica, ou seja, envolvendo a todos e não apenas um de seus setores, pois não adianta um setor para preservar e criar uma imagem de compromisso com o meio ambiente, se outros setores contribuem para a imagem de poluição e degradação ambiental. Por exemplo, tão importante quanto a atuação coordenada dos setores de relações públicas, assessoria de imprensa, publicidade e propaganda, é a atuação de setores como de controle e monitoramento ambiental, engenharia de produção, etc.
9. Comunicação em mão dupla
*****O diálogo tem a função de reconciliar posições conflitantes, sendo mais eficaz que a imposição e o controle. Ao criar canais de negociação, como Conselhos Comunitários ou Auditorias Ambientais Não-Governamentais, as organizações permitem que os tomadores de decisão se antecipem a problemas ou adotem novos procedimentos no seu gerenciamento e atividades ambientais. As análises e decisões sobre os problemas, quando tomadas em conjunto, estimulam o envolvimento e comprometimento de todos nas soluções adotadas.
10. Sugestão para uma Política de Comunicação Ambiental
*****Uma política de comunicação ambiental é tão importante para uma empresa ou organização quanto construir prédios ou instalar equipamentos, pois se a opinião pública estiver contra, as dificuldades para licenciamento de novas operações ou para a ampliação de instalações existentes será cada vez maior. Estabelecer uma política de comunicação ambiental, aliás, qualquer política, pressupõe planejamento, reuniões com as pessoas responsáveis por sua execução, previsão orçamentária para o financiamento desses produtos, etc. Uma das primeiras regras é definir seus diferentes públicos de interesse, o que eles pensam e esperam da corporação. Identificar estes diferentes públicos é relativamente fácil através de pesquisa de opinião independente, identificando motivações, áreas de conflito que podem gerar problemas legais, interesses e perspectivas e que imagem têm da empresa em relação à problemática ambiental, etc. Esta pesquisa deve ser anual e pode ser feita em parceria com uma ONG, a fim de se comparar os resultados e os avanços de um ano para outro. É uma forma de se prevenir de surpresas desagradáveis, além de ajudar a verificar se a empresa está investindo bem ou desperdiçando recursos ou desconsiderando áreas de sua responsabilidade. Um dos primeiros públicos de interesse que a pesquisa deve apontar é o público interno, intra-muros, compreendendo os funcionários, diretoria, corpo técnico, com extensão aos prestadores de serviços. Esse público pode se tornar um ótimo multiplicador de opinião da empresa. É importante realizar seminários internos e campanhas de conscientização adequados a cada nível na empresa, conscientizando a todos sobre o novo empreendimento ou as atividades da empresa, sua importância tanto em nível dos trabalhadores quanto da comunidade e para o meio ambiente, a fim de que disponham dos argumentos e informações adequadas diante de questionamentos na comunidade. Uma boa política de comunicação com o público interno, franca, democrática, tolerante às críticas, pode fazer a diferença para a empresa. Devidamente informados, os funcionários podem ser importantes defensores da empresa durante audiências públicas, ou em situações de emergências ambientais, por exemplo, pois também são membros da comunidade. Extra-muros, dois tipos de públicos podem ser determinantes numa Política Ambiental eficiente. O imediatamente próximo, ou seja, as comunidades vizinhas ao empreendimento, pois vêem os caminhões da empresa passando, a fumaça de suas chaminés, o cheiro, os barulhos, etc. E não adianta adotar a política de "comprar" as lideranças da comunidade ou os políticos da região, pois, com raras exceções, em momentos de crise, quando a imagem da empresa corre risco, estas lideranças tendem a se 'fingir de mortas' ou até mesmo ficar contra a empresa, pois temem perder votos junto à comunidade por ficarem 'ao lado da empresa' que está sob ataque. Por isso, uma boa política neste caso não deve focalizar-se apenas sobre as lideranças, mas sobre a própria comunidade. O outro público extra-muros de extrema importância são os multiplicadores de opinião, como os ambientalistas, líderes sindicais e comunitários, parlamentares, professores e os próprios jornalistas, devido seu alto poder de influência junto a opinião pública e de multiplicação de informação. É um público crítico, desconfiado e exigente e que normalmente é ouvido pela Imprensa como contraponto às declarações da Empresa. O melhor antídoto para lidar com esse público é a verdade e a transparência, com a circulação de documentos e informações específicas para cada multiplicador de opinião. Se a empresa não tem nada a esconder, não tem por que temer uma política transparente de comunicação. Pode-se ainda promover visitas desse público ao empreendimento e palestras de especialistas independentes, cujas posições, mesmo quando críticas em relação ao empreendimento, mantêm abertas as portas ao diálogo, o que é melhor que posições absolutamente contrárias, que não favorecem o diálogo ou provocam um clima de confronto entre opinião pública e empresa. Também é uma boa estratégia criar mecanismos de controle social sobre os programas e projetos ambientais da Empresa, como a participação de ambientalistas ou mesmo a parceria de ONGs na execução e até fiscalização de projetos. A intenção não é a empresa tentar 'comprar' a opinião dessas lideranças, mas sim envolvê-las na solução de problemas, tornando-as numa espécie de testemunhas da sinceridade da Empresa em conduzir seu programa e projetos ambientais. Pode até ser uma vantagem a mais para a empresa na negociação com o poder público, além de garantir pontos positivos numa audiência pública.